Estamos vivendo tempos difíceis
em nosso país. Já havia tocado neste assunto em outro artigo, quando defendi
que a sociedade brasileira - ou seja, todos nós - precisa ter consciência dos seus
deveres individuais e coletivos, e não apenas lutar e gritar por direitos,
direitos e mais direitos (ver artigo Em
defesa dos Deveres Humanos).
Claro que temos os nossos direitos
e também o direito de lutar por eles, mas atualmente o que precisamos mesmo é
de um choque de lucidez coletiva para poder suportar toda a tensão moral,
social, política e econômica que assola todos os recantos dessa nação, neste
crucial momento de inflexão histórica e quase ruptura institucional.
Em poucos
momentos da nossa história republicana tivemos tanto ódio, intolerância e acirramento
de ânimos como atualmente. Após 1889, depois das revoltas armadas de 1930 e 32,
da ditadura Vargas e seu Estado Novo, até 1945, e do período mais conturbado do
regime militar, entre 1964 e 1974, esse talvez seja o momento de maior tensão
social da nossa história moderna, quase no limiar de uma convulsão social, o
primeiro passo para uma guerra civil declarada (já vivemos uma guerra velada em
algumas regiões) e pavimentação para um processo de secessão, talvez sem volta.
A necessidade
de pacificação é urgente e vital para a própria existência da nação. As pessoas
precisam se acalmar e respirar profundamente muitas e muitas vezes. É preciso
um grande esforço pessoal e emocional de cada cidadão pela manutenção da
sobriedade e do discernimento, e muita paciência com tudo e com todos, pelo Bem
Maior.
O pensamento
na política e no futuro do país não sai das nossas cabeças, o coração já
enfermo dispara constantemente, os nervos sempre “à flor da pele”, vivemos a intolerância
e a fúria a cada notícia recebida pelas redes sociais, com verdades
e mentiras que alteram o nosso humor e a nossa esperança na velocidade da luz, diversas
vezes ao dia. Estamos perdendo o sono, a saúde e, o pior, a razão.
Pensando e
refletindo o momento atual, me deparei com um texto simples e reconfortante
sobre a necessidade de contemplação e meditação, essenciais para despertar
nossas faculdades psíquicas e ativar nossas percepções às elevadas altitudes
morais e espirituais, tão importantes em qualquer fase das nossas vidas, e
neste momento em particular.
No livro O
grande enigma (La grande énigme, em francês), publicado em Paris em 1919, no
capítulo XIV, sobre a Natureza e a Elevação, o médiun e escritor espírita Léon
Denis aborda a necessidade de se buscar a calma profunda que penetra a alma, através
do silêncio e da solidão, mesmo naquelas situações em que nos encontramos em
meio às turbulências das selvas urbanas que nos cercam. Eis abaixo a mensagem:
“Dos
espaços majestosos, baixemos nossos olhares para a Terra. Apesar de suas
proporções modestas, ela tem, sabemo-lo, seus encantos, sua beleza. Cada
sítio tem sua poesia, cada paisagem sua expressão, cada vale
seu sentido particular.
A variedade é tão grande nos prados do
nosso mundo quanto nos campos estrelados. O verão é o sorriso de
Deus! Nada mais suave, mais inebriante do que a apoteose de um belo dia em
que tudo é carícia, doçura, luz.
A florinha escondida na relva, o
peixe que se esgueira entre as águas, fazendo espelhar ao sol suas escamas de
prata, o pássaro que modula suas notas do alto das ramadas, o murmúrio das
fontes, a canção misteriosa dos álamos e dos olmeiros, o perfume selvagem dos
musgos, tudo isso acalenta o pensamento, regozija o coração.
Longe das cidades, encontra-se a calma
profunda que penetra a Alma, separando-a das lutas e das decepções da vida. Só
e então se compreende a verdade destas grandes palavras: “O ruído é dos homens,
o silêncio é de Deus!”.
A contemplação e a meditação provocam o
despertar das faculdades psíquicas e, por elas, todo um mundo invisível se abre
à nossa percepção. Ensaiei, no correr desta obra, exprimir as
sensações experimentadas do alto dos cimos ou à borda dos mares, descrever
o encanto dos crepúsculos e das auroras; a serenidade dos campos, sob o real
esplendor do Sol, o prodigioso poema das noites estreladas, a sublimidade dos
luares, o enigma das águas e dos bosques.
Há momentos de êxtase em que a Alma se
transporta fora do seu invólucro e abraça o Infinito; horas de intuição e
entusiasmo em que o influxo divino nos invade qual uma onda irresistível,
em que o pensamento supremo vibra e palpita em nosso íntimo, onde brilha, por
um instante, a centelha do gênio.
Essas horas inolvidáveis, eu as
vivi algumas vezes e, em cada uma delas, acreditei na visita, na penetração do
Espírito. Devo-lhes a inspiração de minhas mais belas páginas e de meus
melhores discursos.
Aquele que se recolhe no silêncio e na
solidão, diante dos espetáculos do mar ou das montanhas, sente
nascer, subir, crescer em si mesmo imagens, pensamentos, harmonias que o
arrebatam, encantam e consolam das terrestres misérias, e lhe abrem as
perspectivas da vida superior.
Compreende então que o pensamento de
Deus nos envolve e nos penetra quando, longe das torpezas sociais, sabemos
abrir-lhe nossas almas e nossos corações”.