O velho ditado diz: tudo na vida tem seu preço.
Costumo acrescentar: tudo na vida, que está à venda, tem seu preço.
Aquilo que está à venda tem preço. Às vezes tem valor, outras vezes não.
Aquilo que não está à venda tem somente valor. Não tem preço!
ByMartini
Um blog sobre experiências pessoais e profissionais do autor em mais de 30 anos de atuação no setor financeiro - nas áreas de auditoria, finanças e formação corporativa - e mais algumas pinceladas sobre vivências, viagens e vinhos. In bocca al lupo!
segunda-feira, 1 de junho de 2020
terça-feira, 31 de dezembro de 2019
Livros para a vida...
Durante as nossas vidas vivemos momentos
em que mergulhamos em pensamentos e reflexões sobre tantas coisas que, às vezes, nem
percebemos quando estamos concentrados em nossos devaneios existenciais, ora no
futuro, ora no passado, raramente no presente.
O principal motivo de eu ter criado este
blog foi a consciência da finitude da vida. Embora acredite na vida espiritual,
também sei que cada existência é única. Tenho uma filha adolescente e um filho
pequeno. Um dia pensei: e se o meu tempo nesta vida se encerrar logo? Será que
terei tempo suficiente para passar aos meus filhos os meus princípios e valores,
as minhas experiências de vida?
A partir daí comecei a pensar em como poderia
registrar em algum lugar as minhas ideias, opiniões, conselhos, experiências
profissionais e vivências, principalmente para eles, para que possam no futuro
saber como seu pai pensava. Tenho o controle sobre os meus pensamentos, mas por
quanto tempo?
Mesmo sendo ativo na educação dos meus
filhos, conversando e orientando frequentemente (tentando sempre, mesmo quando estão
distraídos), sei que alguns conselhos tem o tempo certo de maturação ao longo
da vida. Muitas vezes queremos que eles aprendam e entendam coisas que ainda
não estão preparados para digerir. Este era, e é, outro medo a me atormentar:
de não aproveitarem boas conversas que tivemos por não estarem ainda preparados
para entendê-las.
Foi assim que tive a ideia de escrever
tudo em um documento e, num segundo momento, criar um blog para facilitar o
acesso. Este espaço nunca teve a pretensão de render dinheiro ou seguidores,
pois seu principal objetivo sempre foi eternizar os pensamentos de um pai preocupado
com o futuro dos seus.
Este é o primeiro artigo em que falo
abertamente sobre isso. Essa é a circunstância que me faz escrever sobre coisas que acredito, de acordo com minhas crenças e valores e em consonância com as minhas
vivências.
Assim, divagando sobre escritos e textos,
também me lembrei de livros, pois livros, assim como blogs, são registros
acessíveis a qualquer tempo. Estão sempre por perto, a espera das nossas dúvidas,
curiosidades e aflições.
Então, sobre livros, gostaria que meus
filhos, ao longo de suas vidas, dedicassem um pouco do seu tempo para ler
alguns que considero essenciais para auxiliá-los no transcorrer de uma
existência digna e honrada:
- a obra completa de Allan Kardec, o
Codificador do Espiritismo (O Livro dos Espíritos, O Evangelho Segundo o
Espiritismo, O Céu e o Inferno, O Livro dos Médiuns, A Gênese e Obras Póstumas).
A obra clássica do espiritismo, o começo de tudo, a codificação da doutrina, a
iniciação para entendermos as relações entre as várias dimensões da vida;
- a série de livros escritos pelo
Espírito André Luiz, psicografados por Chico Xavier (Nosso Lar, Os Mensageiros,
Missionários da Luz, Obreiros da Vida Eterna, No Mundo Maior, Libertação, Entre
a Terra e o Céu, Nos Domínios da Mediunidade, Ação e Reação, Evolução em Dois
Mundos, Mecanismos da Mediunidade, Sexo e Destino, E a Vida Continua). Estes livros são a revelação e exemplificação, através das histórias narradas,
das relações existentes entre o plano físico e o espiritual. Respondem aos aflitos e curiosos sobre
aquela famosa frase de Shakespeare: “existem
mais mistérios entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia possa imaginar”;
- a série de livros escritos pelo
Espírito Manoel Philomeno de Miranda, psicografados por Divaldo Pereira Franco
sobre a atual transição planetária que estamos vivendo (Transição Planetária,
Amanhecer de Uma Nova Era, Perturbações Espirituais);
- o livro A Caminho da Luz, escrito pelo
Espírito Emmanuel, psicografado por Chico Xavier, sobre a história da
civilização à luz do Espiritismo. Explica os caminhos já trilhados pelo nosso
planeta e indica para onde vamos;
- o Livro das Atitudes, escrito por
Sonia Café. Deve ser mantido sempre ao lado da cama, como um conselheiro amigo
e fiel. Basta fechar os olhos, elevar o pensamento e abrir em qualquer página.
Lá estará o conselho tão necessário.
Sempre digo que o ser humano é o
instrumento mais complexo já inventado, sem manual de instruções. Os livros
acima, dentre outros também importantes, são, no meu entendimento, nosso manual
de vida. Ainda não me considero um legítimo Espírita, pois tenho meus defeitos,
mas pretendo chegar lá. Acredito que o Espiritismo é o tesouro da sabedoria.
Para a compreensão dessas obras é
preciso paciência e concentração. Não é uma leitura simples e fácil. Estamos
falando do manual de instruções de uma existência. É complexo. Mas vale a pena.
O conhecimento emanado dessas obras clarifica a mente, ilumina o espírito e acaba com depressões, crises existenciais e aflições das mais variadas. É o alicerce da
alma e a viga mestra do coração. E nos dá a resposta para aquelas três perguntas que
mais atormentam a humanidade: Quem sou? De onde venho? Para onde vou?
