quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Dinheiro & Dilemas – Você tem cacoete de rico?

Quantas vezes você já viu em livros, artigos ou filmes os segredos para alcançar a fortuna? Quantas vezes você leu sobre os dez passos para se tornar milionário ou sobre as sete dicas para ter uma vida de sucesso?

Falar sobre riqueza virou modinha há muito tempo. Existem “trocentos” artigos sobre o tema. Então porque estamos tratando disso novamente? Porque voltar a falar nesse assunto?

Digamos que sou um pouco teimoso com coisas que me fascinam e, guardadas as “devidas pretensões”, acho que poderia acrescentar algo de novo ao debate, com o cuidado de não me tornar enfadonho ou chato mesmo.

Ao longo da vida, observando e tentando entender o sucesso e a riqueza alheia – sou de origem muito pobre - e também convivendo e aprendendo com pessoas muito ricas, em função de atividades desenvolvidas, pude captar alguns sinais e características comuns a todas as pessoas bem sucedidas que conheci.

Em tese, trata-se de apenas uma característica primária comum a todas as pessoas que conseguem acumular capital ao longo do tempo, que eu batizei carinhosamente de ”cacoete de rico”.

Mas o que seria isso? Primeiro, vamos relembrar o significado de cacoete: os principais sinônimos de cacoete são “mania, gesto repetitivo, costume ou trejeito característico de uma pessoa, expressões ou atos que tendem a ser repetitivos e que podem se transformar em vícios”.

Podemos dizer então que cacoete de rico é ter mania de rico, vício de ser rico, ou fazer gestos repetitivos que imitam os ricos? Digamos que pode ser mais ou menos isso, mas não é bem isso. 

Para começar a entender essa característica que considero inerente às pessoas ricas, é importante reforçar que não estou me referindo a pessoas que sabem ganhar dinheiro, e sim tratando de pessoas que criam e mantém riqueza. São assuntos correlatos, mas coisas distintas. Ganhar dinheiro é uma coisa, criar e manter riqueza é outra bem diferente.

Você pode pesquisar à vontade, pois existem milhares de histórias de pessoas que ganharam muito dinheiro e acabaram na miséria. O próprio processo de ganhar e perder dinheiro, e como as pessoas lidam com isso, já nos fala muito sobre a personalidade dos envolvidos nessas histórias.

Os atos de criar e manter riqueza estão ligados a outras eficiências e padrões cognitivos, que são diferentes daqueles relacionados às pessoas boas em fazer dinheiro. Algumas possuem ambas as capacidades, mas a maioria, apenas uma parte, ou nenhuma delas.

Vamos pensar em duas situações e nas respostas que teríamos para elas:

Se alguém colocar na sua frente o carro dos seus sonhos, lindo e maravilhoso, e o valor deste carro em dinheiro, e pedir para você escolher entre um ou outro, de presente, você escolhe o carro ou o dinheiro? Pense em qual seria a sua atitude.

Se alguém lhe perguntar quanto vale um terreno de 1000 m2 bem no meio do deserto do Saara, sem nada em volta, e quanto vale um outro, igual, bem no meio da ilha de Manhattan, em Nova Iorque, qual será a sua resposta?

A maioria das pessoas que ganha muito dinheiro o faz com segundas intenções: comprar uma casa melhor ou um belo carro, adquirir mais bens materiais, pagar a faculdade dos filhos, satisfazer vaidades pessoais, ostentar para os amigos e família, e outras coisas mais.

O que percebi ao longo dos anos observando pessoas ricas, é que elas possuem certas emoções e padrões cognitivos diferentes da maioria, mas comuns entre elas, que foram determinantes nas suas histórias de prosperidade. E tudo começa com uma simples constatação: ELAS GOSTAM DE DINHEIRO.

As preocupações e emoções dos que buscam o dinheiro como um meio são diferentes dos sentimentos que movem as pessoas que enxergam o dinheiro como um fim. E porque falar em emoções e não em atitudes e habilidades? Porque atitude e habilidade as pessoas que ganham dinheiro já tem. Não é isso que falta a elas. Ou você acha que ganhar dinheiro honestamente é fácil?

Criar e manter riqueza precisa de algo diferente: por isso que estamos falando em emoções. A emoção, como se diz na minha terra, é a mão que segura a rédea que conduz o cavalo (ou o burro, conforme o caso e o tipo de emoção).

