Dando continuidade ao nosso trabalho de
auditoria voltado para as demonstrações contábeis, iniciado no mês anterior,
vamos começar agora a destrinchar as rubricas contábeis analíticas e grupos de
rubricas que formam o balanço patrimonial, a demonstração do resultado do
exercício e os balancetes periódicos.
Vamos analisar cada grupo de contas e
também algumas rubricas individualmente, pela sua importância, comentando detalhadamente
os motivos pelos quais devem ser rigorosamente observadas, quando se deseja
concluir sobre a qualidade e a influência dos valores ali contabilizados para a
geração de caixa do negócio.
É importante relembrar que o objetivo na
nossa auditoria é tentar medir a robustez dos investimentos de curto e longo
prazo e sua capacidade em gerar caixa e lucro operacional. A qualidade dos saldos das rubricas e a indicação
dos riscos que podem comprometer os resultados esperados serão determinantes na
análise.
Os dois principais aspectos que contemplam
a análise da qualidade de cada rubrica, além da legitimidade dos lançamentos, é
claro, são (a) a capacidade de
realização dos direitos de curto e longo prazo (Ativo) e (b) o tempo estimado para a realização de direitos (Ativo) e desembolso
de obrigações (Passivo).
A
geração de caixa deve ocorrer antes ou concomitantemente às despesas de curto
prazo, de preferência em valores superiores a estas, para a formação de margem
operacional positiva. Caso contrário, a empresa terá de buscar rapidamente
recursos para suprir o caixa, numa situação de urgência que geralmente importa
em valores onerosos e de curto prazo, que comprometem ainda mais o caixa futuro
do negócio.
As técnicas de auditoria normalmente
utilizadas nestes casos são a análise documental, a observação direta, a entrevista,
a circularização, a conciliação e a contagem física.
A análise das notas explicativas das
demonstrações financeiras também é muito importante para nos indicar o “caminho
das pedras” e para entendermos muitas coisas que acontecem no dia-a-dia dos
negócios e que não aparecem nos números. Falaremos sobre elas mais adiante.
Vamos
começar então pelas contas do Ativo. Como vimos no artigo anterior, temos dois
grandes grupos que formam os investimentos - também conhecidos como “aplicações
de recursos”: o Ativo Circulante (bens e direitos de curto prazo) e o Ativo Não
Circulante (direitos de longo prazo e investimentos de caráter permanente).
O
Ativo Circulante (AC) pode ser subdividido em dois grupos: Ativo Circulante
Financeiro (ACF) e Ativo Circulante Cíclico ou Operacional (ACC ou ACO). O ACF é formado pelos saldos
das rubricas financeiras, que demonstram as disponibilidades imediatas da
empresa, os valores em espécie. O ACC é formado pelas contas cíclicas, cujas
transações comerciais, industriais ou de serviços se repetem no tempo (aspecto
cíclico) e estão vinculadas à operação, ao negócio.
Pode-se dizer que o ACF é composto por disponibilidades financeiras e sobras de caixa resultantes de margem operacional positiva, que podem ser utilizadas e remuneradas ao longo do tempo. Por outro lado, o ACC é composto por valores que a empresa poderia ter em caixa, mas que estão em mãos de terceiros (clientes, fornecedores) ou imobilizados em estoques, dentro da própria empresa. São financiamentos concedidos pela empresa a terceiros e a ela própria, que possuem um custo operacional, claro.
É fundamental analisar como a empresa administra suas contas financeiras e cíclicas (operacionais), tanto no Ativo Circulante como no Passivo Circulante – que veremos mais tarde - uma vez que a má administração desses capitais pode comprometer o fluxo de caixa positivo do negócio. Uma empresa que financia muito seus clientes e o próprio estoque, quando este não gira rapidamente, pode comprometer suas reservas imediatas e precisar de empréstimos bancários para cumprir seus compromissos, pagando juros altos, que impactam seus ganhos.
Pode-se dizer que o ACF é composto por disponibilidades financeiras e sobras de caixa resultantes de margem operacional positiva, que podem ser utilizadas e remuneradas ao longo do tempo. Por outro lado, o ACC é composto por valores que a empresa poderia ter em caixa, mas que estão em mãos de terceiros (clientes, fornecedores) ou imobilizados em estoques, dentro da própria empresa. São financiamentos concedidos pela empresa a terceiros e a ela própria, que possuem um custo operacional, claro.