Existem outros ótimos e importantes
livros a serem lidos durante uma vida. Os citados acima, apenas essenciais.
Um feliz 2020!
Um feliz 2020!
sábado, 30 de novembro de 2019
República Parlamentarista do Brasil - parte 5: o sistema francês
Seguindo com a nossa série de artigos
sobre o parlamentarismo, vamos falar um pouco sobre o sistema francês, com suas
semelhanças e diferenças em relação aos sistemas italiano e português.
Resumo das principais características do
parlamentarismo francês:
A França é considerada uma república
democrática semipresidencialista, um sistema de governo em que a chefia do
executivo é compartilhada entre presidente da república e primeiro-ministro,
onde a linha divisória entre os poderes de chefe de estado e chefe de governo
pode variar de país para país.
A estrutura do parlamento francês é
bicameral (senado e assembleia nacional), assim como no sistema italiano. Os
parlamentares são eleitos pela sociedade, através do voto direto, em dois
turnos.
No sistema francês, o presidente da
república possui um maior protagonismo em relação ao primeiro-ministro, em
comparação ao sistema italiano. Neste sentido, é mais próximo ao semipresidencialismo português.
O presidente da república (chefe de
estado) é eleito através do voto direto da população desde 1962, e candidaturas
avulsas são permitidas, apesar de pouco frequentes. Os candidatos independentes
são conhecidos por sans étiquette
(sem etiqueta, em tradução livre). O mandato presidencial é de cinco anos, com
possibilidade de reeleição para mais um mandato.
Apesar do fato acima, nas últimas eleições, em 2017, Emmanuel Macron chegou ao poder na França como candidato independente, a partir do movimento político Republique En Marche. Somente após a eleição o movimento se tornou um partido político. Na Alemanha, em 2012, Joachim Gauck também foi presidente da república da mesma forma, sem vínculo partidário.
Apesar do fato acima, nas últimas eleições, em 2017, Emmanuel Macron chegou ao poder na França como candidato independente, a partir do movimento político Republique En Marche. Somente após a eleição o movimento se tornou um partido político. Na Alemanha, em 2012, Joachim Gauck também foi presidente da república da mesma forma, sem vínculo partidário.
A diferença foi apenas no processo, uma
vez que na Alemanha o presidente foi nomeado pela Assembleia Federal e na França ocorreu
eleição direta pela sociedade, conforme leis eleitorais de cada país. A
possibilidade de candidaturas avulsas existe em mais de 90% dos países do
mundo, estando o Brasil entre as poucas exceções, ao lado de Argentina, África
do Sul, Suriname e Camboja.
As atribuições do presidente da
república na França e Itália são semelhantes e, em ambos os casos, são
responsáveis pela nomeação do primeiro-ministro e, através deste, dos membros
do conselho de ministros, por promulgar e vetar leis, pelo comando das forças
armadas, por convocar referendos sobre assuntos específicos e por dissolver a assembleia
nacional, em situações de grave crise. No caso de impedimento do presidente da
república, assume o presidente do senado, interinamente, até a realização de
novas eleições.
Comentário
1: uma pessoa que deseje se candidatar a um cargo eletivo no Brasil é obrigada
a se filiar a um partido político e concorrer através deste. Candidaturas
avulsas são proibidas desde a constituição de 1945. Alguém que discorde das
estruturas partidárias ou não aceite certas regras, ideologias e decisões
obscuras envolvendo fundos partidários e públicos, nos atuais partidos
vigentes, por exemplo, simplesmente não pode se candidatar. Essa é a regra por
aqui. Entendo que candidaturas avulsas são bem vindas e quebram o monopólio
conferido aos partidos para servirem de filtro para aqueles possíveis
candidatos que, ou aceitam as regras impostas (dançam conforme a música) ou simplesmente
são alijados do processo.
Comentário
2: também defendo o fim do fundo partidário com recursos públicos. Cada partido
deveria buscar recursos através da defesa e disseminação dos seus projetos e
ideais. Quem gosta se filia e contribui. Simples assim. Desta forma acabaríamos
com essa promiscuidade e vulgaridade que tomou conta dos atuais 32 partidos
políticos existentes no Brasil, número este que por si só já é uma piada, de
muito mau gosto.
O primeiro-ministro (chefe de governo) é
nomeado pelo presidente da república e necessita da moção de confiança do
parlamento para poder governar, assim como na Itália e Portugal. Cabe ao primeiro-ministro dirigir a ação governamental - decidida pelo
presidente da república, em suas grandes linhas.
O primeiro-ministro é teoricamente o
chefe de governo, mas, de fato, o presidente da república é quem desempenha
este papel, enquanto o primeiro-ministro aplica a política de Chefe de Estado.
É neste sentido que o presidente da república, na França, possui um maior
protagonismo.
Em normas gerais, o primeiro-ministro é indicado e escolhido por liderar a maior corrente política dentro do parlamento, mas isto não impede o presidente da república de nomear alguém de fora do parlamento, que não seja deputado ou senador.
Em normas gerais, o primeiro-ministro é indicado e escolhido por liderar a maior corrente política dentro do parlamento, mas isto não impede o presidente da república de nomear alguém de fora do parlamento, que não seja deputado ou senador.
Comentário
3: entendo ser uma ameaça a adoção dessa característica em um sistema
parlamentarista no Brasil, justamente por desequilibrar os contrapesos do poder
e enfraquecer a segregação entre as funções do presidente e do
primeiro-ministro. Em nosso país, o presidente já controla o orçamento e as
nomeações, ao mesmo tempo em que promulga ou veta leis, e isto é uma das
grandes causas dos problemas do nosso presidencialismo de coalizão.
