Hoje faz 55 anos que o Brasil viveu um caos político e social, que culminou no chamado golpe militar de 1964 e
início da ditadura militar (tese esquerdista, comunista ou socialista) ou
intervenção militar de 1964 e contragolpe constitucional (tese militar,
direitista ou conservadora).
Não pretendo aqui insistir nessa velha discussão. Nasci e “me criei” durante a ditadura
militar. Quando comecei a trabalhar, em 1984, o presidente era o General
Figueiredo. Vi e vivi aqueles dias desde
pequeno. Tenho opinião própria sobre o assunto e já adiando que os dois lados
cometeram excessos. Penso hoje que qualquer olhar sobre aquele período precisa
necessariamente de pragmatismo e racionalidade, deixando as paixões de lado,
caso contrário, não se chega a lugar algum.
Conhecer o passado é fundamental, mas o sangue nos dentes é desproposital. O
maior legado de 1964 é a reflexão sóbria e consciente, aparando arestas e descartando extremos, pois o importante hoje é pavimentar o caminho para o prometido futuro glorioso, que parece não querer chegar. É claro que o passado deve ser o tapete a ser estendido, substituindo pedras e espinhos, para que não se cometa os mesmos erros novamente. Esta é a sua função: alavancar o futuro com inteligência no presente. Como
dizia o famoso jornalista italiano Indro Montanelli (1909 – 2001), un paese che ignora il proprio ieri, non può
avere un domani.
Sempre digo aos que me pedem opinião sobre 31 de março de 1964: não perguntem aos militares sobre o
que aconteceu, sobre quem tem razão. Nem aos esquerdistas e progressistas. Nem aos
políticos aliados ou perseguidos. As informações sairão distorcidas, com
certeza. Perguntem a quem não vai mentir para vocês, perguntem ao seus pais e às suas mães,
aos seus tios, aos seus avós. Perguntem como era a vida naquele tempo, como era
a rotina de quem acordava cedo para levar os filhos ao colégio e trabalhar.
Perguntem às pessoas comuns, mais velhas, elas são as testemunhas vivas dos
chamados “anos de chumbo”.
Façam mais: peçam a elas para traçarem um
paralelo dos 20 anos do regime militar com os 35 anos da
nova república, perguntem como era a liberdade de ir e vir, a censura, a segurança
pública, a saúde pública e a educação pública (os três pilares obrigatórios de
qualquer governo decente). Peçam aos mais velhos a sua opinião
sobre a ditadura e a democracia pós-ditadura.
Eu poderia dizer isso a vocês, pois vivi aquela época, mas vocês não me conhecem, não sou "das suas confianças". Entretanto, como também não sou de ficar em cima do muro, gostaria de colocar aqui um artigo publicado pelo jornalista Carlos Ramalhete em 28/03/2019, texto que considero o mais próximo à minha visão sobre o assunto. O artigo original pode ser lido no endereço https://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/carlos-ramalhete/31-de-marco-de-1964/
Eu poderia dizer isso a vocês, pois vivi aquela época, mas vocês não me conhecem, não sou "das suas confianças". Entretanto, como também não sou de ficar em cima do muro, gostaria de colocar aqui um artigo publicado pelo jornalista Carlos Ramalhete em 28/03/2019, texto que considero o mais próximo à minha visão sobre o assunto. O artigo original pode ser lido no endereço https://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/carlos-ramalhete/31-de-marco-de-1964/
"Temos
em mãos uma crise anunciada. Era bastante evidente que, eleito Bolsonaro, fosse
haver algum tipo de comemoração do 31 de março de 1964. Surpreendente, na
verdade, é que elas sejam restritas aos quartéis, sem paradas em grandes
avenidas e todo o carnaval cívico que a sociedade brasileira sabe preparar.
Afinal,
o atual presidente fez a sua carreira política baseada no apoio aos governos
militares que se sucederam ao levante de 1964, com direito a fotografias dos
seus atuais antecessores nas paredes do seu gabinete de deputado, voto em
homenagem a Ustra quando do impeachment de Dilma, e o que mais pudesse lhe
valer para colocar-se como o anticomunista por antonomásia. Seria, assim,
perfeitamente natural se ele fizesse uma forte comemoração nas ruas das
cidades, ou mesmo que decretasse um dia de feriado se não fosse num domingo o
aniversário este ano.
Isso
soa estranho, estranhíssimo, quando só se tem diante dos olhos o discurso único
da mídia, que durante os desgovernos esquerdistas que assolaram o Brasil pelas
duas últimas décadas fez-se o único discurso aceito em qualquer meio de
divulgação pública.
Os
que perderam em 1964 ganharam na difusão de sua versão. Já há uma geração que
foi educada aprendendo apenas sobre os “anos de chumbo”, nas novelas, jornais e
onde mais houvesse espaço para divulgá-la.
Terroristas
assassinos, como a gangue de nossa ex-presidente, conseguiram arvorar-se em
supostos defensores da democracia, sem deixar claro que a “democracia” que
defendiam era na verdade mero codinome para a famigerada Ditadura do
Proletariado, que mais de cem milhões de vítimas causou ao longo do século
passado.
