Saulo de Tarso, mais conhecido como apóstolo Paulo, São Paulo ou simplesmente como o apóstolo dos gentios, foi um dos maiores
pregadores do Evangelho do Cristo, logo após a sua morte, no início da era
cristã.
Nascido em Tarso (antiga Tarsus, Cilícia,
hoje pertencente à Turquia), viveu grande parte da sua vida adulta na Jerusalém
dos fariseus, conquistada pelos romanos, sendo um perseguidor implacável dos
primeiros cristãos.
Entretanto, após o seu encontro com o espírito do Messias no deserto de Damasco, decidiu mudar
completamente a sua vida, abandonando os títulos de nobreza, a irá contra os cristãos e até seu nome de berço, para
viver somente a palavra do Cristo e dedicar-se aos pobres, doentes e sofredores.
As suas Epístolas compõem algumas das partes mais lindas e importantes do Novo Testamento.
No Brasil, o ano de 2018 se encerrou com
muita turbulência na política e economia, numa conjuntura de tensão social
alimentada por impaciência, intolerância, ódio, intrigas e desinformação,
somada à crise e ao desemprego, situação muito complicada e perigosa para uma
nação ainda jovem, que precisa de autoafirmação e maturidade em princípios e
valores.
No Livro Paulo e Estevão, escrito por
Emmanuel e psicografado por Chico Xavier em 1941, no capítulo O martírio em Jerusalém, o apóstolo dos
gentios nos recorda uma grande lição de humanidade e humildade, na narrativa da
última conversa com Lucas em Cesaréia, antes de embarcar para Roma como
prisioneiro perseguido e caçado, assim como fazia aos primeiros cristãos, no
auge da sua mocidade.
Abaixo, o trecho da memorável conversa e
mensagem cristã, ocorrida às margens do Mediterrâneo há mais de dois mil anos, para
que possamos refletir e buscar mais tolerância, paciência e esperança no novo
ano que se inicia. Um ótimo 2019 a todos.
“A
seguir, o Apóstolo tomou o braço do médico amigo e, seguido de perto pelo
centurião, caminhou resoluto e sereno em demanda do barco. Centenas de pessoas
acompanharam as manobras da largada, em santificado recolhimento regado de
lágrimas e preces.
Enquanto
o navio se afastava lento, Paulo e os companheiros contemplavam Cesaréia, de
olhos umedecidos. A multidão silenciosa, dos que ficavam em pranto, acenava e
ondeava na praia que a distância, aos poucos, diluía. Jubiloso e reconhecido,
Paulo de Tarso descansava o olhar no campo de suas lutas acerbas, meditando nos
longos anos de viltas e reparações necessárias.
Recordava
a infância, os primeiros sonhos da juventude, as inquietações da mocidade, os
serviços dignificantes do Cristo, sentindo que deixava a Palestina para sempre.
Grandiosos pensamentos o empolgavam, quando Lucas se aproximou e, apontando a
distância os amigos que continuavam genuflexos, exclamou brandamente: — Poucos fatos me comoveram tanto no mundo,
como este! Registrarei nas minhas anotações como foste amado por quantos
receberam das tuas mãos fraternais o benefício de Jesus!...
Paulo pareceu ponderar profundamente a advertência e acentuou: — Não, Lucas. Não escrevas sobre virtudes que não tenho. Se me amas não deves expor meu nome a falsos julgamentos. Deves falar, isso sim, das perseguições por mim movidas aos seguidores do santo Evangelho; do favor que o Mestre me dispensou às portas de Damasco, para que os homens mais empedernidos não desesperem da salvação e aguardem a sua misericórdia no momento justo.
Paulo pareceu ponderar profundamente a advertência e acentuou: — Não, Lucas. Não escrevas sobre virtudes que não tenho. Se me amas não deves expor meu nome a falsos julgamentos. Deves falar, isso sim, das perseguições por mim movidas aos seguidores do santo Evangelho; do favor que o Mestre me dispensou às portas de Damasco, para que os homens mais empedernidos não desesperem da salvação e aguardem a sua misericórdia no momento justo.