Para maiores informações acesse https://pt.wikipedia.org/wiki/Parlamento_franc%C3%AAs, https://fr.wikipedia.org/wiki/Parlement_fran%C3%A7ais,
No
próximo e último artigo desta série veremos uma proposta de parlamentarismo que
deveria ser adotada pelo Brasil, e que, no meu entendimento, colocaria o país
definitivamente no caminho certo para se tornar uma nação desenvolvida em pouco mais de dez anos, aproximadamente.
Com a
implantação da República Parlamentarista do Brasil, nos moldes dessa proposta, um
futuro de maior consciência moral e coletiva finalmente chegará para a nação
conhecida como país do futuro, pátria do cruzeiro e coração do mundo.
quinta-feira, 17 de outubro de 2019
Dinheiro & Dilemas – O dia D da próxima grande crise financeira mundial
Nestas últimas semanas resolvi deixar de
lado outros temas que considero importantes, como as séries de artigos sobre
parlamentarismo e auditoria nas demonstrações contábeis, para mergulhar em
análises e avaliações de risco relacionadas à possibilidade de estarmos na
iminência de uma nova grande crise financeira global. Aliás, acredito que já
estamos vivendo esta nova crise.
Entendo que a crise de 2008 nunca foi
resolvida verdadeiramente. Foram tomadas medidas ao longo dos anos para atenuar
e esconder seus efeitos, esticando-a até um limite que considero hoje sem
retorno. A questão chave é: em que momento ocorrerá o “estouro”, o grande
crash, que fará com que a maioria dos ativos sofra imensa depreciação em poucas
semanas, mundo afora? Essa é a pergunta que vale bilhões.
Acho que a grande crise de 2008 não teve
o tratamento adequado. O excesso de liquidez dos mercados precisa ser
expurgado, pois chegou a níveis alarmantes. A atual sinuca de bico das grandes
economias e bancos centrais mundiais é consequência de 2008 e de outras
decisões anteriores, que geraram a própria crise de 2008. As doses excessivas
de “morfina” e “anabolizantes” aplicadas até hoje já não conseguem mais manter
o paciente estável (economia mundial).
Nos últimos 11 anos ocorreram os maiores
programas mundiais de afrouxamento monetário, principalmente via FED, BCE, BoE
e BOJ, seguidos logo após pelo banco central chinês (conhecidos por QEs –
quantitative easing). Cerca de US$ 15 trilhões foram despejados nos mercados
financeiros, jogando os juros governamentais e corporativos a níveis muito
baixos e até negativos em vários países.
E os resultados? Pífios. A economia
mundial segue andando de lado, com estagnação, recessão, subempregos e
desemprego em alta. Muito preocupante. Os velhos remédios não fazem mais
efeito. Essa é a sinuca de bico.
Os sinais de tempestade vêm de todas as direções, mas
é preciso de muita abstração e concentração para captá-los e tentar entender quais
serão os seus efeitos imediatos e de longo prazo. A onça-troy, por exemplo,
rompeu no início de agosto de 2019 a barreira dos US$ 1.500.00, fato que não
ocorria desde abril de 2013. Os maiores compradores de ouro são os bancos centrais
da Rússia, China e Índia, que estão fazendo este movimento silenciosamente
desde 2015. Agora não escondem mais. Veja em https://www.seudinheiro.com/bancos-centrais-buscam-protecao-e-compram-374-toneladas-de-ouro-em-2019/,
https://moneytimes.com.br/volume-de-compra-de-ouro-dos-bancos-centrais-atinge-maior-nivel-desde-1967/
e https://www.correiodobrasil.com.br/bancos-centrais-investem-contra-dolar-compra-ouro-bate-novo-recorde/.
Veja também o artigo The monetary policy endgame (o fim da
política monetária), de Rick Rieder, CIO global da BlackRock, disponível aqui https://www.blackrockblog.com/2019/09/05/monetary-policy-endgame/,
e o “mini pânico” que tomou conta dos mercados americanos no último dia 17/09/2019,
disponível aqui https://edition.cnn.com/2019/09/17/business/overnight-lending-rate-spike-ny-fed/index.html.
Gostaria de salientar que essas notícias
não são destacadas pela grande mídia. Muitas vezes nem aparecem – o que é mais
frequente. Quando viram destaque é porque o leite já está no chão. É preciso
analisar com muita atenção o atual contexto econômico global, pois a crise é
estrutural e não conjuntural, e deve impactar profundamente a vida econômica e financeira
de milhões de pessoas.
Também gostaria de compartilhar os links
abaixo, em que o economista e analista Fernando Ulrich aborda o assunto em vídeos
recentes, com muita propriedade: https://www.youtube.com/watch?v=zpHmV1hXaaA&feature=youtu.be,
https://www.youtube.com/watch?v=IkMxnuP_OF0,
https://www.youtube.com/watch?v=3SOHoC6Xafc.
domingo, 29 de setembro de 2019
Estrada & Panela – Barcelona, més que una ciutat
Quando se fala em Barcelona, em um ponto
todos concordam: realmente, tanto a cidade como o clube parecem não caberem em si
mesmos. O Barcelona Futebol Clube não é apenas um clube de futebol. A cidade de
Barcelona não é apenas uma cidade. Clube e cidade possuem uma
ligação umbilical, onde um não consegue viver sem o outro.
Barcelona respira futebol. Em cada
esquina e em cada praça há sempre uma lojinha ou banca de revistas com bonés,
chaveiros, xícaras, camisetas, mantas, posters, bonecos, mascotes e tudo o que se
possa imaginar reverenciando o grande e temido “barça”. No meu caso, uma pequena observação:
como bom colorado, torcedor do Internacional, não me assustei nem um pouco com essa força toda, afinal, fomos campeões
mundiais antes "deles", e, melhor ainda, “em cima” deles.