É fundamental analisar como a empresa administra suas contas financeiras e cíclicas (operacionais), tanto no Ativo Circulante como no Passivo Circulante – que veremos mais tarde - uma vez que a má administração desses capitais pode comprometer o fluxo de caixa positivo do negócio. Uma empresa que financia muito seus clientes e o próprio estoque, quando este não gira rapidamente, pode comprometer suas reservas imediatas e precisar de empréstimos bancários para cumprir seus compromissos, pagando juros altos, que impactam seus ganhos.
Os
conceitos financeiro e cíclico são determinantes em um trabalho de auditoria que visa
concluir sobre a qualidade e importância das rubricas contábeis de curto prazo para a formação do fluxo de
caixa e do lucro operacional, uma vez que fornecem informações sobre a necessidade de capital de giro do negócio (NCG) e sobre o capital de giro gerado pela empresa (CDG).
1-
Ativo Circulante:
-
Disponibilidades (ACF)
São
aqueles recursos imediatos à disposição da empresa para fazer frente ao giro
dos negócios, tais como saldos em contas correntes nos bancos, aplicações
financeiras de curto prazo com resgate flexível, caixa mantido na própria
empresa, cheques à vista ainda não sacados, e outros bens e direitos que podem ser transformados
em recursos em espécie imediatamente.
Representam
o “sangue” dos negócios, o curtíssimo prazo, que garante o pagamento das despesas
diárias e das compras necessárias e serve de lastro para emergências e
manutenção do fluxo de caixa em caso de contratempos. É importante
certificar-se que aplicações financeiras sejam realmente de liberação imediata
em caso de necessidade e classificar as aplicações de acordo com o risco e
prazo.
Cuidado com aplicações em renda variável ou em fundos multimercado. Não é aconselhável este tipo de aplicação financeira para empresas, ainda mais se forem efetuadas com recursos do giro dos negócios (risco de perdas).
Cuidado com aplicações em renda variável ou em fundos multimercado. Não é aconselhável este tipo de aplicação financeira para empresas, ainda mais se forem efetuadas com recursos do giro dos negócios (risco de perdas).
-
Duplicatas a Receber ou Clientes (ACC)
É
a parcela das vendas de produtos e serviços que não foi paga à vista pelos clientes.
São financiamentos concedidos pela empresa aos clientes. Somente devem ser
contabilizadas nesta rubrica aquelas vendas a prazo que serão recebidas nos
próximos meses. As vendas parceladas acima de 12 meses devem ser contabilizadas
no ANC (ativo não circulante), por serem direitos de longo prazo.
O
pulo do gato aqui, em termos de auditoria da qualidade dos saldos, é aferir
mensalmente a variação desta rubrica, através da análise de relatórios gerenciais e documentos
(balancetes, saldos a pagar e a receber, títulos, duplicatas, notas fiscais, cheques, faturas de cartões), para
detectar oscilações importantes nos saldos e manutenção de saldos e clientes
por muito tempo, repetidamente, fatos que podem indicar a permanência de
valores incobráveis e inadimplência.
O correto seria a contabilização em direitos de longo prazo (atrasos de clientes) ou a baixa destes valores (irrecuperáveis). Porém, muitas vezes a empresa mantém estes recursos no curto prazo, propositalmente, inflando os números reais, para não assustar investidores com baixas e quedas bruscas de investimentos, ou também para simular uma situação de recebíveis superiores à realidade, quando precisa buscar mais financiamentos junto a credores (impacto na margem de crédito junto aos credores).
O correto seria a contabilização em direitos de longo prazo (atrasos de clientes) ou a baixa destes valores (irrecuperáveis). Porém, muitas vezes a empresa mantém estes recursos no curto prazo, propositalmente, inflando os números reais, para não assustar investidores com baixas e quedas bruscas de investimentos, ou também para simular uma situação de recebíveis superiores à realidade, quando precisa buscar mais financiamentos junto a credores (impacto na margem de crédito junto aos credores).