—
Citarás os combates que temos travado desde o primeiro instante, em face das
imposições do farisaísmo e das hipocrisias do nosso tempo; comentarás os
obstáculos vencidos, as humilhações dolorosas, as dificuldades sem conta, para
que os futuros discípulos não esperem a redenção espiritual com o repouso falso
do mundo, confiantes no favor incompreensível dos deuses e sim com trabalhos
ásperos, com sacrifícios abençoados pelo aperfeiçoamento de si mesmos.
—
Falarás de nossos encontros com os homens poderosos e cultos; de nossos
serviços junto dos desfavorecidos da sorte, para que os seguidores do
Evangelho, no futuro, não se arreceiem das situações mais difíceis e escabrosas,
conscientes de que os mensageiros do Mestre os assistirão, sempre que se tornem
instrumentos legítimos da fraternidade e do amor, ao longo dos caminhos que se
desdobram à evolução da Humanidade.
E
depois de longa pausa, em que observou a atenção com que Lucas lhe acompanhou
os inspirados raciocínios, prosseguiu em tom sereno e firme: — Cala sempre,
porém, as considerações, os favores que tenhamos recolhido na tarefa, porque
esse galardão só pertence a Jesus. Foi Ele quem removeu nossas misérias
angustiosas, enchendo o nosso vácuo; foi sua mão que nos tomou caridosamente e
nos reconduziu ao caminho santo.
—
Não me contaste tuas lutas amargurosas no passado distante? Não te contei como
fui perverso e ignorante, em outros tempos? Assim como iluminou minhas veredas
sombrias, às portas de Damasco, levou-te Ele à igreja de Antioquia, para que
lhe ouvisses as verdades eternais. Por mais que tenhamos estudado, sentimos um
abismo entre nós e a sabedoria eterna; por mais que tenhamos trabalhado, não
nos encontramos dignos dAquele que nos assiste e guia desde o primeiro instante
da nossa vida.
—
Nada possuímos de nós mesmos!... O Senhor enche o vácuo de nossa alma e opera o
bem que não possuímos. Esses velhinhos trêmulos que nos abraçaram em lágrimas,
as crianças que nos beijaram com ternura, fizeram-no ao Cristo. Tiago e os
companheiros não vieram de Jerusalém tão-só para manifestar-nos sua
fraternidade afetuosa; vieram trazer testemunhos de amor ao Mestre que nos
reuniu na mesma vibração de solidariedade sacrossanta, embora não saibam
traduzir o mecanismo oculto dessas emoções grandiosas e sublimes.
—
No meio de tudo isso, Lucas, fomos apenas míseros servos que se aproveitaram
dos bens do Senhor para pagar as próprias dívidas. Ele nos deu a misericórdia
para que a justiça se cumprisse. Esses júbilos e essas emoções divinas lhe
pertencem... Não tenhamos, portanto, a mínima preocupação de relatar episódios
que deixariam uma porta aberta para a vaidade incompreensível. Que nos baste a
profunda convicção de havermos liqüidado nossos débitos clamorosos...
Lucas
ouviu admirado essas considerações oportunas e justas, sem saber definir a
surpresa que lhe causavam. — Tens razão — disse finalmente —, somos fracos
demais para nos atribuirmos qualquer valor. — Além disso — acrescentou Paulo —,
a batalha do Cristo está começada. Toda vitória pertencerá ao seu amor e não ao
nosso esforço de servos endividados... Escreve, portanto, tuas anotações do
modo mais simples e nada comentes que não seja para glorificação do Mestre no seu
evangelho imortal!...
Enquanto
Lucas procurava Aristarco para transmitir-lhe aquelas sugestões sábias e
afetuosas, o ex-rabino continuou fitando o casario de Cesaréia, que se apagava
agora no horizonte. A embarcação navegava suavemente, afastando-se da costa...
Por
longas horas, deixou-se ficar ali, meditando o passado que lhe surgia aos olhos
espirituais, qual imenso crepúsculo. Mergulhado nas reminiscências
entrecortadas de preces a Jesus, ali permaneceu em significativo silêncio, até
que começaram a brilhar no firmamento muito azul os primeiros astros da noite”.