Retornamos à pergunta: onde
está a grande oportunidade?
A grande oportunidade, como
sempre, é fazer o dever de casa. A diferença, neste momento, é que o Brasil não
tem mais saída, não tem como protelar aquilo que já deveria ter feito. Hoje,
mais do que nunca, precisamos de mudanças estruturais e não apenas de “puxadinhos”,
usados com fim eleitoral para enganar os incautos e empurrar os problemas para
o futuro. Isso já foi feito inúmeras vezes e agora o futuro bate à porta.
Mais importante que as famosas reformas
da previdência e trabalhista, a reforma tributária será imperativa e sua força
virá de fora, justamente pela pressão que a reforma americana imporá à economia
brasileira.
Seremos forçados a reduzir
impostos, em sintonia com uma tendência mundial, para sobrevivermos em um mundo
com produtos cada vez mais baratos. Ou isso ou a miséria.
Em um primeiro momento, a redução de impostos diminuirá a arrecadação tributária e significará menos recursos no orçamento da União. Os mais afoitos gritarão que teremos menos investimentos
governamentais, com agravamento da crise e ameaça às conquistas sociais. É uma meia verdade. Claro que no início não será fácil. Será uma limonada sem açúcar, e a pressão para não
fazê-la será imensa.
Mas vamos analisar um pouco
melhor suas consequências. Uma reforma tributária semelhante à americana reduzirá
a arrecadação tributária, certamente, mas isso não significa necessariamente redução no orçamento federal, uma vez que os custos das empresas brasileiras serão
aliviados e poderemos ter uma manutenção - ou até redução - nos preços dos
produtos, tal qual nos Estados Unidos.
Uma deflação de preços, ou
mesmo uma simples manutenção destes (parando de subir), dará ao Brasil a tão
sonhada oportunidade de reduzir as taxas de juros da economia para os níveis dos
países desenvolvidos, ao redor de 1,5% ou 2% ao ano. Não haverá necessidade de
utilizar os juros altos como âncora para segurar pressões inflacionárias, pois
elas deixarão de existir.
Com preços deflacionados e
juros civilizados, o custo de financiamento da dívida interna se reduzirá
sensivelmente, ou seja, se por um lado a arrecadação de impostos cairá, por
outro o governo desembolsará menos para rolar a dívida interna. Entra menos de
um lado e sai menos do outro, impactando pouco o orçamento geral da União.
A arrecadação de impostos em
2017 alcançou a marca de 2 trilhões de reais. A dívida interna, que corresponde
a 97% da dívida pública federal, chegou a 3,43 trilhões de reais, para um PIB que
deve fechar 2017 em torno de 6 trilhões de reais (https://g1.globo.com/economia/noticia/divida-publica-sobe-143-em-2017-para-r-355-trilhoes-e-bate-recorde.ghtml
e https://g1.globo.com/economia/educacao-financeira/noticia/brasileiros-ja-pagaram-r-2-trilhoes-em-impostos-em-2017.ghtml).
A título de exemplo, uma
redução geral de impostos de 12%, próxima à americana, representaria, a grosso
modo, uma redução de R$ 240 bilhões na arrecacação tributária. Entretanto, uma
redução de 5,5% nas taxas de juros do país (de 7% para 1,5%) geraria uma
economia de aproximadamente R$ 190 bilhões para os cofres públicos, ou seja,
para os pagadores de impostos. Observe que a tendência é uma redução ainda maior nos impostos, pois não estamos considerando o "efeito cascata" destes na cadeia produtiva.
Essa diferença de R$ 50 bilhões
seria rapidamente compensada pelo aquecimento da economia e redução do
desemprego, consequência natural do aumento da renda real e da redução dos
preços, contribuindo, inclusive, para um aumento na arrecadação de impostos. Em
determinadas circunstâncias, menos pode significar mais (Curva de Laffer). Viu
como o bicho não é tão feio assim.
