quarta-feira, 25 de abril de 2018

O Balanço Patrimonial da Pessoa Física – parte 4

Continuando com a estruturação do nosso Balanço Patrimonial Pessoa Física (BP-PF), vamos retornar ao artigo anterior no ponto em que discutíamos a decisão de comprar o veículo novo (compra à vista ou compra financiada).

Naquele momento foi possível observar claramente que ambas as decisões de compra (à vista e com financiamento bancário) foram determinantes para a redução da geração de caixa ocorrida no BP-PF. Podemos concluir que, financeiramente, a compra do carro foi uma péssima decisão.

O fluxo de caixa positivo se reduziu de R$ 43 mil para R$ 35 mil e depois para R$ 20 mil, na medida em que as opções de compra do veículo eram analisadas. Da mesma forma, o Patrimônio Líquido que era POSITIVO em R$ 40 mil se transformou em Patrimônio NEGATIVO de R$ 60 mil, numa variação NEGATIVA de R$ 100 mil.

Estes foram os impactos mais visíveis e marcantes de apenas uma decisão errada, referente à compra de um veículo novo. Imagine a quantidade de equívocos que podem ocorrer quando não se possui uma visão mais abrangente dos aspectos financeiros que influenciam as decisões de investimento. Esse é um dilema constante vivenciado no ambiente empresarial e que, como se percebe agora, afeta diretamente as pessoas físicas também.

Por isso é tão importante conhecer os princípios de Análise Econômica e Financeira de Empresas e direcioná-los às nossas vidas. O entendimento desses conceitos pode e deve contribuir para a construção de ATIVOS GERADORES DE RENDA durante aqueles anos em que somos mais produtivos e cheios de energia, para que possamos preparar uma velhice tranquila e confortável. 

Vamos rever a situação inicial descrita no artigo anterior:

“Imagine que você é relativamente jovem, vive apenas para si e possua um bom emprego para os padrões brasileiros”. Seu Balanço Patrimonial poderia ser assim:

ATIVO
PASSIVO
Emprego (gera renda líquida média de R$ 7.000,00/mês = R$ 84.000,00/ano)
Veículo próprio avaliado em R$ 10.000,00 (gera despesa de R$ 4.000,00/ano com IPVA, seguro, manutenção e combustível)
Aplicação financeira de R$ 50.000,00 (gera renda extra de R$ 400,00/mês = R$ 5.000,00/ano com juros sobre juros)
Despesa de aluguel, condomínio, energia elétrica e telefone de R$ 1.500,00/mês = R$ 18.000,00/ano
Outros ativos e receitas = 0,00
Outras despesas (vestuário, alimentação, viagens, plano saúde, outras) = R$ 2.000,00/mês = R$ 24.000,00/ano
Total Ativo = 50.000,00
Total Passivo = 10.000,00
Patrimônio Líquido Positivo = 40.000,00

Total geração receitas ano = 89.000,00
Total geração despesas ano = 46.000,00
Fluxo de caixa positivo = 43.000,00/ano
Fluxo de caixa negativo = ZERO

Você possui um emprego estável que produz R$ 7 mil de caixa positivo mensalmente e contribui para que seu Patrimônio Líquido anual seja positivo em R$ 40 mil (ativos – passivos). Esta situação se reflete em um fluxo de caixa positivo de R$ 43 mil por ano.

Esses R$ 43 mil anuais podem e devem ser reinvestidos no ativo, renovando seus investimentos e aumentando sua geração positiva de caixa ano após ano, possibilitando que a geração de caixa dos seus investimentos supere, no longo prazo, a geração de caixa do seu trabalho assalariado. É reinvestir o lucro no giro dos negócios (ativo circulante), como as empresas fazem, ou deveriam fazer.”

Antes de continuar, uma observação: quando se trabalha com projeções de longo prazo, os efeitos da perda de poder de compra da moeda (inflação) e do custo de oportunidade do capital (risco/retorno) devem ser calculados sempre. Entretanto, para efeitos didáticos, desprezaremos estas variáveis no exemplo para não complicar muito a estruturação do nosso BP. Trabalharemos com valores nominais para os próximos períodos supondo que, da mesma forma que a inflação corrige as despesas do Passivo, as reposições salariais atualizam a principal receita do Ativo.

Desta forma, consideraremos no BP apenas novas receitas e despesas criadas ao longo do tempo, lembrando que a principal receita incremental gerada no Ativo provém das remunerações obtidas sobre as sobras do trabalho assalariado. Mesmo assim, é sempre importante lembrar que, no longo prazo, a tendência é a inflação “ganhar” da correção dos salários.

