sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O Balanço Patrimonial da Pessoa Física - parte 1

Prosseguindo com o tema da seção anterior, sobre gerenciar ativos e passivos da pessoa física com uma visão empresarial, vamos pensar agora em como estruturar um Balanço Patrimonial Pessoa Física sob o enfoque do fluxo de caixa positivo.

Existem diversos dispositivos legais que normatizam a contabilidade e a emissão de demonstrativos financeiros e contábeis para as pessoas jurídicas, assim como toda uma estrutura de controle e fiscalização para garantir, ou tentar pelo menos, que as transações de negócios das pessoas jurídicas atendam aos aspectos da legalidade, da transparência, da tempestividade dos registros, dentre outros princípios.

Mas pensemos um pouco: e as pessoas físicas? Será que não poderíamos imaginar um modelo que pudesse refletir um Balanço Patrimonial das pessoas naturais? Seria possível pensar sobre pessoas físicas como se fossem empresas e suas vidas pessoais – pelo menos pelo enfoque econômico - como um empreendimento?

Claro que sim, e isto já acontece faz tempo, basta ver o exemplo da revista Você S/A, que publica matérias sobre administração patrimonial e financeira voltadas para pessoas físicas.

Mas gostaria de ir um pouco além. Minha intenção é propor um modelo para a gestão financeira de uma pessoa comum, sem CNPJ, que possa refletir as ideias e conceitos da boa administração financeira que é aplicada às empresas em geral. Este é o desafio.

Vamos tentar?

Em primeiro lugar surgem duas questões: como seria a classificação dos bens, direitos e obrigações? E como saber se determinado bem ou direito é um ativo ou passivo?

Antes de pensarmos nas respostas é importante lembrar que, mesmo tendo como enfoque a administração financeira de empresas, os conceitos contábeis aqui aplicados serão diferentes das regras gerais da contabilidade tradicional, direcionada às empresas.

Na nossa visão, relacionada à definição de ativos e passivos para pessoas físicas, a principal premissa é a GERAÇÃO DE RENDA. Resumidamente, podemos dizer que um ATIVO gera RENDA e um PASSIVO gera DESPESA. Simples assim. Todavia, ao olharmos cada situação mais de perto, será preciso atentar para alguns detalhes que podem complicar o entendimento.

Assim, no Balanço Patrimonial PF, teremos os bens e direitos que geram renda no ATIVO e as obrigações e os BENS/DIREITOS que geram despesas no PASSIVO. É isto mesmo, poderemos ter bens e direitos classificados no passivo. Aí é que as coisas começam a complicar.

Vamos por partes. Primeiro, temos que lembrar sempre que esta classificação independe da natureza primária do item patrimonial e deve ser orientada somente pela sua característica intrínseca em gerar renda ou despesa (fator gerador).

Segundo, existem bens e direitos que geram renda e despesa ao mesmo tempo. Nestes casos é importante uma análise mais acurada para definir o resultado atingido em determinado período: se o bem/direito gerar mais despesas que receitas será classificado como passivo, caso contrário, como ativo, desde que o resultado positivo seja superior ao custo de oportunidade do capital, condição esta que será aprofundada mais adiante.

Considerando estes conceitos, podemos “brincar” um pouco com diversas situações do dia-a-dia e refletir sobre seus efeitos financeiros no nosso bolso:

- Aquelas despesas que estamos acostumados a pagar mensalmente, como condomínio, escola das crianças, academia, energia elétrica, gasolina e manutenção do carro, não deixam dúvidas, pois sabemos bem quanto custam todos os meses.

- Mas e a compra daquele carro zero quilometro que você tanto sonhava, registrado na declaração do imposto de renda como um bem que aumenta seu patrimônio, significa na verdade que você comprou um passivo que gera despesa e reduz seu fluxo de caixa? Sim, é isso mesmo.

- E a tão sonhada casa ou apartamento que você adquiriu com tanto esforço, também registrado na declaração do IR como bem que faz seu patrimônio aumentar, é um passivo porque não gera renda e sim despesas de manutenção, condomínio, água, luz, etc? Sim, é exatamente isso.

- E aquele segundo imóvel que você comprou, para alugar e receber renda, é um ativo ou um passivo? Neste caso, em princípio, trata-se de um ativo, pois é um investimento gerador de renda.

- Mas aí você fica pensando: quer dizer que o apartamento onde resido, que é meu, quitado, é um passivo? E o outro que comprei e não moro nele é um ativo? E a despesa de aluguel que eu deixei de ter ao morar em imóvel próprio não entra nesta conta? Sim, a redução de uma despesa deve ser considerada no fluxo de caixa, MAS NÃO NO BALANÇO PATRIMONIAL, pois o imóvel próprio continua sendo um fator gerador de despesa E DEVE SER CLASSIFICADO COMO UM PASSIVO.

- O segundo apartamento que foi comprado para gerar renda de aluguel será classificado no ativo por ser um investimento gerador de renda, DESDE que as receitas geradas sejam superiores aos custos de manutenção, custos de condomínio do proprietário, custos de vacância e ao custo de oportunidade do capital. Nestes casos, a médio e longo prazo, a tendência do imóvel de aluguel é se transformar em passivo, quando se constata, “na ponta do lápis”, que os custos totais foram superiores às receitas do aluguel. Muito cuidado nestes casos.

- Mas aí você questiona: e a valorização do imóvel não conta? Se computamos os custos de manutenção e depreciação, também não deveríamos incluir nos cálculos a valorização do bem? Esta é uma questão difícil de responder por envolver o futuro. E este ninguém sabe como será. Mas podemos responder essa questão lembrando outra premissa que norteia a Análise Econômica e Financeira de Empresas, que é o Princípio da Prudência ou do Conservadorismo.