Já
Bolsonaro chegou a defender que não houve ditadura. Nem tanto ao mar, nem tanto
à terra. Talvez ele pudesse mesmo dizer, com o ditador chileno Pinochet (que
ele aliás elogiou publicamente, causando reações na esquerda daquele país em
sua recente visita), que tivemos aqui uma “ditabranda”. Não sei.
O
que sei é que entre os governos militares brasileiros e seus correspondentes
pelo resto da nossa sofrida América Latina, havia uma diferença monumental.
Paisecos minúsculos sofreram dezenas de milhares de baixas entre os adversários
dos governos militares, por vezes até mesmo jogados de aviões ou helicópteros,
ou outras formas refinadamente cruéis de assassinato.
A
forma especialmente macabra e cruenta como foi assassinado o cantor e
violonista Victor Jara, no Chile, por representantes do Estado, poderia entrar
para qualquer História da Infâmia que um novo Borges se dispusesse a escrever.
Até hoje desenterram-se cadáveres de chacinas centro-americanas, perpetradas a
soldo do Estado.
Já
o nosso país, de dimensões continentais, teve algumas centenas de mortos – em
sua imensa maioria gente armada e perigosa –, às quais se somam, por justiça,
cento e tantos trabalhadores assassinados pelos movimentos terroristas de
extrema-esquerda. É a nossa cultura, que não aceita como a espanhola (e as suas
descendentes) o confronto aberto, que fez com que fosse assim.
Enquanto
os hispanófonos latino-americanos batiam de frente, como toureiros e touros,
até a morte de um – ou de dezenas de milhares –, os lusófonos brasileiros
arranjávamos esquemas extremamente generosos para livrar-se dos que não
trocavam tiros com a polícia, dando, por exemplo, a FHC o direito de
aposentar-se da USP antes de ir para o régio exílio em Paris.
Mas
de onde veio isso, de onde veio este confronto, que não aconteceu apenas no
Brasil, tendo, ao contrário, nele a sua forma mais branda? Trata-se de um fruto
da Guerra Fria, de uma das inúmeras guerrinhas por procuração entre os Estados
Unidos e a hoje felizmente finada União Soviética. Jânio, o louco, havia sido
eleito presidente. Querendo mais poderes, tentou uma jogada algo arriscada, em
que renunciou, convencido de que voltaria nos braços do povo. Não voltou.
Quem
tomou seu lugar, após várias idas e vindas, foi seu rival e vice, João Goulart,
que imediatamente alinhou-se ao eixo soviético (com que Jânio já havia flertado
ao condecorar Che Guevara). Com o apoio da extrema-esquerda, passou a pregar o
ódio de classes, a reforma agrária confiscatória, e outras medidas que pareciam
indicar que o país estaria no rumo de tornar-se nova Cuba. Cabe lembrar que a
revolução cubana não ocorrera tanto tempo atrás; Havana ainda não parecia ter
sido bombardeada. Talvez até existissem ainda cubanos gordos sem fazer parte do
Partido.
A
população brasileira, notadamente a classe média, levantou-se 55 anos atrás
como o fez nos últimos anos. Só faltaram as camisetas da CBF. Multidões
enormes, que em termos de percentual da população jamais foram alcançadas,
desceram às ruas pedindo às Forças Armadas que depusessem aquele louco.
O
cineasta e escritor Arnaldo Jabor conta que, voltando excitado de um comício da
extrema-esquerda em que Jango prometera a revolução para o dia seguinte,
arrepiou-se ao perceber que em todas, virtualmente todas as janelas dos
apartamentos que via da janela do ônibus estava a vela acesa solitária que
identificava os simpatizantes das “Marchas com Deus pela Liberdade”,
anticomunistas. Deve ter sido mais ou menos o horror que acometeu os
esquerdistas deste nosso século ao ver as ruas das cidades tomadas de camisetas
amarelas.
E
veio o que, dependendo de quem conta a história, pode ser dito “o golpe de 64”,
“a revolução redentora” ou “o contragolpe”. Inclino-me por este último, na
medida em que Jango, alçado ao poder indiretamente e sem respaldo popular,
planejava instaurar uma ditadura de esquerda. Ou não; talvez ele fosse apenas
fraco e incompetente, e não fosse conseguir instaurar nada mais que o caos. Mas
como saber? A História andou.
Não
adianta pensar o que teria ocorrido se algo houvesse sido diferente. Se Jango
houvesse conseguido fazer suas “reformas de base”. Se os militares não
houvessem intervindo. Se as eleições houvessem meramente sido adiantadas. Não
se sabe. O que se sabe é que o Congresso Nacional, inclusive a esquerda
moderada que o compunha, acatou a intervenção militar e depôs formalmente
Jango, instalando em seu lugar um general.