Agora vamos analisar os efeitos da decisão correta que deveria ter sido tomada à época, ou seja, não comprar o carro novo. Você ponderou que, sem maiores compromissos de longo prazo, poderia adiar a troca do carro e continuar investindo seus recursos excedentes na CRIAÇÃO DE ATIVOS. Vamos ver como ficaria o BP no ano seguinte:

Balanço Patrimonial – um ano depois

ATIVO
PASSIVO
Emprego (gera renda líquida média de R$ 7.000,00/mês = R$ 84.000,00/ano)
Veículo próprio avaliado em R$ 10.000,00 (gera despesa de R$ 4.000,00/ano com IPVA, seguro, manutenção e combustível)
Aplicação financeira de R$ 55.000,00 (R$ 50 mil do ano anterior mais R$ 5 mil da renda anual do ano anterior). Gera renda extra de R$ 400,00/mês = R$ 5.000,00/ano com juros sobre juros
Despesa de aluguel, condomínio, energia elétrica e telefone de R$ 1.500,00/mês = R$ 18.000,00/ano
Nova aplicação financeira de R$ 43.000,00 (fluxo de caixa positivo gerado no ano anterior). Gera renda extra de R$ 250,00/mês = R$ 3.000,00/ano com juros sobre juros
Outras despesas (vestuário, alimentação, viagens, plano saúde, outras) = R$ 2.000,00/mês = R$ 24.000,00/ano
Total Ativo = 98.000,00
Total Passivo = 10.000,00
Patrimônio Líquido Positivo = 88.000,00

Total geração receitas ano = 92.000,00
Total geração despesas ano = 46.000,00
Fluxo de caixa positivo = 46.000,00/ano
Fluxo de caixa negativo = ZERO

Note que os Ativos quase dobraram de um ano para o outro, fortalecendo o Patrimônio Líquido Positivo, que passou de R$ 40 mil para R$ 88 mil (incremento de 120%), fazendo o fluxo de caixa aumentar de R$ 43 mil para R$ 46 mil.

Observe que um aumento de quase 100% nos Ativos gerou um acréscimo de “apenas” R$ 3 mil na geração de caixa de um ano para o outro. Parece pouco, não é verdade? Parece, mas não é.

Deve-se levar em conta que a geração de caixa do exercício anterior, que era renda, foi incorporada ao Ativo neste exercício, tornando-se FATOR GERADOR DE RENDA (os R$ 5 mil de rendimento da aplicação de R$ 50 mil do ano anterior se transformou em aplicação de R$ 55 mil neste último exercício).

Nos últimos dois anos, a geração de caixa das aplicações financeiras foi de R$ 13 mil (R$ 5.000,00 + R$ 5.000,00 + R$ 3.000,00). A cada ano que passa, a renda gerada se transforma em fator gerador de renda, pelo reinvestimento do ganho no giro do negócio, como se diz no jargão empresarial.

Isso tudo porque simulamos investimentos no mercado financeiro, em aplicação de baixo risco. Nos últimos meses, os juros básicos da economia caíram muito em relação à sua série histórica, fazendo com que o retorno dos investimentos seja mais lento. Caso os juros voltem para uma média histórica de 1% ao mês ou um pouco mais, o retorno será maior, em menor prazo. Você também poderá encontrar outros tipos de investimento com retornos mais atraentes, em outras áreas.

Na análise de rentabilidade, também é importante relembrar as observações finais do artigo anterior: os custos das despesas geradas no Passivo geralmente são maiores que os ganhos das receitas geradas no Ativo, uma vez que, no mercado bancário, para pessoas físicas, as taxas de custeio dos empréstimos quase sempre superam as taxas de remuneração do capital.

Portanto, para não perder geração de caixa, é importante SEMPRE MANTER ATIVOS EM PROPORÇÃO SUPERIOR AOS PASSIVOS, ou simplesmente reduzir Passivos, quando não for possível gerar novos Ativos.

No próximo post seguiremos com o mesmo raciocínio, projetando essa estratégia para os anos seguintes (próximos três anos), para podermos analisar o BP após quatro anos da decisão de não comprar o veículo novo.

Aguarde!

quarta-feira, 28 de março de 2018

Estrada & Panela – La vera perla delle Dolomiti

Federico Martini, meu bisavô, nasceu em uma pequena cidade italiana chamada Cesiomaggiore, localizada na província de Belluno, na região setentrional do Vêneto, norte da Itália, quase na fronteira com a Áustria.