Em outras palavras: a emoção vem em primeiro lugar. Toda a ação é precedida do pensamento e do sentimento. Em quase tudo na vida. A maneira como você pensa e reage diante do dinheiro é que define se você possui cacoete de rico ou não.

E por mais que gostar de dinheiro possa parecer um sentimento frio em relação à vida, as pessoas que pensam assim, paradoxalmente, desenvolvem ao longo do tempo um estilo de vida mais frugal, desapegado em relação aos bens materiais, justamente por aprender a abrir mão destes para ter a segurança financeira desejada. Descobrem com o tempo que o cúmulo do refinamento é a simplicidade. Aprendem com a vida.

E as perguntas acima? Vamos às respostas?

Primeira: entre o carrão e o dinheiro, quem tem cacoete de rico prefere o dinheiro, sempre, e isso vale para o carro, o apartamento, obras de arte, joias, terrenos. Quem gosta de dinheiro quer ter o controle do dinheiro, e não abre mão das inúmeras possibilidades que o dinheiro proporciona. Quer ter o poder de decisão sobre o dinheiro. Nunca esqueça que o dinheiro é ótimo para proporcionar coisas que não dependem essencialmente dele. O dinheiro permite comprar o tempo, as habilidades e a produção de outras pessoas, ou seja, o suor alheio. É aí que reside o seu imenso valor. É por isso que as pessoas que entendem de dinheiro respeitam o dinheiro.

Segunda: o valor dos terrenos depende do seu destino, ou seja, daquilo que se pretende fazer com eles. Se ficarem parados no tempo, valem a mesma coisa, ou seja, nada. Agora, se você pretende fazer algo com eles, usá-los de forma construtiva para gerar renda, bem, é certo que o terreno em Manhattan vale muito mais que os mil metros de areia no Saara. A não ser que você encontre petróleo ou diamantes por ali, e mesmo assim, terá custos altíssimos para colocar a mão nessa loteria.

E também não esqueça que preço e valor são coisas bem diferentes.

Preço é a quantidade de unidades monetárias que alguém pede por algo. Valor é a capacidade de alguma coisa gerar renda. O que define o valor é a capacidade de geração de renda de um bem ou meio de produção. É a renda que dá valor aos bens e não o contrário. De que adianta imobilizar um milhão de dólares em uma cobertura e depois não ter renda para pagar o condomínio. A renda vem primeiro, sempre.

E então, você gosta mais de comprar ou de poupar? Gosta mais de bens e produtos ou de dinheiro? Você é capaz de entender a diferença entre preço e valor? Pense um pouco a respeito. Voltaremos ao assunto em outro post.

sábado, 17 de novembro de 2018

Auditoria nas demonstrações contábeis: a qualidade dos ativos e a geração de caixa – parte 2

Dando continuidade ao nosso trabalho de auditoria voltado para as demonstrações contábeis, iniciado no mês anterior, vamos começar agora a destrinchar as rubricas contábeis analíticas e grupos de rubricas que formam o balanço patrimonial, a demonstração do resultado do exercício e os balancetes periódicos.

Vamos analisar cada grupo de contas e também algumas rubricas individualmente, pela sua importância, comentando detalhadamente os motivos pelos quais devem ser rigorosamente observadas, quando se deseja concluir sobre a qualidade e a influência dos valores ali contabilizados para a geração de caixa do negócio.

É importante relembrar que o objetivo na nossa auditoria é tentar medir a robustez dos investimentos de curto e longo prazo e sua capacidade em gerar caixa e lucro operacional.  A qualidade dos saldos das rubricas e a indicação dos riscos que podem comprometer os resultados esperados serão determinantes na análise.

Os dois principais aspectos que contemplam a análise da qualidade de cada rubrica, além da legitimidade dos lançamentos, é claro, são (a) a capacidade de realização dos direitos de curto e longo prazo (Ativo) e (b) o tempo estimado para a realização de direitos (Ativo) e desembolso de obrigações (Passivo).

A geração de caixa deve ocorrer antes ou concomitantemente às despesas de curto prazo, de preferência em valores superiores a estas, para a formação de margem operacional positiva. Caso contrário, a empresa terá de buscar rapidamente recursos para suprir o caixa, numa situação de urgência que geralmente importa em valores onerosos e de curto prazo, que comprometem ainda mais o caixa futuro do negócio.

As técnicas de auditoria normalmente utilizadas nestes casos são a análise documental, a observação direta, a entrevista, a circularização, a conciliação e a contagem física.

