domingo, 2 de setembro de 2018

O Balanço Patrimonial da Pessoa Física – última parte

Finalizando esta primeira série de artigos sobre o Balanço Patrimonial da Pessoa Física – o assunto não se esgota aqui – chegou o momento de comprar aquele tão sonhado carro novo, ou seminovo, depois de muita espera e poupança.

Enfim, após quatro anos investindo e reinvestindo recursos em ATIVOS, podemos nos dar “ao luxo” de contabilizar um PASSIVO no nosso Balanço, afinal somos humanos e de vez em quando temos o direito de usufruir um pouco dos recursos espartanamente poupados.

Em toda a série de artigos, utilizei a figura do carro novo como o exemplo mais clássico e simbólico do PASSIVO dos nossos sonhos. Mas cada um pode perseguir o seu passivo favorito. Pode ser a casa própria, a viagem dos sonhos, um ano sabático em outro país, a reforma da casa e todo aquele “investimento” em que colocamos uma quantia razoável de dinheiro sabendo que não haverá retorno financeiro e geração de renda.

O importante a esta altura é dominar os conceitos sobre ativo, passivo, geração de renda e fluxo de caixa, tomando a decisão de investir em um passivo, quando for o caso, de forma consciente, sabendo exatamente o que se está fazendo. Desta forma, não haverá sofrimento ao se perceber o quanto se deixou de ganhar em outros investimentos que poderiam ter sido feitos, em ativos de verdade. Essa é a paz de espírito da decisão consciente.

Mas e se eu disser que você pode comprar o tal carro novo sem ter de reduzir seus ATIVOS. E se eu demonstrar que é possível “criar” um PASSIVO no seu Balanço Patrimonial sem “destruir” os ATIVOS que você já possui contabilizados. Sim, isto é possível.

Ao contabilizar um aumento no PASSIVO, seu Patrimônio Líquido diminuirá, mas não será algo tão traumático se você não mexer nos seus ATIVOS, pois eles continuarão ali fazendo aquilo que devem fazer: gerar renda e alimentar novos investimentos geradores de renda.

Essa matemática envolve somente dois fatores: o custo de financiamento do passivo a ser adquirido e o custo de oportunidade dos ativos (remuneração dos investimentos, ou remuneração real dos investimentos, para ser mais preciso).

O raciocínio é simples: depois de passar quatro anos juntando dinheiro e investindo em ativos geradores de renda, transformamos um ATIVO de R$ 50 mil em R$ 273,3 mil. Assim, estes R$ 273 mil continuarão aplicados gerando renda suficiente para pagar a prestação do carro novo. Para isso, devemos calcular o rendimento médio dos investimentos e encontrar o preço e os termos adequados para financiar o veículo.

Sabemos que o rendimento médio das nossas aplicações financeiras, atualmente com uma taxa de juros baixa, tem se mantido em aproximadamente 0,6% ao mês, algo equivalente a 1.641,60 de renda mensal.

Neste contexto, precisamos financiar o nosso carro de R$ 60 mil em aproximadamente 60 meses com uma taxa de juros prefixada de 2% ao mês. Essa composição resultará em uma prestação mensal de mais ou menos R$ 1.726,00. Hoje, não será difícil encontrar essa condição no mercado. E num ambiente de crise, seu poder de negociação aumenta.

Este simples exemplo permite que a geração de caixa dos ATIVOS cubra as despesas geradas pelo novo PASSIVO pelos próximos 60 meses e você ainda terá toda a geração de caixa do seu trabalho assalariado preservada para aplicar em novos ATIVOS.

Isso tudo com uma taxa de juros baixa para remunerar os investimentos. Se a taxa de juros subir, seus ATIVOS renderão muito mais nos próximos anos, enquanto a prestação do veículo será prefixada, ou seja, não terá reajustes.Vamos recordar o quadro da formação dos fluxos de caixa da parte 5 da série de artigos:

Formação dos fluxos de caixa positivos durante os últimos quatro anos (em R$):
Período
Geração de receitas (trabalho assalariado + renda das aplicações)
Geração de despesas
Fluxo de Caixa Positivo

FATURAMENTO DA PESSOA FÍSICA
DESPESAS OPERACIONAIS
LUCRO OPERACIONAL
Ano 0
84.000,00 + 5.000,00 = 89.000,00
46.000,00
43.000,00
Ano 1
84.000,00 + 8.000,00 = 92.000,00
46.000,00
46.000,00
Ano 2
84.000,00 + 9.600,00 = 93.600,00
46.000,00
47.600,00
Ano 3
84.000,00 + 13.080,00 = 97.080,00
46.000,00
51.080,00
Ano 4
84.000,00 + 19.100,00 = 103.100,00
46.000,00
57.100,00
Totais
420.000,00 + 54.780,00 = 474.780,00
230.000,00
244.780,00

Veja que, mesmo tendo criado uma nova despesa para comprar o carro, a geração de caixa continuará positiva ano a ano, pois a renda do trabalho assalariado continua sendo superior às despesas operacionais (manutenção e sobrevivência).

