Prosseguindo
com o nosso desafio de estruturar um Balanço Patrimonial de uma pessoa física
(BP-PF), retorno ao ponto do artigo anterior quando alertei sobre o péssimo
negócio que se faz ao comprar um carro novo através de financiamento.
Vamos explorar melhor essa questão tentando entender como seria a contabilização dessa transação no nosso Balanço Patrimonial e quais os seus impactos no fluxo de caixa da nossa “empresa”.
Vamos explorar melhor essa questão tentando entender como seria a contabilização dessa transação no nosso Balanço Patrimonial e quais os seus impactos no fluxo de caixa da nossa “empresa”.
Já
sabemos que a compra de um veículo de passeio representa a alocação de recursos
em um bem que não gera renda, mas somente despesas. Portanto, esse bem deve ser
registrado como um passivo no BP-PF. Essa decisão, do ponto de vista
financeiro, já é equivocada, pois transfere recursos que estavam gerando renda
no ativo para fomentar a geração de despesas no passivo.
No
caso acima, estamos supondo que a compra do carro foi consumada com a
utilização de recursos próprios que estavam à disposição do adquirente em uma
aplicação financeira, rendendo juros - por exemplo, numa situação
característica de ativo gerando renda.
Mas
vamos supor que o comprador não possua os recursos suficientes para pagar o
veículo e opte por fazer um financiamento bancário para a aquisição do bem.
Neste caso, não haveria a troca de um ativo (aplicação financeira) por um
passivo (veículo adquirido), e sim uma situação muito pior: a criação de dois
passivos no BP-PF.
Trocar
um ativo por um passivo é uma decisão econômica e financeira equivocada, mas
criar dois passivos a mais em sua vida, geradores de despesas, sem
contrapartidas no ativo, é uma péssima escolha para sua vida empresarial.
Imagine
que você é relativamente jovem, vive apenas para si e possua um bom emprego
para os padrões brasileiros. Seu Balanço Patrimonial poderia ser assim:
ATIVO
|
PASSIVO
|
Emprego
(gera renda líquida média de R$ 7.000,00/mês = R$ 84.000,00/ano)
|
Veículo
próprio avaliado em R$ 10.000,00 (gera despesa de R$ 4.000,00/ano com IPVA,
seguro, manutenção e combustível)
|
Aplicação
financeira de R$ 50.000,00 (gera renda extra de R$ 400,00/mês = R$
5.000,00/ano com juros sobre juros)
|
Despesa
de aluguel, condomínio, energia elétrica e telefone de R$ 1.500,00/mês = R$
18.000,00/ano
|
Outros
ativos e receitas = 0,00
|
Outras despesas
(vestuário, alimentação, viagens, plano saúde, outras) = R$ 2.000,00/mês = R$
24.000,00/ano
|
Total Ativo = 50.000,00
|
Total Passivo = 10.000,00
|
Patrimônio Líquido Positivo =
40.000,00
|
|
Total geração receitas ano =
89.000,00
|
Total geração despesas ano = 46.000,00
|
Fluxo de caixa positivo = 43.000,00/ano
|
Fluxo de caixa negativo = ZERO
|
Você
possui um emprego estável que produz R$ 7 mil de caixa positivo mensalmente e
contribui para que seu Patrimônio Líquido anual seja positivo em R$ 40 mil
(ativos – passivos). Esta situação se reflete em um fluxo de caixa positivo de
R$ 43 mil por ano.
Esses
R$ 43 mil anuais podem e devem ser reinvestidos no ativo, renovando seus
investimentos e aumentando sua geração positiva de caixa ano após ano, possibilitando
que a geração de caixa dos seus investimentos supere, no longo prazo, a geração
de caixa do seu trabalho assalariado. É o reinvestimento do lucro no giro dos negócios
(ativo circulante), como as empresas fazem, ou deveriam fazer.
Agora
voltemos à situação da compra do veículo, em que você troca seu carro usado de
R$ 10.000,00 por um carro novo de R$ 60.000,00. Vamos analisar as duas
hipóteses: compra à vista e compra financiada com empréstimo bancário.
1.
