Continuando
com a estruturação do nosso Balanço Patrimonial Pessoa Física (BP-PF), vamos
retornar ao artigo anterior no ponto em que discutíamos a decisão de comprar o
veículo novo (compra à vista ou compra financiada).
Naquele
momento foi possível observar claramente que ambas as decisões de compra (à
vista e com financiamento bancário) foram determinantes para a redução da
geração de caixa ocorrida no BP-PF. Podemos concluir que, financeiramente, a
compra do carro foi uma péssima decisão.
O
fluxo de caixa positivo se reduziu de R$ 43 mil para R$ 35 mil e depois para R$
20 mil, na medida em que as opções de compra do veículo eram analisadas. Da
mesma forma, o Patrimônio Líquido que era POSITIVO em R$ 40 mil se transformou
em Patrimônio NEGATIVO de R$ 60 mil, numa variação NEGATIVA de R$ 100 mil.
Estes
foram os impactos mais visíveis e marcantes de apenas uma decisão errada, referente
à compra de um veículo novo. Imagine a quantidade de equívocos que podem
ocorrer quando não se possui uma visão mais abrangente dos aspectos financeiros
que influenciam as decisões de investimento. Esse é um dilema constante vivenciado
no ambiente empresarial e que, como se percebe agora, afeta diretamente as pessoas
físicas também.
Por
isso é tão importante conhecer os princípios de Análise Econômica e Financeira
de Empresas e direcioná-los às nossas vidas. O entendimento desses conceitos pode
e deve contribuir para a construção de ATIVOS GERADORES DE RENDA durante
aqueles anos em que somos mais produtivos e cheios de energia, para que
possamos preparar uma velhice tranquila e confortável.
Vamos
rever a situação inicial descrita no artigo anterior:
“Imagine que você é relativamente
jovem, vive apenas para si e possua um bom emprego para os padrões brasileiros”.
Seu Balanço Patrimonial poderia ser assim:
ATIVO
|
PASSIVO
|
Emprego
(gera renda líquida média de R$ 7.000,00/mês = R$ 84.000,00/ano)
|
Veículo
próprio avaliado em R$ 10.000,00 (gera despesa de R$ 4.000,00/ano com IPVA,
seguro, manutenção e combustível)
|
Aplicação
financeira de R$ 50.000,00 (gera renda extra de R$ 400,00/mês = R$
5.000,00/ano com juros sobre juros)
|
Despesa
de aluguel, condomínio, energia elétrica e telefone de R$ 1.500,00/mês = R$
18.000,00/ano
|
Outros
ativos e receitas = 0,00
|
Outras despesas
(vestuário, alimentação, viagens, plano saúde, outras) = R$ 2.000,00/mês = R$
24.000,00/ano
|
Total Ativo = 50.000,00
|
Total Passivo = 10.000,00
|
Patrimônio Líquido Positivo =
40.000,00
|
|
Total geração receitas ano =
89.000,00
|
Total geração despesas ano =
46.000,00
|
Fluxo de caixa positivo = 43.000,00/ano
|
Fluxo de caixa negativo = ZERO
|
Você possui um emprego estável que
produz R$ 7 mil de caixa positivo mensalmente e contribui para que seu
Patrimônio Líquido anual seja positivo em R$ 40 mil (ativos – passivos). Esta
situação se reflete em um fluxo de caixa positivo de R$ 43 mil por ano.
Esses R$ 43 mil anuais podem e
devem ser reinvestidos no ativo, renovando seus investimentos e aumentando sua
geração positiva de caixa ano após ano, possibilitando que a geração de caixa
dos seus investimentos supere, no longo prazo, a geração de caixa do seu
trabalho assalariado. É reinvestir o lucro no giro dos negócios (ativo
circulante), como as empresas fazem, ou deveriam fazer.”
Antes
de continuar, uma observação: quando se trabalha com projeções de longo prazo,
os efeitos da perda de poder de compra da moeda (inflação) e do custo de
oportunidade do capital (risco/retorno) devem ser calculados sempre.
Entretanto, para efeitos didáticos, desprezaremos estas variáveis no exemplo
para não complicar muito a estruturação do nosso BP. Trabalharemos com valores
nominais para os próximos períodos supondo que, da mesma forma que a inflação
corrige as despesas do Passivo, as reposições salariais atualizam a principal
receita do Ativo.
Desta
forma, consideraremos no BP apenas novas receitas e despesas criadas ao longo
do tempo, lembrando que a principal receita incremental gerada no Ativo provém
das remunerações obtidas sobre as sobras do trabalho assalariado. Mesmo assim,
é sempre importante lembrar que, no longo prazo, a tendência é a inflação
“ganhar” da correção dos salários.
