O objetivo deste artigo não é abordar a
questão da conformidade e do compliance das demonstrações financeiras e
contábeis, e sim a robustez dos investimentos de curto e longo prazo e sua
capacidade de gerar caixa para a organização.
Um trabalho de auditoria, independentemente
do escopo, do universo auditável e das técnicas a serem aplicadas, pode conter,
na sua origem, três tipos de abordagem: auditoria baseada em conformidade,
auditoria baseada em riscos ou ambas.
Apesar da importância dos aspectos de conformidade e compliance para as organizações,
o foco deste artigo será (a) a análise da qualidade das principais rubricas do Balanço Patrimonial e da Demonstração
do Resultado do Exercício em relação às políticas de funding e de investimentos do negócio e (b) a análise dos riscos que podem comprometer a eficácia dessas políticas para
o alcance dos resultados propostos (lucro operacional e geração de caixa
operacional).
Antes de seguir adiante é importante
observar que o resultado líquido, a margem líquida e o retorno líquido dos
investimentos são informações acessórias em nossa análise, uma vez que o importante
é sabermos se a organização possui capacidade de geração de resultado e caixa através
das suas operações, e não provenientes de outras transações não operacionais.
A venda de um ativo imobilizado para
esconder um prejuízo operacional, por exemplo, poderá resultar em lucro líquido
ao final do exercício, gerando margem líquida e retorno líquido, mas não fará
com que a empresa volte a ter lucro em suas operações se as causas não forem
tratadas na origem.
Voltando ao tema, a geração de funding de um negócio, também conhecida
por fontes de recursos ou origem dos recursos, é tratada na análise das
rubricas contábeis do Passivo e do Patrimônio Líquido da organização, assim
como a qualidade dos investimentos é observada através da análise dos valores
aplicados no Ativo, principalmente aqueles de curto e longo prazo e algumas
rubricas de caráter permanente.
Os quadros abaixo podem dar uma ideia de
como funciona o fluxo de recursos que entra e sai de uma organização, sempre
lembrando que o objetivo final é o lucro e a geração de caixa:
Quadro
1: exemplo de BALANÇO PATRIMONIAL – Ênfase na geração de caixa
ATIVO
|
PASSIVO
|
APLICAÇÕES DE
RECURSOS
(INVESTIMENTOS)
|
FONTES DE
RECURSOS
(PRÓPRIOS E DE
TERCEIROS)
|
ATIVO CIRCULANTE
Recursos
investidos no giro dos negócios que devem gerar caixa no curto prazo (até 360
dias), tais como:
-
produtos para venda, estoques de mercadorias de giro rápido, saldo de caixa
positivo das vendas à vista e das vendas parceladas de curto prazo;
-
valores destinados a aquisição de mercadorias ou matérias primas
(adiantamentos a fornecedores);
-
saldo positivo em depósitos bancários e aplicações financeiras de valores
excedentes, destinados a formar capital de giro próprio para a administração
de entradas e saídas, estoques e sazonalidades;
-
outros valores a receber de curto prazo.
|
PASSIVO
CIRCULANTE
Recursos
de terceiros que devem ser pagos no curto prazo (até 360 dias), tais como:
-
valores destinados ao financiamento da produção ou compra de mercadorias
(adiantamentos de clientes);
-
valores destinados ao pagamento dos débitos de funcionamento: tributos a
recolher, salários e encargos trabalhistas a pagar, despesas administrativas,
dentre outros;
-
empréstimos bancários obtidos para complementar os recursos necessários para
o pagamento das despesas de curto prazo descritas acima;
-
outros valores a pagar de curto prazo.
|
REALIZÁVEL A
LONGO PRAZO (ATIVO NÃO CIRCULANTE)
Direitos
a receber em longo prazo (mais de 360 dias), tais como:
-
duplicatas a receber de vendas a prazo de longo prazo, acima de 12 meses
(financiamento a clientes);
-
duplicadas a receber de vendas a prazo de curto prazo, abaixo de 12 meses,
não recebidas e renegociadas com os clientes para recebimento em longo prazo
(financiamento a clientes);
-
valores referentes a estoques de mercadorias não vendidas, de baixo giro, ou
devolvidas;
-
outros valores a receber em longo prazo.
|
EXIGÍVEL A LONGO PRAZO
(PASSIVO NÃO
CIRCULANTE)
Recursos
de terceiros que devem ser pagos em longo prazo (após 360 dias), tais como:
-
financiamentos bancários de longo prazo para investimentos;
-
dívidas de curto prazo não pagas, renegociadas para longo prazo e outras dívidas
de longo prazo;
-
impostos, tributos e encargos de curto prazo inadimplentes, renegociados para
pagamento em longo prazo;
-
outros valores a pagar em longo prazo.
|
ATIVO PERMANENTE
(ATIVO NÃO
CIRCULANTE)
Investimentos
Imobilizado
Diferido
|
PATRIMÔNIO LÍQUIDO
Capital
Social Integralizado
Reservas
de Capital
Lucros/Prejuízos
Acumulados
Outras
Reservas
|
Quadro 2: exemplo do
FLUXO DE ORIGEM E APLICAÇÃO DE RECURSOS
Quadro
3: exemplo de TIPOS DE RECURSOS CAPTADOS E APLICADOS
Após essa
pequena introdução sobre as abordagens e os conceitos relacionados ao trabalho, partiremos no próximo
artigo para o detalhamento dos aspectos mais relevantes que devem ser
observados em cada rubrica contábil, e em grupos de rubricas contábeis, para
mensurar a qualidade da captação e aplicação de recursos da organização na construção do resultado operacional e da geração de caixa.


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