sábado, 17 de novembro de 2018

Auditoria nas demonstrações contábeis: a qualidade dos ativos e a geração de caixa – parte 2

Dando continuidade ao nosso trabalho de auditoria voltado para as demonstrações contábeis, iniciado no mês anterior, vamos começar agora a destrinchar as rubricas contábeis analíticas e grupos de rubricas que formam o balanço patrimonial, a demonstração do resultado do exercício e os balancetes periódicos.

Vamos analisar cada grupo de contas e também algumas rubricas individualmente, pela sua importância, comentando detalhadamente os motivos pelos quais devem ser rigorosamente observadas, quando se deseja concluir sobre a qualidade e a influência dos valores ali contabilizados para a geração de caixa do negócio.

É importante relembrar que o objetivo na nossa auditoria é tentar medir a robustez dos investimentos de curto e longo prazo e sua capacidade em gerar caixa e lucro operacional.  A qualidade dos saldos das rubricas e a indicação dos riscos que podem comprometer os resultados esperados serão determinantes na análise.

Os dois principais aspectos que contemplam a análise da qualidade de cada rubrica, além da legitimidade dos lançamentos, é claro, são (a) a capacidade de realização dos direitos de curto e longo prazo (Ativo) e (b) o tempo estimado para a realização de direitos (Ativo) e desembolso de obrigações (Passivo).

A geração de caixa deve ocorrer antes ou concomitantemente às despesas de curto prazo, de preferência em valores superiores a estas, para a formação de margem operacional positiva. Caso contrário, a empresa terá de buscar rapidamente recursos para suprir o caixa, numa situação de urgência que geralmente importa em valores onerosos e de curto prazo, que comprometem ainda mais o caixa futuro do negócio.

As técnicas de auditoria normalmente utilizadas nestes casos são a análise documental, a observação direta, a entrevista, a circularização, a conciliação e a contagem física.

A análise das notas explicativas das demonstrações financeiras também é muito importante para nos indicar o “caminho das pedras” e para entendermos muitas coisas que acontecem no dia-a-dia dos negócios e que não aparecem nos números. Falaremos sobre elas mais adiante.

Vamos começar então pelas contas do Ativo. Como vimos no artigo anterior, temos dois grandes grupos que formam os investimentos - também conhecidos como “aplicações de recursos”: o Ativo Circulante (bens e direitos de curto prazo) e o Ativo Não Circulante (direitos de longo prazo e investimentos de caráter permanente).

O Ativo Circulante (AC) pode ser subdividido em dois grupos: Ativo Circulante Financeiro (ACF) e Ativo Circulante Cíclico ou Operacional (ACC ou ACO). O ACF é formado pelos saldos das rubricas financeiras, que demonstram as disponibilidades imediatas da empresa, os valores em espécie. O ACC é formado pelas contas cíclicas, cujas transações comerciais, industriais ou de serviços se repetem no tempo (aspecto cíclico) e estão vinculadas à operação, ao negócio.



Pode-se dizer que o ACF é composto por disponibilidades financeiras e sobras de caixa resultantes de margem operacional positiva, que podem ser utilizadas e remuneradas ao longo do tempo. Por outro lado, o ACC é composto por valores que a empresa poderia ter em caixa, mas que estão em mãos de terceiros (clientes, fornecedores) ou imobilizados em estoques, dentro da própria empresa. São financiamentos concedidos pela empresa a terceiros e a ela própria, que possuem um custo operacional, claro.



É fundamental analisar como a empresa administra suas contas financeiras e cíclicas (operacionais), tanto no Ativo Circulante como no Passivo Circulante – que veremos mais tarde - uma vez que a má administração desses capitais pode comprometer o fluxo de caixa positivo do negócio. Uma empresa que financia muito seus clientes e o próprio estoque, quando este não gira rapidamente, pode comprometer suas reservas imediatas e precisar  de empréstimos bancários para cumprir seus compromissos, pagando juros altos, que impactam seus ganhos. 

Os conceitos financeiro e cíclico são determinantes em um trabalho de auditoria que visa concluir sobre a qualidade e importância das rubricas contábeis de curto prazo para a formação do fluxo de caixa e do lucro operacional, uma vez que fornecem informações sobre a necessidade de capital de giro do negócio (NCG) e sobre o capital de giro gerado pela empresa (CDG).

1- Ativo Circulante:

- Disponibilidades (ACF)

São aqueles recursos imediatos à disposição da empresa para fazer frente ao giro dos negócios, tais como saldos em contas correntes nos bancos, aplicações financeiras de curto prazo com resgate flexível, caixa mantido na própria empresa, cheques à vista ainda não sacados, e outros bens e direitos que podem ser transformados em recursos em espécie imediatamente.

Representam o “sangue” dos negócios, o curtíssimo prazo, que garante o pagamento das despesas diárias e das compras necessárias e serve de lastro para emergências e manutenção do fluxo de caixa em caso de contratempos. É importante certificar-se que aplicações financeiras sejam realmente de liberação imediata em caso de necessidade e classificar as aplicações de acordo com o risco e prazo.