A
ideia era simplesmente arrumar um pouco a confusão e fazer novas eleições
presidenciais. Vê-se, na capa da Revista Manchete (uma revista composta
basicamente de fotografias com legendas, popularíssima à época) alusiva à data,
Carlos Lacerda, o governador direitista do atual Rio de Janeiro, com um sorriso
que se fosse maior saltar-lhe-iam da boca os dentes. Ele pensava que seria o
próximo presidente, que poderia concorrer em eleições livres pouco tempo
depois, sendo eleito por aquelas mesmas multidões que foram às ruas pedindo o
fim do desgoverno janguista. Mas não.
E
aqui entramos em outra fieira de “Ses”: e se essa eleição tivesse ocorrido,
como teria sido a História? E se Lacerda tivesse sido eleito? E se ele
concorresse contra Jango ou Brizola, como teria sido? Nunca saberemos. Se
porcos tivessem asas, eles voariam; não vale a pena pensar em “Ses”.
O
que vale notar é que o recrudescimento do confronto entre esquerda
pró-soviética e direita pró-americana só fez aumentar, com a extrema-esquerda
tomando em armas e lançando-se ao terrorismo, aos assaltos a banco, aos
sequestros. E, no quadro deste recrudescimento, quatro anos depois de tomarem o
governo – quatro anos depois de 1964, quatro anos depois da data que Bolsonaro
quer comemorar – os militares tomaram o poder, com o Ato Institucional Número
Cinco. Só o foram largar duas décadas depois. Estes anos, após o AI-5, é que
foram os anos da verdadeira ditadura (ou, repito, comparada às que assolaram
Argentina, Chile, etc., “ditabranda”).
Assim,
não se pode, em justiça, comparar o 31 de março de 1964 com a situação que veio
a acontecer depois. Primeiro, em 1964, houve uma resposta militar a um clamor
popular. Depois, em 1968, houve a instauração de uma ditadura fechada, em
resposta a uma situação estratégica de inimigos armados internos. Entre um e
outro, tendo lá suas razões, os militares não organizaram as eleições que
deveriam ter acontecido.
O
AI-5 foi um fruto do movimento de 1964? De certa forma, foi. Mas desta mesma
forma, o 31 de março foi o fruto do desgoverno janguista, e o AI-5 do
crescimento do terrorismo e da guerrilha foquista. O que tivemos ali foi uma
situação cruel, em que, como me observou certa feita meu avô – o autor da Lei
de Anistia (ampla, geral e irrestrita) que possibilitou a volta dos esquerdistas
exilados, inclusive os culpados por crimes de sangue –, “brasileiro lançou-se
contra brasileiro”. Uma tragédia, em que simplesmente participamos de outra
tragédia a nível global, que foi a Guerra Fria e a rivalidade EUA-URSS.
A
nossa cultura, felizmente, impediu que houvesse aqui algo semelhante à horrenda
Guerra Civil Espanhola, em que igualmente os compatriotas voaram aos pescoços
uns dos outros, resultando em um morticínio que serviu de prévia da Segunda
Guerra Mundial. Aqui aposentamos os subversivos antes de enxotá-los. E os
mandamos para Paris, não para o fundo do mar. Felizmente.
A
grita da extrema-esquerda (incluindo aí a “extrema-imprensa”) contra as
comemorações do 31 de março é outro ressurgimento desta mentalidade de guerra,
desta mentalidade partidária, como se tivéssemos ainda a União Soviética e os
Estados Unidos às vésperas de trocar bombas atômicas.
A
data de 31 de março de 1964 foi uma derrota política para a esquerda, e isto
para eles já é algo a chorar, espernear e gritar. Basta ver como tratam hoje o
impeachment de Dilma. Tudo é “golpe”, mesmo quando ocorre literalmente, como
nos dois casos, a pedidos da população. Mas as torturas, os “desaparecimentos”,
o terrorismo, os sequestros, as bombas, toda a parte realmente trágica daquele período
da nossa História não veio diretamente do 31 de março mais que teria vindo do
Comício da Central de Jango.
Seria,
realmente, péssima ideia comemorar o AI-5, ainda que se possa perfeitamente
defender que tenha sido necessário no momento, dado o perigo da guerrilha
comunista, apoiada e financiada do estrangeiro. Mas foi uma tragédia. O 31 de
março não. Não houve mortes então. Não houve tortura, não houve bombas em
aeroportos ou em portas de quartéis. Isso tudo veio depois. O 31 de março foi
uma tentativa de – para usar uma palavra da moda – “livramento”, que
infelizmente gorou.
Pode
ser comemorado, pode ser lamentado, mas certamente não faz sentido algum
tratá-lo como a esquerda o trata, como se naquele momento – e não no AI-5 – se
houvessem aberto as portas do inferno. Não; elas já estavam abertas, e
continuaram ainda por muito tempo. Hoje dele ardem brasinhas na Coreia do Norte
e em Cuba, com uma ou outra oculta na Nicarágua ou soltando fétida fumaça na
Venezuela.
Mas,
felizmente, o inferno do Século 20 e de seus confrontos sanguinários entre
ideologias ficou decididamente para trás. A História agora, como disse o
“subversivo Marques”, só se repete como farsa".
Leia
mais em:
https://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/carlos-ramalhete/31-de-marco-de-1964/





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