A primeira grande diferença entre direito
e dever é que o primeiro é uma possibilidade e o segundo, uma obrigação. Nunca
esqueça isso. Parece pouco, mas compreender essa pequena diferença é
determinante para uma total mudança de conceitos em uma sociedade.
John
Fitzgerald Kennedy disse em um de seus famosos discursos: “não pergunte o que
seu país pode fazer por você, e sim o que você pode fazer por seu país”. Não
acho que devemos chegar ao extremo de abdicar de direitos para apenas cumprir
deveres, mas com certeza este pensamento é um símbolo da consciência do dever individual,
formador do amálgama de um povo, premissa para uma proposta de futuro digno
para uma nação.
Se
você acha, por exemplo, que tem direito à educação pública de boa qualidade,
você também tem o dever de estudar muito, aprender de verdade, respeitar os
professores e tirar boas notas.
Se
você acha que tem direito a um sistema de saúde público de qualidade, você
também tem o dever de cuidar da sua saúde, para não onerar o sistema, e ser
íntegro, não pedindo atestados médicos falsos ou
por motivos pífios apenas para conseguir umas folgas.
Se
você acha que a violência atual é um absurdo e que o estado deveria proporcionar segurança pública de qualidade, você também tem a
obrigação de contribuir para a segurança da sua cidade, não financiando as organizações criminosas através da compra de cocaína ou
outras drogas.
A dignidade humana não brota dos
direitos recebidos e sim dos deveres cumpridos, da superação. É assim que se
criam os homens fortes.
Antigamente,
na esfera pública, para ser prefeito, parlamentar, juiz ou delegado, um cidadão
era escolhido entre seus pares e convidado a concorrer em função dos seus atos
passados e exemplos de vida, como acontece nas tribos indígenas e africanas em
relação aos líderes, geralmente os anciões e sábios.
Representar a sociedade era um prêmio, um reconhecimento pela honra e dignidade. O passado de uma pessoa era seu atestado de idoneidade. E para a comunidade era mais fácil escolher entre os mais velhos, pois estes já haviam demonstrado durante a vida suas competências e valores morais, diferentemente dos mais jovens, que são sempre uma aposta, pois ainda não possuem uma história de vida a ser avaliada.
Representar a sociedade era um prêmio, um reconhecimento pela honra e dignidade. O passado de uma pessoa era seu atestado de idoneidade. E para a comunidade era mais fácil escolher entre os mais velhos, pois estes já haviam demonstrado durante a vida suas competências e valores morais, diferentemente dos mais jovens, que são sempre uma aposta, pois ainda não possuem uma história de vida a ser avaliada.
Em
muitas localidades do Brasil, até meados da década de 70, a função de vereador
não era remunerada. Era uma missão dada aos escolhidos pela sua comunidade. Os
trabalhos na Câmara de Vereadores eram à noite, ou em um determinado dia da
semana, para não comprometer os afazeres pessoais dos eleitos, pois todos eles
tinham outras profissões ou atividades para garantir-lhes o sustento. Eram
pessoas que serviam à sociedade e não geravam custos aos pagadores de impostos.
Não se serviam dela.
Hoje,
muitos encontram na política uma carreira promissora, uma fonte de renda
abundante e a possibilidade de satisfazer vaidades e narcisismos. Infelizmente,
a política também pode servir para compensar fracassos profissionais,
emocionais ou familiares. É por isso que existem tantos políticos ruins e
militantes imbecilizados: fizeram da política a “tábua de salvação” dos seus
fracassos pessoais.
Conheço
prefeitos que nunca se preocuparam ou souberam cuidar do orçamento doméstico ou
de uma pequena empresa, e se acham capazes de administrar uma cidade.
Conheço deputados e deputadas que nunca tiveram outra atividade na vida a não ser a política. Nunca conseguiram cumprir pequenas regras de convivência
do lar quando adolescentes (arrumar o quarto, lavar a louça, lavar as próprias roupas), e se acham capazes de propor leis que alteram a vida das pessoas de uma hora para outra, como se fossem senhores do destino.
Conheço
juízes que nunca conseguiram manter uma relação estável com um companheiro ou
companheira, não possuem filhos, e se acham capazes de decidir sobre complexas
questões familiares.
Bons
médicos, professores experientes, engenheiros e contadores renomados, só para
citar alguns casos, muitas vezes não dispõem de tempo para se dedicar à
política, pois são muito demandados em suas profissões. É assim que a política,
na maioria das vezes, cai nas mãos dos medíocres, dos preguiçosos e dos
malandros. Essa é uma história muito comum no Brasil.
E
qual o resultado disso tudo? Podemos responder com aquele conhecido ditado
oriental:
“Tempos difíceis criam homens
fortes, homens fortes criam tempos fáceis, tempos fáceis criam homens fracos e
homens fracos criam tempos difíceis...”
Vivemos
tempos difíceis, com homens fracos, medíocres, malandros e preguiçosos. Não
será fácil consertar esse país. Essa mentalidade de pensar apenas “nos meus direitos”,
predominante no Brasil, não é a única causa, mas é uma das maiores protagonistas
do fracasso dessa nação.