Mas confesso que essa paixão me impressionou! E a Catalunha lembra um pouco a minha terra natal, o Rio Grande do Sul. Aliás,
as semelhanças são grandes: possuem tradições e costumes próprios, marcantes, diferentes
do resto da Espanha e Brasil, respiram aquela chama separatista que insiste em
aflorar em qualquer discussão mais acalorada (no RS marcada pela guerra civil
mais longa da história do Brasil, a Revolução Farroupilha), falam uma linguagem
diferente, com termos e até frases inteiras de difícil interpretação aos
desavisados que circulam em seus domínios. Imagine visitar Barcelona ou Porto
Alegre sem estudar catalão ou “gauchês”, um pecado quase imperdoável!
E ainda tem o futebol, o palco moderno das arenas do passado, onde os “inimigos” são massacrados (ainda bem que hoje com uma bola e não com lanças e espadas). Nesta seara, a grande diferença é que toda a Catalunha, região mais rica da Espanha, converge sua paixão para o Barcelona. Quando paixão e dinheiro se encontram em grande quantidade, grandes conquistas acontecem. Já no RS, temos dois times para dividir alegrias e sofrimentos, e muito menos riqueza. Às vezes fico pensando se tivéssemos por aqui apenas um time a concentrar tanta sede de conquistas. Acho que seríamos quase invencíveis (menos, menos).
E ainda tem o futebol, o palco moderno das arenas do passado, onde os “inimigos” são massacrados (ainda bem que hoje com uma bola e não com lanças e espadas). Nesta seara, a grande diferença é que toda a Catalunha, região mais rica da Espanha, converge sua paixão para o Barcelona. Quando paixão e dinheiro se encontram em grande quantidade, grandes conquistas acontecem. Já no RS, temos dois times para dividir alegrias e sofrimentos, e muito menos riqueza. Às vezes fico pensando se tivéssemos por aqui apenas um time a concentrar tanta sede de conquistas. Acho que seríamos quase invencíveis (menos, menos).
Bem, agora dando um tempo para as divagações e paixões futebolísticas, vamos ao outro assunto que também nos encanta, motivo da nossa seção: a boa mesa.
Pensando em Espanha e comida, as
primeiras coisas que passam pela mente são paella, tapas e sangria, mas existe
muito mais. Barcelona é uma daquelas cidades que podem ser consideradas
capitais do mundo, extremamente cosmopolita. Não é Nova Iorque, Londres ou
Paris, mas tem gente de todo o mundo lá, e todos que gostam de viajar já passaram
por lá, ou desejam isso.
Assim, falando em comida, é possível se encontrar quase tudo o que se deseja em Barcelona, menos, claro, o nosso espetacular arroz de carreteiro
com charque de ovelha, pois essa tremenda iguaria só no Rio Grande mesmo.
Então, a dica de hoje vem de um
lugar muito distante da Catalunha, e mais ainda do Brasil: o Vietnã, isso mesmo. Seguindo por La Rambla em direção ao mar, passando pela Plaça de
Catalunya, vire à esquerda na Carrer de la Portaferrissa, bairro gótico adentro,
e siga até a Catedral de Barcelona, na Plaça Nova. O restaurante se chama Bun
Bo Barcelona e fica na Carrer dels Sagristans, bem atrás da igreja.
O ambiente é muito legal, todo colorido
e com um astral muito leve e agradável. Tem uma variedade de pratos e saladas
com combinações de ingredientes que surpreendem o paladar mais sofisticado. Prove
os rollos de verano e primavera e os cuencos asiáticos, deliciosos. Para beber,
aí sim é melhor ser conservador, bastando uma boa caña ou uma tradicional sangría.
Para maiores informações sobre o local
acesse bunborestaurantes.com/gotico/. A
carta pode ser acessada aqui http://bunborestaurantes.com/gotico/wp-content/uploads/2019/04/BUN-BO-CAST-GOTICO-web.pdf
Para aqueles mais ortodoxos, é possível
comer muito bem no shopping Arenas de Barcelona, na Gran Via de les Corts
Catalanes esquina com a Carrer de Tarragona, em frente à Plaça d’Espanya. A antiga
arena de touradas, la plaza de toros de las arenas, foi construída em 1900 e
remodelada em 2011 para se tornar um shopping, porém mantendo a antiga fachada.
O lugar é histórico e lindo. A dica é o restaurante Mussol, que fica na
cobertura do prédio, com uma autêntica cocina catalana e uma linda vista do
Castelo de Montjuic. Não deixe de provar as carnes (entrecot e cordeiro) e a tabla
de embutidos.
Para maiores informações acesse http://www.mussolrestaurant.com/ e https://www.arenasdebarcelona.com/restauracio/642/MUSSOL.
Para maiores informações acesse http://www.mussolrestaurant.com/ e https://www.arenasdebarcelona.com/restauracio/642/MUSSOL.
quarta-feira, 28 de agosto de 2019
Uma mensagem àqueles que embalam os tesouros do coração
Acolher os verdadeiros tesouros do
coração, os filhos e filhas que Deus nos confia, é uma das tarefas mais complexas
e sublimes que a vida nos oferece, nas intrincadas relações de família que são
construídas ao longo do tempo, entre berço e túmulo e túmulo e berço.
É certo que os filhos não pertencem aos
pais, responsáveis ou tutores, pois cada indivíduo possui sua história, sua personalidade,
seus anseios e o livre arbítrio. Mas a criança que nasce, cresce e se
desenvolve necessita de cuidados, apoio, criação, educação, segurança e bons exemplos,
pelo menos até poder viver pela própria razão. Às vezes, por mais tempo ainda.
Este é o contexto em que se mede a grande
missão daqueles que recebem os filhos do coração em suas mãos – consanguíneos ou
não, não importa – e que devem possuir a consciência de serem fiéis depositários
de verdadeiros tesouros do Criador.
