segunda-feira, 23 de julho de 2018

Auditoria nas demonstrações contábeis: a qualidade dos ativos e a geração de caixa – parte 1

O objetivo deste artigo não é abordar a questão da conformidade e do compliance das demonstrações financeiras e contábeis, e sim a robustez dos investimentos de curto e longo prazo e sua capacidade de gerar caixa para a organização.

Um trabalho de auditoria, independentemente do escopo, do universo auditável e das técnicas a serem aplicadas, pode conter, na sua origem, três tipos de abordagem: auditoria baseada em conformidade, auditoria baseada em riscos ou ambas.

Apesar da importância dos aspectos de conformidade e compliance para as organizações, o foco deste artigo será (a) a análise da qualidade das principais rubricas do Balanço Patrimonial e da Demonstração do Resultado do Exercício em relação às políticas de funding e de investimentos do negócio e (b) a análise dos riscos que podem comprometer a eficácia dessas políticas para o alcance dos resultados propostos (lucro operacional e geração de caixa operacional).

Antes de seguir adiante é importante observar que o resultado líquido, a margem líquida e o retorno líquido dos investimentos são informações acessórias em nossa análise, uma vez que o importante é sabermos se a organização possui capacidade de geração de resultado e caixa através das suas operações, e não provenientes de outras transações não operacionais.

A venda de um ativo imobilizado para esconder um prejuízo operacional, por exemplo, poderá resultar em lucro líquido ao final do exercício, gerando margem líquida e retorno líquido, mas não fará com que a empresa volte a ter lucro em suas operações se as causas não forem tratadas na origem.

Voltando ao tema, a geração de funding de um negócio, também conhecida por fontes de recursos ou origem dos recursos, é tratada na análise das rubricas contábeis do Passivo e do Patrimônio Líquido da organização, assim como a qualidade dos investimentos é observada através da análise dos valores aplicados no Ativo, principalmente aqueles de curto e longo prazo e algumas rubricas de caráter permanente.

Os quadros abaixo podem dar uma ideia de como funciona o fluxo de recursos que entra e sai de uma organização, sempre lembrando que o objetivo final é o lucro e a geração de caixa:

Quadro 1: exemplo de BALANÇO PATRIMONIAL – Ênfase na geração de caixa
ATIVO
PASSIVO
APLICAÇÕES DE RECURSOS
(INVESTIMENTOS)
FONTES DE RECURSOS
(PRÓPRIOS E DE TERCEIROS)
ATIVO CIRCULANTE
Recursos investidos no giro dos negócios que devem gerar caixa no curto prazo (até 360 dias), tais como:

- produtos para venda, estoques de mercadorias de giro rápido, saldo de caixa positivo das vendas à vista e das vendas parceladas de curto prazo;

- valores destinados a aquisição de mercadorias ou matérias primas (adiantamentos a fornecedores);

- saldo positivo em depósitos bancários e aplicações financeiras de valores excedentes, destinados a formar capital de giro próprio para a administração de entradas e saídas, estoques e sazonalidades;

- outros valores a receber de curto prazo.
PASSIVO CIRCULANTE
Recursos de terceiros que devem ser pagos no curto prazo (até 360 dias), tais como:

- valores destinados ao financiamento da produção ou compra de mercadorias (adiantamentos de clientes);

- valores destinados ao pagamento dos débitos de funcionamento: tributos a recolher, salários e encargos trabalhistas a pagar, despesas administrativas, dentre outros;

- empréstimos bancários obtidos para complementar os recursos necessários para o pagamento das despesas de curto prazo descritas acima;

- outros valores a pagar de curto prazo.
REALIZÁVEL A LONGO PRAZO (ATIVO NÃO CIRCULANTE)
Direitos a receber em longo prazo (mais de 360 dias), tais como:

- duplicatas a receber de vendas a prazo de longo prazo, acima de 12 meses (financiamento a clientes);

- duplicadas a receber de vendas a prazo de curto prazo, abaixo de 12 meses, não recebidas e renegociadas com os clientes para recebimento em longo prazo (financiamento a clientes);

- valores referentes a estoques de mercadorias não vendidas, de baixo giro, ou devolvidas;

- outros valores a receber em longo prazo.
EXIGÍVEL A LONGO PRAZO
(PASSIVO NÃO CIRCULANTE)
Recursos de terceiros que devem ser pagos em longo prazo (após 360 dias), tais como:

- financiamentos bancários de longo prazo para investimentos;

- dívidas de curto prazo não pagas, renegociadas para longo prazo e outras dívidas de longo prazo;

- impostos, tributos e encargos de curto prazo inadimplentes, renegociados para pagamento em longo prazo;

- outros valores a pagar em longo prazo.
ATIVO PERMANENTE
(ATIVO NÃO CIRCULANTE)
Investimentos
Imobilizado
Diferido
PATRIMÔNIO LÍQUIDO
Capital Social Integralizado
Reservas de Capital
Lucros/Prejuízos Acumulados
Outras Reservas


Quadro 2: exemplo do FLUXO DE ORIGEM E APLICAÇÃO DE RECURSOS


Quadro 3: exemplo de TIPOS DE RECURSOS CAPTADOS E APLICADOS


Após essa pequena introdução sobre as abordagens e os conceitos relacionados ao trabalho, partiremos no próximo artigo para o detalhamento dos aspectos mais relevantes que devem ser observados em cada rubrica contábil, e em grupos de rubricas contábeis, para mensurar a qualidade da captação e aplicação de recursos da organização na construção do resultado operacional e da geração de caixa.

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