Mas porque será difícil
promover essas mudanças? Quem jogará contra? Por que os meios de comunicação de
massa não tratam disso? Quem perde e quem ganha?
Quem ganha é a sociedade, o
povo, que verá seu dinheiro render mais ao fazer as compras no mercado, ao
pagar as contas do dia-a-dia e ao quitar suas dívidas. Com menos impostos e
juros embutidos nos produtos e serviços, o suado dinheiro do trabalhador irá render
muito mais.
Outra consequência benéfica da
redução dos juros será estimular os poupadores a procurarem melhores retornos
para seus investimentos, trocando o mercado financeiro por investimentos
produtivos, ajudando a fomentar a produção e a aumentar a riqueza.
E quem perde? Bem, aí começam
os problemas. Quem perde são os financiadores da dívida mobiliária federal e os
grandes rentistas, que verão os juros internos se reduzirem e seus rendimentos
idem. São poderosos banqueiros e gestores de fundos de investimento transnacionais,
que não permanecerão inertes e farão de tudo para que as reformas não
aconteçam.
Toda vez que o governo emite
títulos públicos para rolar uma dívida que representa quase 70% do PIB, os
compradores desses papéis fazem a festa com os juros altíssimos que recebem,
praticamente sem riscos. São os principais bancos nacionais e estrangeiros, os
grandes fundos de pensão, os milionários fundos de investimentos e outros
grandes investidores institucionais, de dentro e fora do país.
Os bancos aliás, são um
capítulo à parte nessa história. São as empresas que mais lucram no Brasil
desde a década de 80 e isso é uma grande anomalia empresarial, uma vez que não
produzem riqueza para o país. Lucram mais que todos os outros setores que atuam
diretamente para gerar a riqueza que sustenta a nação.
Esses serão os grandes
perdedores caso uma profunda reforma tributária seja implementada no país.
Mas aí você sentencia: então não
vai acontecer, uma vez que os grandes banqueiros mandam no país e vivem dos
juros altos e os políticos não votarão leis que reduzam a arrecadação, pois são
“afinados” com o sistema financeiro e participam da “gestão” de tudo o que é
arrecadado, para obterem vantagens legais e ilegais sobre esses recursos
(benefícios de toda espécie, cargos de confiança, propinas, compra de votos, campanhas
políticas caríssimas, fundo eleitoral com valores abusivos, e muito mais).
Pois é, talvez você tenha
razão. Mas penso que desta vez será diferente, pois as mudanças serão impostas
ao país por forças externas.
A estrutural reforma
trabalhista americana forçará também a Europa a rever suas relações de troca,
uma vez que, em relação à zona do euro, além de preços mais competitivos em futuro próximo, os
Estados Unidos possuem historicamente um câmbio mais favorável, o que tornará seus produtos ainda
mais atraentes aos europeus. É o que acontece hoje com os produtos chineses, cuja moeda é
desvalorizada em relação ao dolar e ao euro.
O governo americano está
acordando e os principais países europeus, com seus altos impostos e custos
trabalhistas, serão impelidos a adotar políticas econômicas semelhantes à
chinesa e americana.
Com a força da China, Estados
Unidos e Europa a assombrar nossa combalida economia, o Brasil não terá outra
alternativa a não ser promover mudanças estruturais, sendo a
maior delas a reforma tributária, com redução sensível de impostos sobre
produção e renda.
E nem pense em políticas
protecionistas, como adoção de tarifas de importação abusivas e outras medidas
para “fechar” o país para o exterior. Isso faria o Brasil reviver os anos 80, a
“década perdida”, com perdas ainda maiores em produtividade e competitividade. Sem
falar que, no mundo atual, com a globalização e informações em tempo real, a
“ficha” cairia rápido e a sociedade perceberia logo que seria ela a pagar o
pato pela incompetência e interesses alheios aos seus.
Vamos aguardar os próximos
capítulos, 2018 e 2019 serão determinantes. Ou assim será, ou não existiremos
mais como nação, ou projeto dela. O futuro chegou!