Para entender melhor essa missão, Santo
Agostinho nos brindou com uma bela mensagem espiritual psicografada em Paris,
em 1862, contida no capítulo XIV do Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan
Kardec:
A
ingratidão dos filhos e os laços de família
A
ingratidão é um dos frutos mais diretos do egoísmo. Revolta sempre os corações
honestos, mas a dos filhos para com os pais apresenta caráter ainda mais
odioso. É, em particular, desse ponto de vista que a vamos considerar, para lhe
analisar as causas e os efeitos. Também nesse caso, como em todos os outros, o
Espiritismo projeta luz sobre um dos grandes problemas do coração humano.
Quando
deixa a Terra, o Espírito leva consigo as paixões ou as virtudes inerentes à
sua natureza e se aperfeiçoa no Espaço, ou permanece estacionário, até que
deseje receber a luz. Muitos, portanto, se vão cheios de ódios violentos e de
insaciados desejos de vingança; a alguns dentre eles, porém, mais adiantados do
que os outros, é dado entrevejam uma partícula da verdade; apreciam então as
funestas consequências de suas paixões e são induzidos a tomar resoluções boas.
Compreendem
que, para chegarem a Deus, uma só é a senha: caridade. Ora, não há caridade sem
esquecimento dos ultrajes e das injúrias; não há caridade sem perdão, nem com o
coração tomado de ódio.
Então,
mediante inaudito esforço, conseguem tais Espíritos observar os a quem eles
odiaram na Terra. Ao vê-los, porém, a animosidade se lhes desperta no íntimo;
revoltam-se à ideia de perdoar, e, ainda mais, à de abdicarem de si mesmos,
sobretudo à de amarem os que lhes destruíram, quiçá, os haveres, a honra, a
família.
Entretanto,
abalado fica o coração desses infelizes. Eles hesitam, vacilam, agitados por
sentimentos contrários. Se predomina a boa resolução, oram a Deus, imploram aos
bons Espíritos que lhes deem forças, no momento mais decisivo da prova.
Por
fim, após anos de meditações e preces, o Espírito se aproveita de um corpo em
preparo na família daquele a quem detestou, e pede aos Espíritos incumbidos de
transmitir as ordens superiores permissão para ir preencher na Terra os
destinos daquele corpo que acaba de formar-se.
Qual
será o seu procedimento na família escolhida? Dependerá da sua maior ou menor
persistência nas boas resoluções que tomou. O incessante contato com seres a
quem odiou constitui prova terrível, sob a qual não raro sucumbe, se não tem
ainda bastante forte a vontade. Assim, conforme prevaleça ou não a resolução
boa, ele será o amigo ou inimigo daqueles entre os quais foi chamado a viver.
É
como se explicam esses ódios, essas repulsões instintivas que se notam da parte
de certas crianças e que parecem injustificáveis. Nada, com efeito, naquela
existência há podido provocar semelhante antipatia; para se lhe apreender a
causa, necessário se torna volver o olhar ao passado.
Ó
espíritas! Compreendei agora o grande papel da Humanidade; compreendei que,
quando produzis um corpo, a alma que nele encarna vem do Espaço para progredir;
inteirai-vos dos vossos deveres e ponde todo o vosso amor em aproximar de Deus
essa alma; tal a missão que vos está confiada e cuja recompensa recebereis, se
fielmente a cumprirdes.
Os
vossos cuidados e a educação que lhe dareis auxiliarão o seu aperfeiçoamento e
o seu bem-estar futuro. Lembrai-vos de que a cada pai e a cada mãe perguntará
Deus: Que fizestes do filho confiado à vossa guarda? Se por culpa vossa ele se
conservou atrasado, tereis como castigo vê-lo entre os Espíritos sofredores,
quando de vós dependia que fosse ditoso.
Então,
vós mesmos, assediados de remorsos, pedireis vos seja concedido reparar a vossa
falta; solicitareis, para vós e para ele, outra encarnação em que o cerqueis de
melhores cuidados e em que ele, cheio de reconhecimento, vos retribuirá com o
seu amor.
Não
escorraceis, pois, a criancinha que repele sua mãe, nem a que vos paga com a
ingratidão; não foi o acaso que a fez assim e que a enviou. Imperfeita intuição
do passado se revela, do qual podeis deduzir que um ou outro já odiou muito, ou
foi muito ofendido; que um ou outro veio para perdoar ou para expiar.
Mães!
Abraçai o filho que vos dá desgostos e dizei com vós mesmas: Um de nós dois é
culpado. Fazei-vos merecedoras dos gozos divinos que Deus conjugou à
maternidade, ensinando aos vossos filhos que eles estão na Terra para se
aperfeiçoar, amar e bendizer. Mas, oh! Muitos dentre vós, em vez de eliminar
por meio da educação os maus princípios inatos de existências anteriores, entretêm
e desenvolvem esses princípios, por uma culposa fraqueza, ou por descuido, e,
mais tarde, o vosso coração, ulcerado pela ingratidão dos vossos filhos, será
para vós, já nesta vida, um começo de expiação.
A
tarefa não é tão difícil quanto vos possa parecer. Não exige o saber do mundo.
Podem desempenhá-la assim o ignorante como o sábio, e o Espiritismo lhe
facilita o desempenho, dando a conhecer a causa das imperfeições da alma
humana. Desde pequenina, a criança manifesta os instintos bons ou maus que traz
da sua existência anterior. A estudá-los devem os pais aplicar-se. Todos os
males se originam do egoísmo e do orgulho.
