segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O Balanço Patrimonial da Pessoa Física – parte 3

Prosseguindo com o nosso desafio de estruturar um Balanço Patrimonial de uma pessoa física (BP-PF), retorno ao ponto do artigo anterior quando alertei sobre o péssimo negócio que se faz ao comprar um carro novo através de financiamento.

Vamos explorar melhor essa questão tentando entender como seria a contabilização dessa transação no nosso Balanço Patrimonial e quais os seus impactos no fluxo de caixa da nossa “empresa”.

Já sabemos que a compra de um veículo de passeio representa a alocação de recursos em um bem que não gera renda, mas somente despesas. Portanto, esse bem deve ser registrado como um passivo no BP-PF. Essa decisão, do ponto de vista financeiro, já é equivocada, pois transfere recursos que estavam gerando renda no ativo para fomentar a geração de despesas no passivo.

No caso acima, estamos supondo que a compra do carro foi consumada com a utilização de recursos próprios que estavam à disposição do adquirente em uma aplicação financeira, rendendo juros - por exemplo, numa situação característica de ativo gerando renda.

Mas vamos supor que o comprador não possua os recursos suficientes para pagar o veículo e opte por fazer um financiamento bancário para a aquisição do bem. Neste caso, não haveria a troca de um ativo (aplicação financeira) por um passivo (veículo adquirido), e sim uma situação muito pior: a criação de dois passivos no BP-PF.

Trocar um ativo por um passivo é uma decisão econômica e financeira equivocada, mas criar dois passivos a mais em sua vida, geradores de despesas, sem contrapartidas no ativo, é uma péssima escolha para sua vida empresarial.

Imagine que você é relativamente jovem, vive apenas para si e possua um bom emprego para os padrões brasileiros. Seu Balanço Patrimonial poderia ser assim:

ATIVO
PASSIVO
Emprego (gera renda líquida média de R$ 7.000,00/mês = R$ 84.000,00/ano)
Veículo próprio avaliado em R$ 10.000,00 (gera despesa de R$ 4.000,00/ano com IPVA, seguro, manutenção e combustível)
Aplicação financeira de R$ 50.000,00 (gera renda extra de R$ 400,00/mês = R$ 5.000,00/ano com juros sobre juros)
Despesa de aluguel, condomínio, energia elétrica e telefone de R$ 1.500,00/mês = R$ 18.000,00/ano
Outros ativos e receitas = 0,00
Outras despesas (vestuário, alimentação, viagens, plano saúde, outras) = R$ 2.000,00/mês = R$ 24.000,00/ano
Total Ativo = 50.000,00
Total Passivo = 10.000,00
Patrimônio Líquido Positivo = 40.000,00

Total geração receitas ano = 89.000,00
Total geração despesas ano = 46.000,00
Fluxo de caixa positivo = 43.000,00/ano
Fluxo de caixa negativo = ZERO

Você possui um emprego estável que produz R$ 7 mil de caixa positivo mensalmente e contribui para que seu Patrimônio Líquido anual seja positivo em R$ 40 mil (ativos – passivos). Esta situação se reflete em um fluxo de caixa positivo de R$ 43 mil por ano.

Esses R$ 43 mil anuais podem e devem ser reinvestidos no ativo, renovando seus investimentos e aumentando sua geração positiva de caixa ano após ano, possibilitando que a geração de caixa dos seus investimentos supere, no longo prazo, a geração de caixa do seu trabalho assalariado. É o reinvestimento do lucro no giro dos negócios (ativo circulante), como as empresas fazem, ou deveriam fazer.

Agora voltemos à situação da compra do veículo, em que você troca seu carro usado de R$ 10.000,00 por um carro novo de R$ 60.000,00. Vamos analisar as duas hipóteses: compra à vista e compra financiada com empréstimo bancário.