A análise das notas explicativas das demonstrações financeiras também é muito importante para nos indicar o “caminho das pedras” e para entendermos muitas coisas que acontecem no dia-a-dia dos negócios e que não aparecem nos números. Falaremos sobre elas mais adiante.

Vamos começar então pelas contas do Ativo. Como vimos no artigo anterior, temos dois grandes grupos que formam os investimentos - também conhecidos como “aplicações de recursos”: o Ativo Circulante (bens e direitos de curto prazo) e o Ativo Não Circulante (direitos de longo prazo e investimentos de caráter permanente).

O Ativo Circulante (AC) pode ser subdividido em dois grupos: Ativo Circulante Financeiro (ACF) e Ativo Circulante Cíclico ou Operacional (ACC ou ACO). O ACF é formado pelos saldos das rubricas financeiras, que demonstram as disponibilidades imediatas da empresa, os valores em espécie. O ACC é formado pelas contas cíclicas, cujas transações comerciais, industriais ou de serviços se repetem no tempo (aspecto cíclico) e estão vinculadas à operação, ao negócio.



Pode-se dizer que o ACF é composto por disponibilidades financeiras e sobras de caixa resultantes de margem operacional positiva, que podem ser utilizadas e remuneradas ao longo do tempo. Por outro lado, o ACC é composto por valores que a empresa poderia ter em caixa, mas que estão em mãos de terceiros (clientes, fornecedores) ou imobilizados em estoques, dentro da própria empresa. São financiamentos concedidos pela empresa a terceiros e a ela própria, que possuem um custo operacional, claro.



É fundamental analisar como a empresa administra suas contas financeiras e cíclicas (operacionais), tanto no Ativo Circulante como no Passivo Circulante – que veremos mais tarde - uma vez que a má administração desses capitais pode comprometer o fluxo de caixa positivo do negócio. Uma empresa que financia muito seus clientes e o próprio estoque, quando este não gira rapidamente, pode comprometer suas reservas imediatas e precisar  de empréstimos bancários para cumprir seus compromissos, pagando juros altos, que impactam seus ganhos. 

Os conceitos financeiro e cíclico são determinantes em um trabalho de auditoria que visa concluir sobre a qualidade e importância das rubricas contábeis de curto prazo para a formação do fluxo de caixa e do lucro operacional, uma vez que fornecem informações sobre a necessidade de capital de giro do negócio (NCG) e sobre o capital de giro gerado pela empresa (CDG).

1- Ativo Circulante:

- Disponibilidades (ACF)

São aqueles recursos imediatos à disposição da empresa para fazer frente ao giro dos negócios, tais como saldos em contas correntes nos bancos, aplicações financeiras de curto prazo com resgate flexível, caixa mantido na própria empresa, cheques à vista ainda não sacados, e outros bens e direitos que podem ser transformados em recursos em espécie imediatamente.

Representam o “sangue” dos negócios, o curtíssimo prazo, que garante o pagamento das despesas diárias e das compras necessárias e serve de lastro para emergências e manutenção do fluxo de caixa em caso de contratempos. É importante certificar-se que aplicações financeiras sejam realmente de liberação imediata em caso de necessidade e classificar as aplicações de acordo com o risco e prazo.

Cuidado com aplicações em renda variável ou em fundos multimercado. Não é aconselhável este tipo de aplicação financeira para empresas, ainda mais se forem efetuadas com recursos do giro dos negócios (risco de perdas).

- Duplicatas a Receber ou Clientes (ACC)

É a parcela das vendas de produtos e serviços que não foi paga à vista pelos clientes. São financiamentos concedidos pela empresa aos clientes. Somente devem ser contabilizadas nesta rubrica aquelas vendas a prazo que serão recebidas nos próximos meses. As vendas parceladas acima de 12 meses devem ser contabilizadas no ANC (ativo não circulante), por serem direitos de longo prazo.

O pulo do gato aqui, em termos de auditoria da qualidade dos saldos, é aferir mensalmente a variação desta rubrica, através da análise de relatórios gerenciais e documentos (balancetes, saldos a pagar e a receber, títulos, duplicatas, notas fiscais, cheques, faturas de cartões), para detectar oscilações importantes nos saldos e manutenção de saldos e clientes por muito tempo, repetidamente, fatos que podem indicar a permanência de valores incobráveis e inadimplência.

