Hoje vamos conversar um pouco sobre Dinastias empresariais, com “D” maiúsculo mesmo. A ideia não é escrever sobre grandes empresas e negócios - o que já seria uma bela ousadia - mas ir além, explorando a fundo as intrincadas relações que permearam os maiores impérios e negócios construídos nos últimos duzentos anos. O assunto é instigante!
E é para ser mesmo. Para se entender o processo de
criação e perpetuação de riqueza, também é preciso saber como esta dinâmica
funciona. E uma das melhores maneiras de fazer isso é estudando a história das grandes Dinastias empresariais-familiares que dominaram e dominam o mundo desde o final do século XVIII até hoje.
Parece exagero! Garanto-lhes que não. Prestem atenção ao texto abaixo, uma pequena história ocorrida em meados do século XIX com uma das famílias protagonistas desse enredo:
O avô de John Pierpont, Joseph Morgan,
largou a agricultura para se tornar hoteleiro em Hartford, com um conjunto de
negócios concebidos e irrigados por substâncias aquosas e alcoólicas, como uma
taverna lucrativa, (a Exchange Coffee House), uma empresa de canais, barcos a
vapor e a ferrovia que ligava Hartford a Springfield, mais tarde um elo na
linha Nova York-Boston. Joseph comprou imóveis e foi um dos fundadores da companhia
de seguros Aetna Fire Insurance Company.
Ativo na política e na igreja
Congregacionalista, desenvolveu contatos pessoais e comerciais em todas as
áreas. Abriu mão da taverna em troca do City Hotel, estabelecimento maior,
comprou uma outra estalagem em New Haven, contraiu empréstimos em bancos – não temia
dívidas – e concedeu empréstimos a particulares.
Seu feito mais importante, contudo, foi
introduzir o filho Junios Spencer no comércio. Junios começou em Hartford numa
empresa chamada Howe e Mather, mas, passada uma década, após a morte do pai, em
1847, partiu em direção a Boston atrás de coisa melhor. Cerca de sete anos
depois, em 1854, mudar-se-ia para Londres e mandaria seu filho John Pierpont
estudar na França e na Alemanha.
Quatro anos após a morte do pai, Junios vendeu sua participação na Howe e Mather por 600 mil dólares (nenhuma
ninharia) e tornou-se sócio em Boston de uma empresa que passaria a chamar-se
J.M. Beebe, Morgan and Company – com a mesma natureza comercial, mas numa escala
maior: importação, exportação (sobretudo algodão), endosso e desconto de
promissórias comerciais. E foi ali que chamou a atenção de George Peabody,
também americano, embora banqueiro mercantil de Londres.
Tratava-se de uma grande oportunidade,
não apenas porque o banco de Peabody era um dos mais importantes no comércio
anglo-americano, mas porque o próprio Peabody se aproximava da aposentadoria e
queria dedicar-se a boas causas. Ele precisava de ajuda: alguém para dirigir a
empresa, supervisionar as contas e as cobranças. Seu caminho cruzou com o de
Junios Morgan em várias transações, ele gostou do que viu, ofereceu-lhe
sociedade em 1854. Em pouco tempo, Junios se viu conduzindo o negócio e, quando
Peabody se aposentou, dez anos depois, em 1864, a empresa passou a chamar-se
J.S. Morgan and Company.
Em 1870, Otto Von Bismarck, chanceler da
Prússia e figura-chave na emergente federação alemã, atraiu um orgulhoso e tolo
imperador da França para a guerra. A França foi derrotada e o imperador, capturado.
Fim do império. Montou-se um governo novo, provisório, que precisou de
dinheiro. Despachados de Paris para Tours, seus membros não puderam pegar nos
cofres do Banco da França nem ouro nem dinheiro vivo.
Onde conseguir fundos? Os principais
banqueiros britânicos, inclusive os Barings e os Rothschilds, depositavam pouca
fé nessa oportunista criação política francesa, menos ainda em sua disposição e
capacidade de pagar os credores. Os Rothschilds, com filiais na adversária
Frankfurt e em Paris, ficaram mais divididos ainda quanto a quem prestar
lealdade e acharam melhor, principalmente devido à hostilidade de Bismarck, não
ajudar os franceses antes da celebração de algum tipo de acordo de paz.
Foi nesse ponto que a J.S. Morgan and
Company apareceu e concordou em liderar como underwriter o lançamento de títulos para a concessão do empréstimo.
Junios e seus associados haviam pesquisado e concluído que, a despeito de
várias mudanças de regime, a França jamais se negara a honrar uma dívida.
Emitiram-se os títulos com um deságio substancial de 15% abaixo do valor
nominal, nada muito injusto para um país derrotado e para financistas novatos.
Mas os franceses se sentiram irritados e
ofendidos: essas condições, na opinião deles, mais se adequavam a devedores
perenes. Tanto melhor para o underwriter,
que precisava do máximo de margem possível.
A proclamação da Comuna de Paris, então,
com seu desagradável odor de extremismo radical, fez o preço baixar mais 25%, e
Junios se viu comprando títulos qual um alucinado, a fim de manter a cotação.
Foi quando – tais são as viradas do destino – os franceses lhe fizeram um
enorme favor. Furiosos por ver seu crédito impugnado, providenciaram um
empréstimo de liberação em 1873 e pré-quitaram os títulos antigos ao par, ou
seja, pelo valor nominal.
Junios ganhou fortuna nesse imprevisto
lance de sorte – cerca de um milhão e meio de libras, ou 450 milhões de dólares
em valores atuais. Como os Rothschilds depois das guerras napoleônicas, ele
agora se via como uma peça importante nas finanças internacionais. E como os
Rothschilds, no passado, descobriu que os banqueiros da velha guarda, a começar
pelos Rothschilds, não estavam dispostos a atribuir status a esse calouro
impetuoso e constrangedor. Os Morgans, principalmente o filho Pierpont, se
encheram de fúria e não perdoaram...
Então, gostaram da história. Pois é, este é um pequeno aperitivo que envolve a história dos Barings, Rothschilds, Morgans, Fords, Agnellis, Toyodas, Rockefellers, Guggenheims e outros não menos importantes. Para aqueles que desejam conhecer e entender como os grandes impérios financeiros e industriais modernos foram construídos, o livro "Dinastias - Esplendores e Infortúnios das Grandes Famílias Empresariais" é um prato cheio para a curiosidade e a imaginação.
O livro foi lançado em 2006 pelo escritor, professor e historiador americano David Landes, e conta a história das grandes dinastias do século XIX e XX, com riqueza de dados históricos, datas, transações de negócios e histórias pessoais, buscando a interconexão entre os acontecimentos, suas causas e efeitos, analisando e concluindo sobre os principais fatores que levaram aos sucessos e fracassos vivenciados pelos diversos protagonistas da obra.
Querem conhecer mais sobre riqueza e acumulação de capital? Essa é a minha dica. Boa leitura.
O livro foi lançado em 2006 pelo escritor, professor e historiador americano David Landes, e conta a história das grandes dinastias do século XIX e XX, com riqueza de dados históricos, datas, transações de negócios e histórias pessoais, buscando a interconexão entre os acontecimentos, suas causas e efeitos, analisando e concluindo sobre os principais fatores que levaram aos sucessos e fracassos vivenciados pelos diversos protagonistas da obra.
Querem conhecer mais sobre riqueza e acumulação de capital? Essa é a minha dica. Boa leitura.

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