Agora
vamos analisar os efeitos da decisão correta que deveria ter sido tomada à
época, ou seja, não comprar o carro novo. Você ponderou que, sem maiores
compromissos de longo prazo, poderia adiar a troca do carro e continuar
investindo seus recursos excedentes na CRIAÇÃO DE ATIVOS. Vamos ver como
ficaria o BP no ano seguinte:
Balanço
Patrimonial – um ano depois
ATIVO
|
PASSIVO
|
Emprego
(gera renda líquida média de R$ 7.000,00/mês = R$ 84.000,00/ano)
|
Veículo
próprio avaliado em R$ 10.000,00 (gera despesa de R$ 4.000,00/ano com IPVA,
seguro, manutenção e combustível)
|
Aplicação
financeira de R$ 55.000,00 (R$ 50 mil do ano anterior mais R$ 5 mil da renda
anual do ano anterior). Gera renda extra de R$ 400,00/mês = R$ 5.000,00/ano
com juros sobre juros
|
Despesa
de aluguel, condomínio, energia elétrica e telefone de R$ 1.500,00/mês = R$
18.000,00/ano
|
Nova
aplicação financeira de R$ 43.000,00 (fluxo de caixa positivo gerado no ano
anterior). Gera renda extra de R$ 250,00/mês = R$ 3.000,00/ano com juros
sobre juros
|
Outras despesas
(vestuário, alimentação, viagens, plano saúde, outras) = R$ 2.000,00/mês = R$
24.000,00/ano
|
Total Ativo = 98.000,00
|
Total Passivo = 10.000,00
|
Patrimônio Líquido Positivo =
88.000,00
|
|
Total geração receitas ano = 92.000,00
|
Total geração despesas ano =
46.000,00
|
Fluxo de caixa positivo = 46.000,00/ano
|
Fluxo de caixa negativo = ZERO
|
Note
que os Ativos quase dobraram de um ano para o outro, fortalecendo o Patrimônio Líquido Positivo, que passou de R$ 40 mil para R$ 88 mil (incremento de 120%), fazendo o fluxo de caixa aumentar de R$ 43 mil
para R$ 46 mil.
Observe
que um aumento de quase 100% nos Ativos gerou um acréscimo de “apenas” R$ 3 mil
na geração de caixa de um ano para o outro. Parece pouco, não é verdade? Parece, mas não é.
Deve-se levar em conta que a geração de caixa do exercício anterior, que era renda, foi incorporada ao Ativo neste exercício, tornando-se FATOR GERADOR DE RENDA (os R$ 5 mil de rendimento da aplicação de R$ 50 mil do ano anterior se transformou em aplicação de R$ 55 mil neste último exercício).
Nos últimos dois anos, a geração de caixa das aplicações financeiras foi de R$ 13 mil (R$ 5.000,00 + R$ 5.000,00 + R$ 3.000,00). A cada ano que passa, a renda gerada se transforma em fator gerador de renda, pelo reinvestimento do ganho no giro do negócio, como se diz no jargão empresarial.
Deve-se levar em conta que a geração de caixa do exercício anterior, que era renda, foi incorporada ao Ativo neste exercício, tornando-se FATOR GERADOR DE RENDA (os R$ 5 mil de rendimento da aplicação de R$ 50 mil do ano anterior se transformou em aplicação de R$ 55 mil neste último exercício).
Nos últimos dois anos, a geração de caixa das aplicações financeiras foi de R$ 13 mil (R$ 5.000,00 + R$ 5.000,00 + R$ 3.000,00). A cada ano que passa, a renda gerada se transforma em fator gerador de renda, pelo reinvestimento do ganho no giro do negócio, como se diz no jargão empresarial.
Isso
tudo porque simulamos investimentos no mercado
financeiro, em aplicação de baixo risco. Nos últimos meses, os juros
básicos da economia caíram muito em relação à sua série histórica, fazendo com
que o retorno dos investimentos seja mais lento. Caso os juros voltem para uma média histórica de 1% ao mês ou um pouco mais, o retorno será maior, em menor
prazo. Você também poderá encontrar outros tipos de investimento com retornos mais atraentes, em outras áreas.
Na análise de rentabilidade, também
é importante relembrar as observações finais do artigo anterior: os custos das
despesas geradas no Passivo geralmente são maiores que os ganhos das receitas
geradas no Ativo, uma vez que, no mercado bancário, para pessoas físicas, as
taxas de custeio dos empréstimos quase sempre superam as taxas de remuneração
do capital.
Portanto,
para não perder geração de caixa, é importante SEMPRE MANTER ATIVOS EM PROPORÇÃO
SUPERIOR AOS PASSIVOS, ou simplesmente reduzir Passivos, quando não for
possível gerar novos Ativos.
No
próximo post seguiremos com o mesmo raciocínio, projetando essa estratégia para os anos seguintes (próximos três anos), para podermos analisar
o BP após quatro anos da decisão de não comprar o veículo novo.
Aguarde!