O correto seria a contabilização em direitos de longo prazo (atrasos de clientes) ou a baixa destes valores (irrecuperáveis). Porém, muitas vezes a empresa mantém estes recursos no curto prazo, propositalmente, inflando os números reais, para não assustar investidores com baixas e quedas bruscas de investimentos, ou também para simular uma situação de recebíveis superiores à realidade, quando precisa buscar mais financiamentos junto a credores (impacto na margem de crédito junto aos credores).

- Adiantamentos a Fornecedores (ACC)

São financiamentos que a empresa concede aos seus fornecedores para cumprir cláusulas contratuais, quando são obrigadas a receber cotas de produção/mercadorias (revendedoras, franquias) ou para garantir o recebimento de produtos ou matérias primas por diversas causas (alta demanda e concorrência, carência sazonal ou permanente).

Também pode sinalizar que a empresa auditada não possui mais a confiança dos fornecedores, por inadimplência ou atrasos constantes nos pagamentos, tendo que pagar antecipado para garantir a entrega de matérias primas e produtos.

Muita atenção a esta rubrica e ao aumento de saldos constantemente ao longo do tempo. Situações sazonais são permitidas e até comuns em alguns ramos de atividade. O importante é medir o comprometimento do caixa com fornecedores e o nível de dependência da empresa em relação a estes.

- Estoques (ACC)

Nas indústrias, os estoques são formados por matérias-primas, produtos em elaboração e produtos acabados, e no comércio atacadista e varejista pelas mercadorias adquiridas e ainda não vendidas. Os estoques também são chamados de financiamentos concedidos pela empresa (a ela própria), pois os valores ali parados possuem um custo financeiro embutido até serem comercializados e transformados em dinheiro.

É preciso mensurar o giro dos estoques e comparar com os prazos de compras e de vendas, para concluir sobre o ciclo operacional e financeiro de produção, para entender a política de compras e vendas da empresa.

Os estoques com baixo giro e as vendas parceladas em prazos longos devem ser financiadas com recursos de longo prazo e jamais com recursos de curto prazo, sejam próprios ou de terceiros. Atentar para valores em estoques que representem produtos deteriorados, obsoletos ou defasados, ou seja, invendáveis, e que já deveriam ter sido baixados da rubrica contábil.

- Outros Valores a Receber (pode ser ACC, mas nunca ACF)

Esta conta envolve outros direitos a serem recebidos pela empresa que não possuem rubrica específica, tais como empréstimos e “vales” a sócios, dirigentes, empregados ou terceiros, venda a prazo de bens, imóveis ou utensílios não vinculados aos produtos comercializados pela empresa, acertos de contas entre sócios e a empresa ou entre empresas do grupo, dentre outros.

Muito cuidado com essa rubrica. Pode ser um “saco de gatos”, envolvendo valores suspeitos, de difícil realização. Atenção para valores elevados e saldos que permanecem por mais de um exercício registrados nesta conta, sem serem tratados, e que deveriam ser transferidos para o ANC ou simplesmente baixados. O importante é separar o joio do trigo e saber quando o trigo será dinheiro.

Pois bem, estas são as principais contas que formam o Ativo Circulante das empresas em geral. Claro que determinados setores e ramos de atividade possuem algumas rubricas diferenciadas, com nomenclatura específica. Nestes casos, é necessário estudar o setor e a atividade a ser auditada em um trabalho de pré-auditoria ou análise preliminar, conforme o caso. De qualquer forma, a essência da classificação das contas não muda (financeiras e cíclicas).

Vamos parar por aqui para não estender demais o artigo e poder digerir melhor as informações. No próximo post, trataremos das contas do Ativo Não Circulante e da sua relação – ou não - com a formação do resultado operacional.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

É hora de elevar o pensamento...

Estamos vivendo tempos difíceis em nosso país. Já havia tocado neste assunto em outro artigo, quando defendi que a sociedade brasileira - ou seja, todos nós - precisa ter consciência dos seus deveres individuais e coletivos, e não apenas lutar e gritar por direitos, direitos e mais direitos (ver artigo Em defesa dos Deveres Humanos).

Claro que temos os nossos direitos e também o direito de lutar por eles, mas atualmente o que precisamos mesmo é de um choque de lucidez coletiva para poder suportar toda a tensão moral, social, política e econômica que assola todos os recantos dessa nação, neste crucial momento de inflexão histórica e quase ruptura institucional.