Cuidado com aplicações em renda variável ou em fundos multimercado. Não é aconselhável este tipo de aplicação financeira para empresas, ainda mais se forem efetuadas com recursos do giro dos negócios (risco de perdas).

- Duplicatas a Receber ou Clientes (ACC)

É a parcela das vendas de produtos e serviços que não foi paga à vista pelos clientes. São financiamentos concedidos pela empresa aos clientes. Somente devem ser contabilizadas nesta rubrica aquelas vendas a prazo que serão recebidas nos próximos meses. As vendas parceladas acima de 12 meses devem ser contabilizadas no ANC (ativo não circulante), por serem direitos de longo prazo.

O pulo do gato aqui, em termos de auditoria da qualidade dos saldos, é aferir mensalmente a variação desta rubrica, através da análise de relatórios gerenciais e documentos (balancetes, saldos a pagar e a receber, títulos, duplicatas, notas fiscais, cheques, faturas de cartões), para detectar oscilações importantes nos saldos e manutenção de saldos e clientes por muito tempo, repetidamente, fatos que podem indicar a permanência de valores incobráveis e inadimplência.

O correto seria a contabilização em direitos de longo prazo (atrasos de clientes) ou a baixa destes valores (irrecuperáveis). Porém, muitas vezes a empresa mantém estes recursos no curto prazo, propositalmente, inflando os números reais, para não assustar investidores com baixas e quedas bruscas de investimentos, ou também para simular uma situação de recebíveis superiores à realidade, quando precisa buscar mais financiamentos junto a credores (impacto na margem de crédito junto aos credores).

- Adiantamentos a Fornecedores (ACC)

São financiamentos que a empresa concede aos seus fornecedores para cumprir cláusulas contratuais, quando são obrigadas a receber cotas de produção/mercadorias (revendedoras, franquias) ou para garantir o recebimento de produtos ou matérias primas por diversas causas (alta demanda e concorrência, carência sazonal ou permanente).

Também pode sinalizar que a empresa auditada não possui mais a confiança dos fornecedores, por inadimplência ou atrasos constantes nos pagamentos, tendo que pagar antecipado para garantir a entrega de matérias primas e produtos.

Muita atenção a esta rubrica e ao aumento de saldos constantemente ao longo do tempo. Situações sazonais são permitidas e até comuns em alguns ramos de atividade. O importante é medir o comprometimento do caixa com fornecedores e o nível de dependência da empresa em relação a estes.

- Estoques (ACC)

Nas indústrias, os estoques são formados por matérias-primas, produtos em elaboração e produtos acabados, e no comércio atacadista e varejista pelas mercadorias adquiridas e ainda não vendidas. Os estoques também são chamados de financiamentos concedidos pela empresa (a ela própria), pois os valores ali parados possuem um custo financeiro embutido até serem comercializados e transformados em dinheiro.

É preciso mensurar o giro dos estoques e comparar com os prazos de compras e de vendas, para concluir sobre o ciclo operacional e financeiro de produção, para entender a política de compras e vendas da empresa.

Os estoques com baixo giro e as vendas parceladas em prazos longos devem ser financiadas com recursos de longo prazo e jamais com recursos de curto prazo, sejam próprios ou de terceiros. Atentar para valores em estoques que representem produtos deteriorados, obsoletos ou defasados, ou seja, invendáveis, e que já deveriam ter sido baixados da rubrica contábil.

- Outros Valores a Receber (pode ser ACC, mas nunca ACF)

Esta conta envolve outros direitos a serem recebidos pela empresa que não possuem rubrica específica, tais como empréstimos e “vales” a sócios, dirigentes, empregados ou terceiros, venda a prazo de bens, imóveis ou utensílios não vinculados aos produtos comercializados pela empresa, acertos de contas entre sócios e a empresa ou entre empresas do grupo, dentre outros.

Muito cuidado com essa rubrica. Pode ser um “saco de gatos”, envolvendo valores suspeitos, de difícil realização. Atenção para valores elevados e saldos que permanecem por mais de um exercício registrados nesta conta, sem serem tratados, e que deveriam ser transferidos para o ANC ou simplesmente baixados. O importante é separar o joio do trigo e saber quando o trigo será dinheiro.

Pois bem, estas são as principais contas que formam o Ativo Circulante das empresas em geral. Claro que determinados setores e ramos de atividade possuem algumas rubricas diferenciadas, com nomenclatura específica. Nestes casos, é necessário estudar o setor e a atividade a ser auditada em um trabalho de pré-auditoria ou análise preliminar, conforme o caso. De qualquer forma, a essência da classificação das contas não muda (financeiras e cíclicas).

Vamos parar por aqui para não estender demais o artigo e poder digerir melhor as informações. No próximo post, trataremos das contas do Ativo Não Circulante e da sua relação – ou não - com a formação do resultado operacional.

Quanto custa?

O velho ditado diz: tudo na vida tem seu preço. Costumo acrescentar: tudo na vida, que está à venda, tem seu preço. Aquilo que está à ve...