Espreitem,
pois, os pais os menores indícios reveladores do gérmen de tais vícios e cuidem
de combatê-los, sem esperar que lancem raízes profundas. Façam como o bom
jardineiro, que corta os rebentos defeituosos à medida que os vê apontar na
árvore. Se deixar se desenvolvam o egoísmo e o orgulho, não se espantem de
serem mais tarde pagos com a ingratidão.
Quando
os pais hão feito tudo o que devem pelo adiantamento moral de seus filhos, se
não alcançam êxito, não têm de que se inculpar a si mesmos e podem conservar
tranquila a consciência. À amargura muito natural que então lhes advém da
improdutividade de seus esforços, Deus reserva grande e imensa consolação, na
certeza de que se trata apenas de um retardamento, que concedido lhes será
concluir noutra existência a obra agora começada e que um dia o filho ingrato
os recompensará com seu amor. (Cap. XIII, item 19).
Deus
não dá prova superior às forças daquele que a pede; só permite as que podem ser
cumpridas. Se tal não sucede, não é que falte possibilidade: falta a vontade.
Com efeito, quantos há que, em vez de resistirem aos maus pendores, se
comprazem neles. A esses ficam reservados o pranto e os gemidos em existências
posteriores.
Admirai,
no entanto, a bondade de Deus, que nunca fecha a porta ao arrependimento. Vem
um dia em que ao culpado, cansado de sofrer, com o orgulho afinal abatido, Deus
abre os braços para receber o filho pródigo que se lhe lança aos pés. As provas
rudes, ouvi-me bem, são quase sempre indício de um fim de sofrimento e de um
aperfeiçoamento do Espírito, quando aceitas com o pensamento em Deus.
É
um momento supremo, no qual, sobretudo, cumpre ao Espírito não falir
murmurando, se não quiser perder o fruto de tais provas e ter de recomeçar. Em
vez de vos queixardes, agradecei a Deus o ensejo que vos proporciona de
vencerdes, a fim de vos deferir o prêmio da vitória. Então, saindo do turbilhão
do mundo terrestre, quando entrardes no mundo dos Espíritos, sereis aí
aclamados como o soldado que sai triunfante da refrega.
De
todas as provas, as mais duras são as que afetam o coração. Um, que suporta com
coragem a miséria e as privações materiais, sucumbe ao peso das amarguras
domésticas, pungido da ingratidão dos seus. Oh! Que pungente angústia essa!
Mas, em tais circunstâncias, que mais pode, eficazmente, restabelecer a coragem
moral do que o conhecimento das causas do mal e a certeza de que, se bem haja
prolongados despedaçamentos da alma, não há desesperos eternos, porque não é
possível seja da vontade de Deus que a sua criatura sofra indefinidamente?
Que
de mais reconfortante, de mais animador do que a ideia que de cada um dos seus
esforços é que depende abreviar o sofrimento, mediante a destruição, em si, das
causas do mal? Para isso, porém, preciso se faz que o homem não retenha na
Terra o olhar e só veja uma existência; que se eleve, a pairar no infinito do
passado e do futuro.
Então,
a Justiça infinita de Deus se vos patenteia, e esperais com paciência, porque
explicável se vos torna o que na Terra vos parecia verdadeiras monstruosidades.
As feridas que aí se vos abrem, passais a considerá-las simples arranhaduras.
Nesse golpe de vista lançado sobre o conjunto, os laços de família se vos
apresentam sob seu aspecto real. Já não vedes, a ligar-lhes os membros, apenas
os frágeis laços da matéria; vedes, sim, os laços duradouros do Espírito, que
se perpetuam e consolidam com o depurarem-se, em vez de se quebrarem por efeito
da reencarnação.
Formam
famílias os Espíritos que a analogia dos gostos, a identidade do progresso
moral e a afeição induzem a reunir-se. Esses mesmos Espíritos, em suas
migrações terrenas, se buscam, para se agruparem, como o fazem no Espaço,
originando-se daí as famílias unidas e homogêneas. Se, nas suas peregrinações,
acontece ficarem temporariamente separados, mais tarde tornam a encontrarem-se,
venturosos pelos novos progressos que realizaram.
Mas
como não lhes cumpre trabalhar apenas para si, permite Deus que Espíritos menos
adiantados encarnem entre eles, a fim de receberem conselhos e bons exemplos, a
bem de seu progresso. Esses Espíritos se tornam, por vezes, causa de
perturbação no meio daqueles outros, o que constitui para estes a prova e a
tarefa a desempenhar. Acolhei-os, portanto, como irmãos; auxiliai-os, e depois,
no mundo dos Espíritos, a família se felicitará por haver salvo alguns
náufragos que, a seu turno, poderão salvar outros.
Santo Agostinho (Paris, 1862).
sexta-feira, 26 de julho de 2019
República Parlamentarista do Brasil - parte 4: o sistema português
Seguindo com o nosso artigo, vamos agora
ao sistema de governo de Portugal, com suas semelhanças e diferenças em relação
ao sistema italiano.
Resumo das principais características do parlamentarismo português:
O sistema parlamentarista português, mais
conhecido como sistema semipresidencialista, é definido como uma república
constitucional unitária semipresidencial.
O que quer dizer isso? Vamos por partes.
Primeiro, trata-se de uma república constitucional, e até aí nenhuma novidade.
Depois, é caracterizada por ser unitária, e isto significa que o parlamento é
unicameral, ou seja, composto apenas por deputados, sem senadores. Esta é a primeira
diferença em relação aos sistemas italiano e brasileiro (bicamerais).
Os deputados que compõem a assembleia da
república são eleitos para mandatos de quatro anos, através de voto direto nos
22 círculos eleitorais, equivalente a distritos eleitorais (artigo 149 da
constituição portuguesa). O presidente da assembleia da república é escolhido
pelos seus pares por maioria absoluta de votos (eleição indireta), e substitui
o presidente da república em ausências temporárias ou em casos de impedimento,
até a posse do novo presidente eleito.