Em poucos momentos da nossa história republicana tivemos tanto ódio, intolerância e acirramento de ânimos como atualmente. Após 1889, depois das revoltas armadas de 1930 e 32, da ditadura Vargas e seu Estado Novo, até 1945, e do período mais conturbado do regime militar, entre 1964 e 1974, esse talvez seja o momento de maior tensão social da nossa história moderna, quase no limiar de uma convulsão social, o primeiro passo para uma guerra civil declarada (já vivemos uma guerra velada em algumas regiões) e pavimentação para um processo de secessão, talvez sem volta.

A necessidade de pacificação é urgente e vital para a própria existência da nação. As pessoas precisam se acalmar e respirar profundamente muitas e muitas vezes. É preciso um grande esforço pessoal e emocional de cada cidadão pela manutenção da sobriedade e do discernimento, e muita paciência com tudo e com todos, pelo Bem Maior.

O pensamento na política e no futuro do país não sai das nossas cabeças, o coração já enfermo dispara constantemente, os nervos sempre “à flor da pele”, vivemos a intolerância e a fúria a cada notícia recebida pelas redes sociais, com verdades e mentiras que alteram o nosso humor e a nossa esperança na velocidade da luz, diversas vezes ao dia. Estamos perdendo o sono, a saúde e, o pior, a razão.

Pensando e refletindo o momento atual, me deparei com um texto simples e reconfortante sobre a necessidade de contemplação e meditação, essenciais para despertar nossas faculdades psíquicas e ativar nossas percepções às elevadas altitudes morais e espirituais, tão importantes em qualquer fase das nossas vidas, e neste momento em particular.

No livro O grande enigma (La grande énigme, em francês), publicado em Paris em 1919, no capítulo XIV, sobre a Natureza e a Elevação, o médiun e escritor espírita Léon Denis aborda a necessidade de se buscar a calma profunda que penetra a alma, através do silêncio e da solidão, mesmo naquelas situações em que nos encontramos em meio às turbulências das selvas urbanas que nos cercam. Eis abaixo a mensagem:

Dos espaços majestosos, baixemos nossos olhares para a Terra. Apesar de suas proporções modestas, ela tem, sabemo­-lo, seus encantos, sua beleza. Cada sítio  tem sua poesia, cada paisagem sua expressão, cada vale seu sentido particular.

A variedade é tão grande nos prados do nosso mundo quanto nos campos estrelados. O verão é o sorriso de Deus! Nada mais suave, mais inebriante do que a apoteose de um belo dia em que tudo é carícia, doçura, luz.

A florinha escondida na relva, o  peixe que se esgueira entre as águas, fazendo espelhar ao sol suas escamas de prata, o pássaro que modula suas notas do alto das ramadas, o murmúrio das fontes, a canção misteriosa dos álamos e dos olmeiros, o perfume selvagem dos musgos, tudo  isso acalenta o pensamento, regozija o coração.

Longe das cidades, encontra­-se a calma profunda que penetra a Alma, separando­-a das lutas e das decepções da vida. Só e então se compreende a verdade destas grandes palavras: “O ruído é dos homens, o silêncio é de Deus!”.

A contemplação e a meditação provocam o despertar das faculdades psíquicas e, por elas, todo um mundo invisível se abre à nossa percepção. Ensaiei, no correr  desta obra, exprimir as sensações experimentadas do alto dos cimos ou à borda dos mares, descrever o encanto dos crepúsculos e das auroras; a serenidade dos campos, sob o real esplendor do Sol, o prodigioso poema das noites estreladas, a sublimidade dos luares, o enigma das águas e dos bosques.

Há momentos de êxtase em que a Alma se transporta fora do seu  invólucro e abraça o Infinito; horas de intuição e entusiasmo em que o influxo divino nos invade qual uma onda irresistível, em que o pensamento supremo vibra e palpita em nosso íntimo, onde brilha, por um instante, a centelha do gênio.

Essas horas inolvidáveis, eu  as vivi algumas vezes e, em cada uma delas, acreditei na visita, na penetração do Espírito. Devo-­lhes a inspiração de minhas mais belas páginas e de meus melhores discursos.

Aquele que se recolhe no silêncio e na solidão, diante dos espetáculos do mar  ou das montanhas, sente nascer, subir, crescer em si mesmo imagens, pensamentos, harmonias que o arrebatam, encantam e consolam das terrestres misérias, e lhe abrem as perspectivas da vida superior.