Você continuará gerando sobras de caixa para criar novos ATIVOS, mesmo com um aumento das despesas e com um custo de financiamento do veículo bem superior ao retorno dos investimentos (2% ao mês contra 0,6% ao mês). Isso é possível porque os ATIVOS geradores de renda acumulados superam em muito os PASSIVOS existentes, permitindo que o superávit de caixa seja mantido.

Desta forma, você poderá rodar de carro novo sem se descapitalizar, e ainda continuará a gerar renda com o seu trabalho. E se os juros subirem, a despesa mensal do financiamento não terá reajuste, mas seus investimentos irão produzir renda ainda maior.

E o Balanço Patrimonial, como ficará?

Balanço Patrimonial – ao final de cinco anos, após a compra do carro novo com financiamento bancário de R$ 60 mil e venda do carro antigo por R$ 10 mil (valor de mercado, veículo totalmente depreciado)

ATIVO
PASSIVO
1. Emprego (gera renda líquida média de R$ 7.000,00/mês = R$ 84.000,00/ano)
Veículo próprio avaliado em R$ 60.000,00 (gera despesa de R$ 7.000,00/ano com IPVA, seguro, manutenção e combustível)
2. Aplicação financeira de R$ 73.200,00 (R$ 68,2 mil do ano anterior mais R$ 5 mil da renda anual do ano anterior). Gera renda extra de R$ 500,00/mês = R$ 6.000,00/ano com juros sobre juros
Despesa de aluguel, condomínio, energia elétrica e telefone de R$ 1.500,00/mês = R$ 18.000,00/ano
3. Aplicação financeira de R$ 55.600,00 (R$ 51,8 mil do ano anterior mais R$ 3,8 mil da renda anual do ano anterior). Gera renda extra de R$ 400,00/mês = R$ 5.000,00/ano com juros sobre juros
Outras despesas (vestuário, alimentação, viagens, plano saúde, outras) = R$ 2.000,00/mês = R$ 24.000,00/ano
4. Segunda aplicação financeira de R$ 55.600,00 (R$ 51,8 mil do ano anterior mais R$ 3,8 mil da renda anual do ano anterior). Gera renda extra de R$ 400,00/mês = R$ 5.000,00/ano com juros sobre juros
Empréstimo bancário de R$ 60.000,00 em 60 meses para compra do veículo (gera despesa de R$ 1.726,00/mês = R$ 21.000,00/ano de amortização de capital e juros, com taxa pré-fixada de 2% a.m.)
5. Terceira aplicação financeira de R$ 53.680,00 (50,48 mil do ano anterior mais 3,2 mil da renda anual do ano anterior). Gera renda extra de R$ 300,00/mês = R$ 3.800,00/ano com juros sobre juros

6. Quarta aplicação financeira de R$ 57.980,00 (54,38 mil do ano anterior mais 3,6 mil da renda anual do ano anterior). Gera renda extra de R$ 350,00/mês = R$ 4.500,00/ano com juros sobre juros

7. Nova aplicação financeira de R$ 57.100,00 (fluxo de caixa positivo gerado no anto anterior). Gera renda extra de 330,00/mês = R$ 4.000,00/ano com juros sobre juros

8. Nova aplicação de R$ 10.000,00 da venda do carro velho, gerando renda extra de R$ 600,00/ano

Total Ativo = 363.160,00
Total Passivo = 60.000,00
Patrimônio Líquido Positivo = 303.160,00

Total geração receitas ano = 112.900,00
Total geração despesas ano = 70.000,00
Fluxo de caixa positivo = 42.900,00/ano
Fluxo de caixa negativo = ZERO


A geração de despesas anuais aumentou para R$ 70 mil, enquanto a geração de receitas subiu para R$ 112,9 mil, reduzindo o fluxo de caixa positivo de R$ 57,1 mil para R$ 42,9 mil.

A acumulação de renda se mostrou mais lenta nos primeiros 12 meses após a compra do carro, pela apropriação da nova despesa no PASSIVO. Entretanto, esse novo custo é totalmente absorvido (pago) pela geração de renda acumulada no ATIVO, mantendo a geração positiva de caixa, embora em menor montante.

De qualquer forma, mesmo em menor quantidade, o fluxo de caixa positivo continuará sendo reinvestido em ativos geradores de caixa, aumentando o ATIVO ao longo do tempo, enquanto o novo PASSIVO se reduzirá ao longo deste mesmo tempo, com as amortizações do financiamento. A partir dos 50 meses, no período final do financiamento, nem sentiremos mais os efeitos dessa despesa no Balanço Patrimonial.

Assim fica bem mais fácil comprar um belo carro, não é mesmo. E o sacrifício foi esperar quatro anos, com paciência e disciplina, sem se deixar influenciar pela mídia e cultura de consumo, que nos estimulam a gastar demais e a pensar de menos.

Continuaremos a tratar desse tema e de outros assuntos correlatos nos próximos artigos.

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O velho ditado diz: tudo na vida tem seu preço. Costumo acrescentar: tudo na vida, que está à venda, tem seu preço. Aquilo que está à ve...