-
Adiantamentos a Fornecedores (ACC)
São
financiamentos que a empresa concede aos seus fornecedores para cumprir
cláusulas contratuais, quando são obrigadas a receber cotas de
produção/mercadorias (revendedoras, franquias) ou para garantir o recebimento
de produtos ou matérias primas por diversas causas (alta demanda e concorrência,
carência sazonal ou permanente).
Também pode sinalizar que a empresa auditada não possui mais a confiança dos fornecedores, por inadimplência ou atrasos constantes nos pagamentos, tendo que pagar antecipado para garantir a entrega de matérias primas e produtos.
Muita atenção a esta rubrica e ao aumento de saldos constantemente ao longo do tempo. Situações sazonais são permitidas e até comuns em alguns ramos de atividade. O importante é medir o comprometimento do caixa com fornecedores e o nível de dependência da empresa em relação a estes.
Também pode sinalizar que a empresa auditada não possui mais a confiança dos fornecedores, por inadimplência ou atrasos constantes nos pagamentos, tendo que pagar antecipado para garantir a entrega de matérias primas e produtos.
Muita atenção a esta rubrica e ao aumento de saldos constantemente ao longo do tempo. Situações sazonais são permitidas e até comuns em alguns ramos de atividade. O importante é medir o comprometimento do caixa com fornecedores e o nível de dependência da empresa em relação a estes.
-
Estoques (ACC)
Nas
indústrias, os estoques são formados por matérias-primas, produtos em
elaboração e produtos acabados, e no comércio atacadista e varejista pelas
mercadorias adquiridas e ainda não vendidas. Os estoques também são chamados de
financiamentos concedidos pela empresa (a ela própria), pois os valores ali
parados possuem um custo financeiro embutido até serem comercializados e
transformados em dinheiro.
É
preciso mensurar o giro dos estoques e comparar com os prazos de compras e de
vendas, para concluir sobre o ciclo operacional e financeiro de produção, para
entender a política de compras e vendas da empresa.
Os estoques com baixo giro e as vendas parceladas em prazos longos devem ser financiadas com recursos de longo prazo e jamais com recursos de curto prazo, sejam próprios ou de terceiros. Atentar para valores em estoques que representem produtos deteriorados, obsoletos ou defasados, ou seja, invendáveis, e que já deveriam ter sido baixados da rubrica contábil.
Os estoques com baixo giro e as vendas parceladas em prazos longos devem ser financiadas com recursos de longo prazo e jamais com recursos de curto prazo, sejam próprios ou de terceiros. Atentar para valores em estoques que representem produtos deteriorados, obsoletos ou defasados, ou seja, invendáveis, e que já deveriam ter sido baixados da rubrica contábil.
- Outros Valores a Receber (pode ser
ACC, mas nunca ACF)
Esta conta envolve outros direitos a
serem recebidos pela empresa que não possuem rubrica específica, tais como empréstimos
e “vales” a sócios, dirigentes, empregados ou terceiros, venda a prazo de bens,
imóveis ou utensílios não vinculados aos produtos comercializados pela empresa,
acertos de contas entre sócios e a empresa ou entre empresas do grupo, dentre
outros.
Muito cuidado com essa rubrica. Pode ser
um “saco de gatos”, envolvendo valores suspeitos, de difícil realização.
Atenção para valores elevados e saldos que permanecem por mais de um exercício
registrados nesta conta, sem serem tratados, e que deveriam ser transferidos
para o ANC ou simplesmente baixados. O importante é separar o joio do trigo e
saber quando o trigo será dinheiro.
Pois bem, estas são as principais contas
que formam o Ativo Circulante das empresas em geral. Claro que determinados
setores e ramos de atividade possuem algumas rubricas diferenciadas, com
nomenclatura específica. Nestes casos, é necessário estudar o setor e a atividade
a ser auditada em um trabalho de pré-auditoria ou análise preliminar, conforme
o caso. De qualquer forma, a essência da classificação das contas não muda (financeiras
e cíclicas).
Vamos parar por aqui para não estender
demais o artigo e poder digerir melhor as informações. No próximo post, trataremos
das contas do Ativo Não Circulante e da sua relação – ou não - com a formação do
resultado operacional.


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