Compreende então que o pensamento de Deus nos envolve e nos penetra quando, longe das torpezas sociais, sabemos abrir-lhe nossas almas e nossos corações”.

domingo, 2 de setembro de 2018

O Balanço Patrimonial da Pessoa Física – última parte

Finalizando esta primeira série de artigos sobre o Balanço Patrimonial da Pessoa Física – o assunto não se esgota aqui – chegou o momento de comprar aquele tão sonhado carro novo, ou seminovo, depois de muita espera e poupança.

Enfim, após quatro anos investindo e reinvestindo recursos em ATIVOS, podemos nos dar “ao luxo” de contabilizar um PASSIVO no nosso Balanço, afinal somos humanos e de vez em quando temos o direito de usufruir um pouco dos recursos espartanamente poupados.

Em toda a série de artigos, utilizei a figura do carro novo como o exemplo mais clássico e simbólico do PASSIVO dos nossos sonhos. Mas cada um pode perseguir o seu passivo favorito. Pode ser a casa própria, a viagem dos sonhos, um ano sabático em outro país, a reforma da casa e todo aquele “investimento” em que colocamos uma quantia razoável de dinheiro sabendo que não haverá retorno financeiro e geração de renda.

O importante a esta altura é dominar os conceitos sobre ativo, passivo, geração de renda e fluxo de caixa, tomando a decisão de investir em um passivo, quando for o caso, de forma consciente, sabendo exatamente o que se está fazendo. Desta forma, não haverá sofrimento ao se perceber o quanto se deixou de ganhar em outros investimentos que poderiam ter sido feitos, em ativos de verdade. Essa é a paz de espírito da decisão consciente.

Mas e se eu disser que você pode comprar o tal carro novo sem ter de reduzir seus ATIVOS. E se eu demonstrar que é possível “criar” um PASSIVO no seu Balanço Patrimonial sem “destruir” os ATIVOS que você já possui contabilizados. Sim, isto é possível.

Ao contabilizar um aumento no PASSIVO, seu Patrimônio Líquido diminuirá, mas não será algo tão traumático se você não mexer nos seus ATIVOS, pois eles continuarão ali fazendo aquilo que devem fazer: gerar renda e alimentar novos investimentos geradores de renda.

Essa matemática envolve somente dois fatores: o custo de financiamento do passivo a ser adquirido e o custo de oportunidade dos ativos (remuneração dos investimentos, ou remuneração real dos investimentos, para ser mais preciso).

O raciocínio é simples: depois de passar quatro anos juntando dinheiro e investindo em ativos geradores de renda, transformamos um ATIVO de R$ 50 mil em R$ 273,3 mil. Assim, estes R$ 273 mil continuarão aplicados gerando renda suficiente para pagar a prestação do carro novo. Para isso, devemos calcular o rendimento médio dos investimentos e encontrar o preço e os termos adequados para financiar o veículo.

Sabemos que o rendimento médio das nossas aplicações financeiras, atualmente com uma taxa de juros baixa, tem se mantido em aproximadamente 0,6% ao mês, algo equivalente a 1.641,60 de renda mensal.

Neste contexto, precisamos financiar o nosso carro de R$ 60 mil em aproximadamente 60 meses com uma taxa de juros prefixada de 2% ao mês. Essa composição resultará em uma prestação mensal de mais ou menos R$ 1.726,00. Hoje, não será difícil encontrar essa condição no mercado. E num ambiente de crise, seu poder de negociação aumenta.

Este simples exemplo permite que a geração de caixa dos ATIVOS cubra as despesas geradas pelo novo PASSIVO pelos próximos 60 meses e você ainda terá toda a geração de caixa do seu trabalho assalariado preservada para aplicar em novos ATIVOS.

Isso tudo com uma taxa de juros baixa para remunerar os investimentos. Se a taxa de juros subir, seus ATIVOS renderão muito mais nos próximos anos, enquanto a prestação do veículo será prefixada, ou seja, não terá reajustes.Vamos recordar o quadro da formação dos fluxos de caixa da parte 5 da série de artigos:

Formação dos fluxos de caixa positivos durante os últimos quatro anos (em R$):
Período
Geração de receitas (trabalho assalariado + renda das aplicações)
Geração de despesas
Fluxo de Caixa Positivo

FATURAMENTO DA PESSOA FÍSICA
DESPESAS OPERACIONAIS
LUCRO OPERACIONAL
Ano 0
84.000,00 + 5.000,00 = 89.000,00
46.000,00
43.000,00
Ano 1
84.000,00 + 8.000,00 = 92.000,00
46.000,00
46.000,00
Ano 2
84.000,00 + 9.600,00 = 93.600,00
46.000,00
47.600,00
Ano 3
84.000,00 + 13.080,00 = 97.080,00
46.000,00
51.080,00
Ano 4
84.000,00 + 19.100,00 = 103.100,00
46.000,00
57.100,00
Totais
420.000,00 + 54.780,00 = 474.780,00
230.000,00
244.780,00

Veja que, mesmo tendo criado uma nova despesa para comprar o carro, a geração de caixa continuará positiva ano a ano, pois a renda do trabalho assalariado continua sendo superior às despesas operacionais (manutenção e sobrevivência).