A gestão do país é dividida entre o
presidente da república (chefe de estado) e o primeiro-ministro (chefe de
governo), assim como no sistema italiano, mas com um maior protagonismo do
parlamento na gestão da nação, quando o presidente da assembleia assume a
presidência da república nos impedimentos do chefe de estado.
O presidente da república (chefe de
estado) é eleito através de voto direto dos eleitores para um mandato de cinco
anos. Entre as suas atribuições podemos citar a representação do país no
exterior, a ratificação de tratados internacionais, a chefia suprema das forças
armadas, o poder de dissolver a assembleia da república e convocar novas
eleições e a responsabilidade por vetar e promulgar leis. É responsável também pela
nomeação do primeiro-ministro, que tradicionalmente é um nome vinculado ao
partido majoritário. Em Portugal, o presidente não pode ser reeleito para um
terceiro mandato de forma consecutiva (artigos 120 a 140 da constituição
portuguesa).
Comentário
1: as prerrogativas do presidente da república no sistema português são
semelhantes ao sistema italiano, mas o fato do presidente ser eleito através do
voto direto, diferentemente da Itália, onde tanto o presidente como o
primeiro-ministro são eleitos indiretamente, contribui para uma maior
segregação no poder e reduz a possibilidade de acordos espúrios entre parlamentares
para nomear presidente e primeiro-ministro simpáticos aos seus interesses (que
podem não ser os interesses da nação).
Comentário
2: o voto direto da população legitima ainda mais o presidente eleito, em
comparação ao voto indireto do parlamento, pois pressupõe a soberania do
representado (eleitor) acima da vontade do representante (parlamentar), eliminando
o risco da vontade do representante ser diferente da vontade do representado.
Por mais que o parlamentar seja o representante do seu eleitor, não há a
garantia de que votará realmente conforme o desejo de quem o elegeu.
Comentário
3: em Portugal, assim como na Itália, a prerrogativa do presidente da república
de dissolver o parlamento é fundamental para os pesos e contrapesos do equilíbrio
democrático, lembrando a todos que os poderes são limitados e somente as
instituições são perenes (artigos 133 e 172 da constituição portuguesa). Quando
os políticos possuem a consciência disso, tornam-se vigilantes constantes dos seus
pares e de si mesmos.
O primeiro-ministro (chefe de governo)
responde pela governança interna do país, assim como no sistema italiano. Indica
os nomes para o conselho de ministros. Responde pela gestão orçamentária e
proposição de leis ao parlamento, dentre outras responsabilidades (artigos 182
a 201 da constituição portuguesa).
O chefe de governo também precisa da
aprovação do programa de governo pela assembleia da república, a quem está
sujeito ao voto de confiança para governar ou a uma moção de censura, quando é
destituído do cargo. Isso significa que o governo não consegue trabalhar sem a
aprovação do parlamento, semelhante ao sistema italiano.
Em Portugal, o direito ao voto é a
partir dos 18 anos e os cidadãos podem se candidatar a cargos eletivos a partir
dos 35 anos (artigos 49 e 122 da constituição portuguesa).
https://pt.wikipedia.org/wiki/Assembleia_da_Rep%C3%BAblica, https://pt.wikipedia.org/wiki/Distrito_eleitoral, https://pt.wikipedia.org/wiki/Presidente_da_Rep%C3%BAblica_Portuguesa, https://pt.wikipedia.org/wiki/Primeiro-ministro_de_Portugal, https://pt.quora.com/Como-funciona-o-sistema-pol%C3%ADtico-de-Portugal, https://www.parlamento.pt/Legislacao/Paginas/ConstituicaoRepublicaPortuguesa.aspx
segunda-feira, 24 de junho de 2019
República Parlamentarista do Brasil - parte 3: o sistema italiano
Continuando o nosso artigo, vamos analisar
algumas peculiaridades dos sistemas parlamentaristas italiano, português e
francês, encerrando com a apresentação de uma proposta que poderia ser adotada
pelo Brasil. Vamos começar pela Itália.
Resumo das principais características do
parlamentarismo italiano:
No sistema italiano, cuja estrutura do
parlamento é bicameral (Senado e Câmara dos Deputados), os parlamentares são eleitos
pelo povo, através do voto direto.
O presidente da república (chefe de
estado) é escolhido e nomeado por um colégio eleitoral composto por
representantes do parlamento e das regiões (equivalentes aos nossos estados). A partir daí, o presidente da república
indica o presidente do conselho de ministros (primeiro-ministro ou premier), cujo nome deverá ser aprovado
pelo parlamento (voto de confiança) para ser o governante do país (chefe de
governo ou dirigente).
Neste processo também são escolhidos os
ministros que comporão o conselho de ministros, responsáveis por governar o
país junto com o primeiro-ministro. A indicação pode ser do próprio premier.
Desta forma, o presidente da república e
o primeiro-ministro são escolhidos pelo parlamento e não diretamente pelo povo,
configurando uma eleição indireta.
Comentário 1:
no Brasil isto não poderia ocorrer, pois concentraria muito poder no parlamento,
dando margem a acordos entre políticos para nomear presidente e
primeiro-ministro vinculados a grupos majoritários e com interesses em comum.
Se, por um lado, uma maioria pode garantir a governabilidade, pode também
viciar o governo e tornar tanto o presidente como o primeiro-ministro reféns de
interesses de grupos não comprometidos com os problemas da nação.
O primeiro-ministro governa o país,
juntamente com os demais ministros que compõem o conselho de ministros. Promove
a interlocução com os presidentes das vinte regiões, com o parlamento, propõe
leis e alterações legais, executa o orçamento anual e gerencia as políticas
públicas (fiscal, econômica, cambial e de rendas).