1. Compra à vista:
Você utiliza o saldo de sua aplicação financeira para comprar o carro novo (R$ 50.000,00) e entrega no negócio seu veículo antigo pelo valor de R$ 10.000,00:

ATIVO
PASSIVO
Emprego (gera renda líquida média de R$ 7.000,00/mês = R$ 84.000,00/ano)
Veículo próprio avaliado em R$ 60.000,00 (gera despesa de R$ 7.000,00/ano com IPVA, seguro, manutenção e combustível)
Aplicação financeira = R$ 0,00
Despesa de aluguel, condomínio, energia elétrica e telefone de R$ 1.500,00/mês = R$ 18.000,00/ano
Outros ativos e receitas = 0,00
Outras despesas (vestuário, alimentação, viagens, plano saúde, outras) = R$ 2.000,00/mês = R$ 24.000,00/ano
Total Ativo = 0,00
Total Passivo = 60.000,00

Patrimônio Líquido Negativo = 60.000,00
Total geração receitas ano = 84.000,00
Total geração despesas ano = 49.000,00
Fluxo de caixa positivo = 35.000,00/ano
Fluxo de caixa negativo = ZERO

O Patrimônio Líquido, que era positivo em R$ 40 mil tornou-se negativo em R$ 60 mil. O fluxo de caixa continua positivo, mas se reduziu de R$ 43 mil para R$ 35 mil.

Veja que não estamos computando a depreciação do veículo novo e o custo de oportunidade do capital, para não complicar muito o exemplo neste momento. Lembramos que essas variáveis reduzem ainda mais o patrimônio líquido e aumentam as despesas.

2. Compra com financiamento bancário:
Você mantém a aplicação financeira (R$ 50.000,00) e toma um empréstimo de R$ 50.000,00 para a compra do carro, entregando seu carro usado no negócio pelo valor de R$ 10.000,00:

ATIVO
PASSIVO
Emprego (gera renda líquida média de R$ 7.000,00/mês = R$ 84.000,00/ano)
Veículo próprio avaliado em R$ 60.000,00 (gera despesa de R$ 7.000,00/ano com IPVA, seguro, manutenção e combustível)
Aplicação financeira de R$ 50.000,00 (gera renda extra de R$ 400,00/mês = R$ 5.000,00/ano com juros sobre juros)
Despesa de aluguel, condomínio, energia elétrica e telefone de R$ 1.500,00/mês = R$ 18.000,00/ano
Outros ativos = 0,00
Outras despesas (vestuário, alimentação, viagens, plano saúde, outras) = R$ 2.000,00/mês = R$ 24.000,00/ano
Outras receitas = 0,00
Empréstimo bancário de R$ 50.000,00 em 48 meses para compra do veículo (gera despesa de R$ 20.000,00/ano de amortização de capital e juros, com taxa pré-fixada de 2% a.m.)
Total Ativo = 50.000,00
Total Passivo = 110.000,00

Patrimônio Líquido Negativo = 60.000,00
Total geração receitas ano = 89.000,00
Total geração despesas ano = 69.000,00
Fluxo de caixa positivo = 20.000,00/ano
Fluxo de caixa negativo = ZERO

Nesta segunda hipótese, o Patrimônio Líquido manteve-se negativo em R$ 60 mil. Entretanto, o fluxo de caixa se reduziu ainda mais, de R$ 35 mil para R$ 20 mil. A constituição de mais um passivo no Balanço Patrimonial (empréstimo de R$ 50 mil) suprimiu parte da geração de caixa criada no ativo.

Neste contexto, da Análise Econômica e Financeira das Pessoas Físicas, a tendência é que a geração positiva de caixa seja sempre inversamente proporcional ao aumento do passivo, uma vez que dificilmente você conseguirá taxas de remuneração do ativo superiores às taxas de custeio dos financiamentos tomados como pessoa física. Ou seja, os custos das despesas geradas no passivo geralmente serão maiores que os ganhos das receitas geradas no ativo.

Portanto, para não perder geração de caixa é importante manter ativos em proporções superiores aos passivos.

Tudo bem até aqui, então fique ligado nos próximos posts sobre o assunto. O nosso Balanço Patrimonial está começando a tomar forma.

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