domingo, 27 de janeiro de 2019

Pedras ou esperança?

Saulo de Tarso, mais conhecido como apóstolo Paulo, São Paulo ou simplesmente como o apóstolo dos gentios, foi um dos maiores pregadores do Evangelho do Cristo, logo após a sua morte, no início da era cristã.

Nascido em Tarso (antiga Tarsus, Cilícia, hoje pertencente à Turquia), viveu grande parte da sua vida adulta na Jerusalém dos fariseus, conquistada pelos romanos, sendo um perseguidor implacável dos primeiros cristãos.

Entretanto, após o seu encontro com o espírito do Messias no deserto de Damasco, decidiu mudar completamente a sua vida, abandonando os títulos de nobreza, a irá contra os cristãos e até seu nome de berço, para viver somente a palavra do Cristo e dedicar-se aos pobres, doentes e sofredores. As suas Epístolas compõem algumas das partes mais lindas e importantes do Novo Testamento.

No Brasil, o ano de 2018 se encerrou com muita turbulência na política e economia, numa conjuntura de tensão social alimentada por impaciência, intolerância, ódio, intrigas e desinformação, somada à crise e ao desemprego, situação muito complicada e perigosa para uma nação ainda jovem, que precisa de autoafirmação e maturidade em princípios e valores.

No Livro Paulo e Estevão, escrito por Emmanuel e psicografado por Chico Xavier em 1941, no capítulo O martírio em Jerusalém, o apóstolo dos gentios nos recorda uma grande lição de humanidade e humildade, na narrativa da última conversa com Lucas em Cesaréia, antes de embarcar para Roma como prisioneiro perseguido e caçado, assim como fazia aos primeiros cristãos, no auge da sua mocidade.

Abaixo, o trecho da memorável conversa e mensagem cristã, ocorrida às margens do Mediterrâneo há mais de dois mil anos, para que possamos refletir e buscar mais tolerância, paciência e esperança no novo ano que se inicia. Um ótimo 2019 a todos.

“A seguir, o Apóstolo tomou o braço do médico amigo e, seguido de perto pelo centurião, caminhou resoluto e sereno em demanda do barco. Centenas de pessoas acompanharam as manobras da largada, em santificado recolhimento regado de lágrimas e preces.

Enquanto o navio se afastava lento, Paulo e os companheiros contemplavam Cesaréia, de olhos umedecidos. A multidão silenciosa, dos que ficavam em pranto, acenava e ondeava na praia que a distância, aos poucos, diluía. Jubiloso e reconhecido, Paulo de Tarso descansava o olhar no campo de suas lutas acerbas, meditando nos longos anos de viltas e reparações necessárias.

Recordava a infância, os primeiros sonhos da juventude, as inquietações da mocidade, os serviços dignificantes do Cristo, sentindo que deixava a Palestina para sempre. Grandiosos pensamentos o empolgavam, quando Lucas se aproximou e, apontando a distância os amigos que continuavam genuflexos, exclamou brandamente:  — Poucos fatos me comoveram tanto no mundo, como este! Registrarei nas minhas anotações como foste amado por quantos receberam das tuas mãos fraternais o benefício de Jesus!... 

Paulo pareceu ponderar profundamente a advertência e acentuou: — Não, Lucas. Não escrevas sobre virtudes que não tenho. Se me amas não deves expor meu nome a falsos julgamentos. Deves falar, isso sim, das perseguições por mim movidas aos seguidores do santo Evangelho; do favor que o Mestre me dispensou às portas de Damasco, para que os homens mais empedernidos não desesperem da salvação e aguardem a sua misericórdia no momento justo.

— Citarás os combates que temos travado desde o primeiro instante, em face das imposições do farisaísmo e das hipocrisias do nosso tempo; comentarás os obstáculos vencidos, as humilhações dolorosas, as dificuldades sem conta, para que os futuros discípulos não esperem a redenção espiritual com o repouso falso do mundo, confiantes no favor incompreensível dos deuses e sim com trabalhos ásperos, com sacrifícios abençoados pelo aperfeiçoamento de si mesmos.