O presidente da república é o chefe de
estado e, dentre as suas atribuições, representa o país no exterior junto a
outros países e organismos internacionais, detém o comando das forças armadas,
preside o conselho superior da magistratura, é o responsável por promulgar ou
vetar leis propostas no parlamento e, em última instância, possui o poder
de dissolver o parlamento e convocar novas eleições, em casos de crise
institucional grave.
Comentário 2:
esta última prerrogativa é fundamental no sistema parlamentarista, pois confere
ao presidente da república o poder de “caçar” o mandato de todos os deputados e
senadores, através da dissolução do parlamento, em situações graves e específicas,
previstas em lei. Tal prerrogativa insere no sistema a consciência da
imputabilidade e, por consequência, o sentimento da vigilância em relação aos
atos próprios e alheios. Se os parlamentares perderem o controle sobre os seus
próprios atos, correm o risco de perderem seus mandatos. Como diz o velho
ditado: o preço da liberdade é a eterna vigilância.
A partir da dissolução do parlamento, o
presidente da república assume o controle do país e novas eleições devem ser convocadas em prazo legal (entre 45 e 70 dias), quando o povo elegerá os novos deputados e
senadores que formarão o novo parlamento. Com o novo parlamento formado, o
presidente indicará o novo primeiro-ministro, que deverá obter o voto de
confiança deste novo parlamento. Com a posse do novo conselho de ministros, o
presidente volta às suas atribuições, deixando a chefia de governo a cargo do
primeiro-ministro.
Comentário 3:
é importante salientar que o presidente da república é quem promulga ou veta
projetos de lei e alterações em leis propostas no parlamento (artigo 73 da
constituição italiana), mas NÃO POSSUI A CHAVE DO COFRE NEM A CANETA DAS
NOMEAÇÕES. Quem controla o orçamento é o primeiro-ministro, mas este NÃO TEM O
PODER DE PROMULGAR/VETAR LEIS. Esta é uma questão chave do sistema parlamentarista
em relação à segregação de funções, para dificultar o toma-lá-dá-cá e o jogo de
interesses característico do presidencialismo de coalizão.
Em dezembro de 2017, o atual presidente
italiano Sergio Mattarella dissolveu o parlamento durante intensa crise na
governança do país, após a queda do premier
Matteo Renzi e de seu substituto, Paolo Gentiloni. Novas eleições foram
convocadas para março de 2018. Para maiores detalhes acesse https://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2017-12-28/italia-parlamento.html,
e https://www.tgcom24.mediaset.it/politica/mattarella-scioglie-le-camere-le-elezioni-si-terranno-il-4-marzo_3114424-201702a.shtml.
Tal fato também ocorreu na Grécia
durante a crise econômica e política de 2014 (https://www.jornaldocomercio.com/site/noticia.php?codn=183269).
Situações assim não são incomuns em sistemas de governo parlamentaristas, em
contextos de crise. Simplesmente deputados, senadores e governantes perdem seus
cargos e mandatos, e nem por isso acontecem crises histéricas de partidos ou
pessoas, ou criam-se tragédias forçadas, como em certos países subdesenvolvidos
quando ocorre o impeachment de um presidente. Trocam-se os atores e a vida
segue, pois as instituições são mais importantes que as pessoas.
Outros pontos interessantes da lei
eleitoral italiana:
- a idade mínima para votar é 18 anos
para deputado e 25 anos para senador, ou seja, pessoas com menos de 25 anos não
participam da votação para o senado (artigos 55 a 69 da constituição italiana);
- candidatos a deputado precisam ter no
mínimo 25 anos e candidatos ao senado, no mínimo 40 anos, com mandato
parlamentar de cinco anos para ambos os cargos (artigos 55 a 69 da constituição
italiana);
- para se candidatar a presidente é
preciso ter no mínimo 50 anos, e o mandato é de sete anos (artigos 83 a 91 da
constituição italiana). Embora a reeleição não seja proibida na Itália, o único
presidente eleito duas vezes foi Giorgio Napolitano, escolhido para o período
de 2006 a 2019. Entretanto, não cumpriu totalmente o segundo mandato,
renunciando em janeiro de 2015 por questões de saúde (havia completado 90 anos à
época).
Comentário 4: um adolescente de 16 anos no Brasil pode votar, com pouca experiência de vida e
muitas vezes sem a menor ideia do que está fazendo, tornando-se uma presa fácil
para velhas raposas políticas (massa de manobra, inocente útil). Na Itália, o
acréscimo de idade para votar em cargos mais importantes indica uma preocupação
do legislador com a importância do voto (18 anos para deputado, 25 anos para
senador), permitindo que o eleitor vá se integrando ao sistema eleitoral na
medida em que adquire mais maturidade e experiência de vida.
Comentário 5: a idade mínima para candidatos também é ótima, na medida em que impede pessoas muito inexperientes e imaturas de terem a enorme responsabilidade de representar seus pares, quando mal conseguem representar a si mesmas. E também inibe a tentação de muitos em fazer da política uma carreira profissional, quando o correto é servir à sociedade.
Comentário 5: a idade mínima para candidatos também é ótima, na medida em que impede pessoas muito inexperientes e imaturas de terem a enorme responsabilidade de representar seus pares, quando mal conseguem representar a si mesmas. E também inibe a tentação de muitos em fazer da política uma carreira profissional, quando o correto é servir à sociedade.
Para maiores informações acesse https://it.wikipedia.org/wiki/Sistema_elettorale_italiano, https://www.normattiva.it/uri-res/N2Ls?urn:nir:stato:costituzione:1947-12-27!vig=, https://it.wikipedia.org/wiki/Sistema_politico_della_Repubblica_Italiana, https://it.wikipedia.org/wiki/Presidente_della_Repubblica_Italiana,
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