Você continuará gerando sobras de caixa para criar novos ATIVOS, mesmo com um aumento das despesas e com um custo de financiamento do veículo bem superior ao retorno dos investimentos (2% ao mês contra 0,6% ao mês). Isso é possível porque os ATIVOS geradores de renda acumulados superam em muito os PASSIVOS existentes, permitindo que o superávit de caixa seja mantido.

Desta forma, você poderá rodar de carro novo sem se descapitalizar, e ainda continuará a gerar renda com o seu trabalho. E se os juros subirem, a despesa mensal do financiamento não terá reajuste, mas seus investimentos irão produzir renda ainda maior.

E o Balanço Patrimonial, como ficará?

Balanço Patrimonial – ao final de cinco anos, após a compra do carro novo com financiamento bancário de R$ 60 mil e venda do carro antigo por R$ 10 mil (valor de mercado, veículo totalmente depreciado)

ATIVO
PASSIVO
1. Emprego (gera renda líquida média de R$ 7.000,00/mês = R$ 84.000,00/ano)
Veículo próprio avaliado em R$ 60.000,00 (gera despesa de R$ 7.000,00/ano com IPVA, seguro, manutenção e combustível)
2. Aplicação financeira de R$ 73.200,00 (R$ 68,2 mil do ano anterior mais R$ 5 mil da renda anual do ano anterior). Gera renda extra de R$ 500,00/mês = R$ 6.000,00/ano com juros sobre juros
Despesa de aluguel, condomínio, energia elétrica e telefone de R$ 1.500,00/mês = R$ 18.000,00/ano
3. Aplicação financeira de R$ 55.600,00 (R$ 51,8 mil do ano anterior mais R$ 3,8 mil da renda anual do ano anterior). Gera renda extra de R$ 400,00/mês = R$ 5.000,00/ano com juros sobre juros
Outras despesas (vestuário, alimentação, viagens, plano saúde, outras) = R$ 2.000,00/mês = R$ 24.000,00/ano
4. Segunda aplicação financeira de R$ 55.600,00 (R$ 51,8 mil do ano anterior mais R$ 3,8 mil da renda anual do ano anterior). Gera renda extra de R$ 400,00/mês = R$ 5.000,00/ano com juros sobre juros
Empréstimo bancário de R$ 60.000,00 em 60 meses para compra do veículo (gera despesa de R$ 1.726,00/mês = R$ 21.000,00/ano de amortização de capital e juros, com taxa pré-fixada de 2% a.m.)
5. Terceira aplicação financeira de R$ 53.680,00 (50,48 mil do ano anterior mais 3,2 mil da renda anual do ano anterior). Gera renda extra de R$ 300,00/mês = R$ 3.800,00/ano com juros sobre juros

6. Quarta aplicação financeira de R$ 57.980,00 (54,38 mil do ano anterior mais 3,6 mil da renda anual do ano anterior). Gera renda extra de R$ 350,00/mês = R$ 4.500,00/ano com juros sobre juros

7. Nova aplicação financeira de R$ 57.100,00 (fluxo de caixa positivo gerado no anto anterior). Gera renda extra de 330,00/mês = R$ 4.000,00/ano com juros sobre juros

8. Nova aplicação de R$ 10.000,00 da venda do carro velho, gerando renda extra de R$ 600,00/ano

Total Ativo = 363.160,00
Total Passivo = 60.000,00
Patrimônio Líquido Positivo = 303.160,00

Total geração receitas ano = 112.900,00
Total geração despesas ano = 70.000,00
Fluxo de caixa positivo = 42.900,00/ano
Fluxo de caixa negativo = ZERO


A geração de despesas anuais aumentou para R$ 70 mil, enquanto a geração de receitas subiu para R$ 112,9 mil, reduzindo o fluxo de caixa positivo de R$ 57,1 mil para R$ 42,9 mil.