— Falarás de nossos encontros com os homens poderosos e cultos; de nossos serviços junto dos desfavorecidos da sorte, para que os seguidores do Evangelho, no futuro, não se arreceiem das situações mais difíceis e escabrosas, conscientes de que os mensageiros do Mestre os assistirão, sempre que se tornem instrumentos legítimos da fraternidade e do amor, ao longo dos caminhos que se desdobram à evolução da Humanidade.

E depois de longa pausa, em que observou a atenção com que Lucas lhe acompanhou os inspirados raciocínios, prosseguiu em tom sereno e firme: — Cala sempre, porém, as considerações, os favores que tenhamos recolhido na tarefa, porque esse galardão só pertence a Jesus. Foi Ele quem removeu nossas misérias angustiosas, enchendo o nosso vácuo; foi sua mão que nos tomou caridosamente e nos reconduziu ao caminho santo.

— Não me contaste tuas lutas amargurosas no passado distante? Não te contei como fui perverso e ignorante, em outros tempos? Assim como iluminou minhas veredas sombrias, às portas de Damasco, levou-te Ele à igreja de Antioquia, para que lhe ouvisses as verdades eternais. Por mais que tenhamos estudado, sentimos um abismo entre nós e a sabedoria eterna; por mais que tenhamos trabalhado, não nos encontramos dignos dAquele que nos assiste e guia desde o primeiro instante da nossa vida.

— Nada possuímos de nós mesmos!... O Senhor enche o vácuo de nossa alma e opera o bem que não possuímos. Esses velhinhos trêmulos que nos abraçaram em lágrimas, as crianças que nos beijaram com ternura, fizeram-no ao Cristo. Tiago e os companheiros não vieram de Jerusalém tão-só para manifestar-nos sua fraternidade afetuosa; vieram trazer testemunhos de amor ao Mestre que nos reuniu na mesma vibração de solidariedade sacrossanta, embora não saibam traduzir o mecanismo oculto dessas emoções grandiosas e sublimes.

— No meio de tudo isso, Lucas, fomos apenas míseros servos que se aproveitaram dos bens do Senhor para pagar as próprias dívidas. Ele nos deu a misericórdia para que a justiça se cumprisse. Esses júbilos e essas emoções divinas lhe pertencem... Não tenhamos, portanto, a mínima preocupação de relatar episódios que deixariam uma porta aberta para a vaidade incompreensível. Que nos baste a profunda convicção de havermos liqüidado nossos débitos clamorosos...

Lucas ouviu admirado essas considerações oportunas e justas, sem saber definir a surpresa que lhe causavam. — Tens razão — disse finalmente —, somos fracos demais para nos atribuirmos qualquer valor. — Além disso — acrescentou Paulo —, a batalha do Cristo está começada. Toda vitória pertencerá ao seu amor e não ao nosso esforço de servos endividados... Escreve, portanto, tuas anotações do modo mais simples e nada comentes que não seja para glorificação do Mestre no seu evangelho imortal!...

Enquanto Lucas procurava Aristarco para transmitir-lhe aquelas sugestões sábias e afetuosas, o ex-rabino continuou fitando o casario de Cesaréia, que se apagava agora no horizonte. A embarcação navegava suavemente, afastando-se da costa...

Por longas horas, deixou-se ficar ali, meditando o passado que lhe surgia aos olhos espirituais, qual imenso crepúsculo. Mergulhado nas reminiscências entrecortadas de preces a Jesus, ali permaneceu em significativo silêncio, até que começaram a brilhar no firmamento muito azul os primeiros astros da noite”.

Quanto custa?

O velho ditado diz: tudo na vida tem seu preço. Costumo acrescentar: tudo na vida, que está à venda, tem seu preço. Aquilo que está à ve...