Compra à vista:
Você
utiliza o saldo de sua aplicação financeira para comprar o carro novo (R$
50.000,00) e entrega no negócio seu veículo antigo pelo valor de R$ 10.000,00:
ATIVO
|
PASSIVO
|
Emprego
(gera renda líquida média de R$ 7.000,00/mês = R$ 84.000,00/ano)
|
Veículo
próprio avaliado em R$ 60.000,00 (gera despesa de R$ 7.000,00/ano com IPVA,
seguro, manutenção e combustível)
|
Aplicação
financeira = R$ 0,00
|
Despesa
de aluguel, condomínio, energia elétrica e telefone de R$ 1.500,00/mês = R$
18.000,00/ano
|
Outros
ativos e receitas = 0,00
|
Outras despesas
(vestuário, alimentação, viagens, plano saúde, outras) = R$ 2.000,00/mês = R$
24.000,00/ano
|
Total Ativo = 0,00
|
Total Passivo = 60.000,00
|
Patrimônio Líquido Negativo =
60.000,00
|
|
Total geração receitas ano =
84.000,00
|
Total geração despesas ano = 49.000,00
|
Fluxo de caixa positivo = 35.000,00/ano
|
Fluxo de caixa negativo = ZERO
|
O
Patrimônio Líquido, que era positivo em R$ 40 mil tornou-se negativo em R$ 60
mil. O fluxo de caixa continua positivo, mas se reduziu de R$ 43 mil para R$ 35
mil.
Veja que não estamos computando a depreciação do veículo novo e o custo de oportunidade do capital, para não complicar muito o exemplo neste momento. Lembramos que essas variáveis reduzem ainda mais o patrimônio líquido e aumentam as despesas.
Veja que não estamos computando a depreciação do veículo novo e o custo de oportunidade do capital, para não complicar muito o exemplo neste momento. Lembramos que essas variáveis reduzem ainda mais o patrimônio líquido e aumentam as despesas.
2.
Compra com financiamento bancário:
Você
mantém a aplicação financeira (R$ 50.000,00) e toma um empréstimo de R$ 50.000,00
para a compra do carro, entregando seu carro usado no negócio pelo valor de R$
10.000,00:
ATIVO
|
PASSIVO
|
Emprego
(gera renda líquida média de R$ 7.000,00/mês = R$ 84.000,00/ano)
|
Veículo
próprio avaliado em R$ 60.000,00 (gera despesa de R$ 7.000,00/ano com IPVA,
seguro, manutenção e combustível)
|
Aplicação
financeira de R$ 50.000,00 (gera renda extra de R$ 400,00/mês = R$
5.000,00/ano com juros sobre juros)
|
Despesa
de aluguel, condomínio, energia elétrica e telefone de R$ 1.500,00/mês = R$
18.000,00/ano
|
Outros
ativos = 0,00
|
Outras despesas
(vestuário, alimentação, viagens, plano saúde, outras) = R$ 2.000,00/mês = R$
24.000,00/ano
|
Outras
receitas = 0,00
|
Empréstimo bancário
de R$ 50.000,00 em 48 meses para compra do veículo (gera despesa de R$ 20.000,00/ano de amortização de capital e juros, com taxa pré-fixada de 2% a.m.)
|
Total Ativo = 50.000,00
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Total Passivo = 110.000,00
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Patrimônio Líquido Negativo = 60.000,00
|
|
Total geração receitas ano =
89.000,00
|
Total geração despesas ano = 69.000,00
|
Fluxo de caixa positivo = 20.000,00/ano
|
Fluxo de caixa negativo = ZERO
|
Nesta
segunda hipótese, o Patrimônio Líquido manteve-se negativo em R$ 60 mil.
Entretanto, o fluxo de caixa se reduziu ainda mais, de R$ 35 mil para R$ 20
mil. A constituição de mais um passivo no Balanço Patrimonial (empréstimo de R$
50 mil) suprimiu parte da geração de caixa criada no ativo.
Neste
contexto, da Análise Econômica e Financeira das Pessoas Físicas, a tendência é
que a geração positiva de caixa seja sempre inversamente proporcional ao
aumento do passivo, uma vez que dificilmente você conseguirá taxas de
remuneração do ativo superiores às taxas de custeio dos financiamentos tomados
como pessoa física. Ou seja, os custos das despesas geradas no passivo geralmente
serão maiores que os ganhos das receitas geradas no ativo.
Portanto,
para não perder geração de caixa é importante manter ativos em proporções
superiores aos passivos.
Tudo
bem até aqui, então fique ligado nos próximos posts sobre o assunto. O nosso Balanço Patrimonial está começando a tomar forma.
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