A acumulação de renda se mostrou mais lenta nos primeiros 12 meses após a compra do carro, pela apropriação da nova despesa no PASSIVO. Entretanto, esse novo custo é totalmente absorvido (pago) pela geração de renda acumulada no ATIVO, mantendo a geração positiva de caixa, embora em menor montante.

De qualquer forma, mesmo em menor quantidade, o fluxo de caixa positivo continuará sendo reinvestido em ativos geradores de caixa, aumentando o ATIVO ao longo do tempo, enquanto o novo PASSIVO se reduzirá ao longo deste mesmo tempo, com as amortizações do financiamento. A partir dos 50 meses, no período final do financiamento, nem sentiremos mais os efeitos dessa despesa no Balanço Patrimonial.

Assim fica bem mais fácil comprar um belo carro, não é mesmo. E o sacrifício foi esperar quatro anos, com paciência e disciplina, sem se deixar influenciar pela mídia e cultura de consumo, que nos estimulam a gastar demais e a pensar de menos.

Continuaremos a tratar desse tema e de outros assuntos correlatos nos próximos artigos.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

A formação da riqueza e a falsa noção de desigualdade econômica

Existe uma grande confusão quando se fala em distribuição de riqueza, concentração de riqueza, desigualdade social, justiça ou injustiça social e desigualdade econômica.

Existem também inúmeras situações que podem ser consideradas exemplos de injustiças - ou injustiças sociais - como preferem alguns. Entretanto, colocar todos estes conceitos e exemplos num mesmo saco, na melhor das hipóteses, é deixar de contribuir para uma compreensão mais profunda sobre tão importante problema social.

Digo isso porque há pessoas e grupos de interesses que conhecem muito bem estas diferenças, mas preferem justamente “encher” o referido saco (literalmente) com todas estas ideias bem misturadas, propositalmente, para confundir ainda mais as pessoas e tirar proveito disto, apostando na superficialidade com que o povo, de um modo geral, trata o assunto.

Como a abordagem da justiça social é muito ampla, gostaria de chamar a atenção para algumas questões econômicas que muitas vezes são rotuladas dentro desse conceito, e que acabam por carregar uma má fama na carona de outras grandes injustiças que acontecem no mundo e em nosso país.

Especificamente sobre a questão da desigualdade econômica, um grande perigo que se corre ao nivelar tudo como injustiça social, é perder o foco e a oportunidade de entender realmente as causas que estão por trás das disparidades de produtividade e de renda que existem em todas as sociedades. E quando o diagnóstico está errado, a tendência é o remédio piorar as coisas.

Em artigo publicado recentemente no site do Instituto Mises Brasil, o economista Walter Williams, professor honorário de economia na George Mason University, faz uma excelente distinção sobre estes conceitos, abordando o assunto de forma clara, lembrando sempre que desigualdade não é a mesma coisa que pobreza:

“Segundo as estatísticas compiladas pelo economista britânico Angus Maddison, passamos de uma renda per capita mundial de 1.130 dólares por ano em 1820 para uma de 15.600 em 2015. E isso ao mesmo tempo em que a população global aumentou de 1 bilhão de pessoas para 7 bilhões. (Veja o estudo. Confira também este vídeo).”

“Saber que a renda anual de uma pessoa é de $5.000.000 e que a renda de outra pessoa é de $12.000 é algo que não nos diz absolutamente nada sobre justiça econômica e social. Para determinar se realmente houve injustiça econômica e social é necessário fazer perguntas sobre o processo de enriquecimento”.

“A maioria das pessoas que faz pontificações altivas sobre desigualdade econômica — inclusive economistas, para vergonha geral — simplesmente não reconhece, ou não deixa explícito, que a renda de uma pessoa é resultado de algo que ela fez. Sendo assim, apenas observar um determinado resultado não pode ser utilizado para determinar se houve justiça, isonomia e sensatez”. 

Não é a riqueza que dá valor à renda, mas sim a renda que dá valor à riqueza. O valor de um terreno não depende do terreno em si mesmo, mas sim do valor de todos os serviços que ele permite”.

Ter uma ideia mais clara e aprofundada sobre este tão instigante tema é muito importante para que possamos pensar em soluções corretas e aplicáveis. Para ler o artigo completo acesse https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2921

Quanto custa?

O velho ditado diz: tudo na vida tem seu preço. Costumo acrescentar: tudo na vida, que está à venda, tem seu preço. Aquilo que está à ve...