- Os custos de manutenção e depreciação do imóvel que você comprou acontecerão certamente no futuro, enquanto a valorização do bem é INCERTA, ou seja, poderá ocorrer ou não. Além disso, você só teria geração de caixa se vendesse o imóvel durante a valorização, REALIZANDO o lucro, criando o fluxo de caixa positivo. O fator valorização não deve ser considerado se você não vender o imóvel. Lembre-se, nosso exercício aqui é entender a visão da geração de caixa pela ótica empresarial.

Estes conceitos precisam ser muito bem observados e compreendidos para que você possa efetivamente administrar sua vida financeira como uma empresa deveria ser administrada e evitar a insolvência que preocupa constantemente aqueles que administram empreendimentos.

Continuaremos “exercitando” esse novo paradigma no próximo post, com outros questionamentos e exemplos que nos farão pensar e repensar entendimentos sobre administração financeira pessoal.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Dinheiro & Dilemas – E agora, faltou lucro ou faltou caixa?

Uma empresa não quebra por falta de lucro, e sim por falta de caixa. Essa é uma das máximas da administração financeira. Não é o lucro ou o prejuízo que definem a insolvência de um empreendimento, mas sim a sua incapacidade em gerar fluxo de caixa positivo (entradas de caixa superiores às despesas correntes).

Existem vários exemplos de empresas que passaram longos períodos em situação concordatária (à época) ou de recuperação judicial, conseguindo reverter, ao longo do tempo, contextos econômicos e financeiros altamente desfavorável, simplesmente por serem empreendimentos com grande capacidade de gerar caixa de forma contínua.

Podemos citar os casos da Bombril nos anos 90 e de empresas de energia, como a Light e Cemig, mais recentemente, que passaram por dificuldades operacionais graves e mesmo assim conseguiram manter suas gerações de caixa em níveis satisfatórios para suportar as dificuldades advindas e os desmandos cometidos (algumas com forte interferência estatal em detrimento da boa gestão corporativa).

Um empreendimento pode suportar dificuldades e problemas econômicos ou setoriais, sazonais ou não, até retornos negativos advindos de gestão temerária, por um bom período de tempo, desde que sua geração de caixa seja robusta e constante.

O lucro ou prejuízo lançado na Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) é mero registro fotográfico de um momento, de uma data, mas corresponde a toda uma sequência de transações, fatos contábeis e decisões administrativas ocorridas em um determinado período de tempo, onde o resultado final é uma consequência destes acontecimentos e não sua causa.

Esse é o ponto: o lucro ou prejuízo são o resultado das escolhas e decisões tomadas ao longo do tempo, onde os fluxos de caixa acontecem em função destas escolhas e se “materializam” ao final de determinado período como resultado do exercício contábil.

Uma empresa faz investimentos ao longo do tempo e espera obter lucro como resultado desses esforços. Precisa investir recursos financeiros, materiais, pessoais, tecnológicos, dentre outros, buscando fontes de capital para viabilizar tais investimentos. Este capital pode ser dos próprios sócios ou de terceiros.

No Balanço Patrimonial das empresas (BP) os investimentos são registrados no ATIVO e os recursos captados, próprios ou de terceiros, no PASSIVO. Assim, temos no Ativo as aplicações de recursos e no Passivo as fontes de recursos.

As fontes de recursos próprias e de terceiros, registradas no Passivo, possuem características onerosas à empresa, pois exigem uma remuneração aos terceiros que emprestaram recursos ao negócio e também criam uma expectativa de retorno aos sócios que investiram na sociedade, o velho e bom lucro.

Assim, espera-se que os investimentos realizados no Ativo criem margem de ganho superior ao custo dos capitais próprios e de terceiros (Margem Operacional Líquida > Custo Médio Ponderado de Capital), além de bancarem os custos operacionais envolvidos com a produção, salários dos empregados, encargos trabalhistas e impostos diversos, dentre outros, para que o Retorno dos Investimentos seja positivo (Lucro Operacional Líquido/Ativo Total).

Após essa introdução à Análise Econômica e Financeira de Empresas, poderíamos pensar em aplicar estes conceitos à administração econômica e financeira cotidiana das pessoas físicas, em suas relações comerciais e de negócios em geral. Imagine você administrando sua vida financeira como se fosse uma empresa que capta e aplica recursos com o objetivo de gerar margem positiva e lucro ao final do “exercício contábil”.

Parece uma boa ideia, afinal, assim como nas empresas, uma pessoa física precisa de renda para sobreviver e custear as despesas do dia-a-dia. Precisa gerar caixa. De que adiante ter patrimônio se estes bens não forem capazes de gerar renda contínua para comprar o leite, o pão, pagar a escola das crianças e as despesas do condomínio, por exemplo?

No entanto, para colocarmos em prática essa ideia seria necessário pensar sobre alguns pontos: Como estruturar o Balanço Patrimonial de uma pessoa física? Como seria a política de investimentos? E a estratégia de captação de recursos? Qual o apetite de risco e o limite de exposição ao risco de liquidez, por exemplo? Como identificar corretamente os investimentos que geram caixa positivo? E aqueles bens e direitos que parecem ativos, mas que na verdade são passivos, ou seja, geram mais despesas que receitas? Como administrá-los? Como calcular o custo desses passivos?

Vamos explorar melhor essas questões nos próximos artigos sobre o assunto.

Quanto custa?

O velho ditado diz: tudo na vida tem seu preço. Costumo acrescentar: tudo na vida, que está à venda, tem seu preço. Aquilo que está à ve...