É uma região montanhosa, uma derivação dos alpes suíços e austríacos, mais conhecida por Le Dolomiti ou le montagne rosa. As Dolomitas - ou montanhas rosa – são consideradas patrimônio da humanidade pela UNESCO e compõem uma cadeia de montanhas que se estende da fronteira com a  Áustria até o sul da província de Belluno, onde os maciços terminam e cedem espaço a uma vasta planície, que começa em Vittorio Vêneto e vai até Veneza, no Mar Adriático.

As principais cidades da região são Belluno e Cortina D’Ampezzo - sede das olimpíadas de inverno de 1956. Nesta região existem dois grandes parques nacionais que valem cada minuto do seu tempo: o Parco Nazionale Delle Dolomiti Bellunesi e o Parco Naturale di Fanes-Sennes-Braies, com suas montanhas de granito, florestas imensas e lagos cristalinos, de rara beleza.

Também vale a pena conhecer outras pequenas cidades vizinhas, como San Vito di Cadore e Auronzo di Cadore, lindas e aconchegantes, além da estrada que liga Cortina D’Ampezzo a Bolzano, considerado um dos caminhos mais lindos dos alpes para se percorrer de carro, moto, bicicleta, a pé,  ou seja, de qualquer jeito, a depender do tempo.

Antes da nevasca

Depois da nevasca

Na região há várias paisagens consideradas como “pérolas das dolomitas”, mas para não fugir do objetivo da nossa seção, descobrimos encravada nas montanhas a verdadeira pérola dos alpes italianos: o casunziei all’ampezzana ou casunziei ampezzani, uma delícia culinária escondida entre vilarejos e estações de esqui.

Trata-se de uma espécie de tortei feito com massa caseira, recheado com uma pasta de beterraba e ricota defumada, salpicado com pimenta em pó. O prato é muito simples e o sabor é indescritível. O segredo está na combinação dos ingredientes, e, claro, nas mãos divinas que o preparam. Confira a receita aqui: http://www.piattoforte.it/r/ricetta/casunziei-ampezzani-181.html.

Para acompanhar, lógico, um buon vino della regione! Recomendo o Masi Bonacosta Rosso, da Valpolicella, uma linha pouco divulgada no Brasil, que produz um vinho bem encorpado, com bouquet marcante e preço bem acessível, em euros.

O restaurante escolhido para o “crime” chama-se, coincidentemente, Ristorante Pizzeria La Perla, localizado na Piazza San Francesco, 3 – Cortina D’Ampezzo, bem no centrinho, com pastas e pizzas feitas na hora, em forno a lenha.



Enquanto saboreava aquela maravilha, um pensamento me ocorreu: o nono Federico nasceu num lugar abençoado, mesmo para aquela época em que tudo era mais difícil. Pena que não pôde ficar por lá.

Para maiores informações acesse https://www.ideegreen.it/parco-nazionale-delle-dolomiti-bellunesi-76992.html, http://www.dolomitipark.it/ e http://www.cortinadolomiti.eu/IT/ristorante-pizzeria-la-perla/

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A chance de ouro que o governo Trump está dando ao Brasil – a limonada

Retornamos à pergunta: onde está a grande oportunidade?

A grande oportunidade, como sempre, é fazer o dever de casa. A diferença, neste momento, é que o Brasil não tem mais saída, não tem como protelar aquilo que já deveria ter feito. Hoje, mais do que nunca, precisamos de mudanças estruturais e não apenas de “puxadinhos”, usados com fim eleitoral para enganar os incautos e empurrar os problemas para o futuro. Isso já foi feito inúmeras vezes e agora o futuro bate à porta.

Mais importante que as famosas reformas da previdência e trabalhista, a reforma tributária será imperativa e sua força virá de fora, justamente pela pressão que a reforma americana imporá à economia brasileira.

Seremos forçados a reduzir impostos, em sintonia com uma tendência mundial, para sobrevivermos em um mundo com produtos cada vez mais baratos. Ou isso ou a miséria.

Em um primeiro momento, a redução de impostos diminuirá a arrecadação tributária e significará menos recursos no orçamento da União. Os mais afoitos gritarão que teremos menos investimentos governamentais, com agravamento da crise e ameaça às conquistas sociais. É uma meia verdade. Claro que no início não será fácil. Será uma limonada sem açúcar, e a pressão para não fazê-la será imensa.

Mas vamos analisar um pouco melhor suas consequências. Uma reforma tributária semelhante à americana reduzirá a arrecadação tributária, certamente, mas isso não significa necessariamente redução no orçamento federal, uma vez que os custos das empresas brasileiras serão aliviados e poderemos ter uma manutenção - ou até redução - nos preços dos produtos, tal qual nos Estados Unidos.

Uma deflação de preços, ou mesmo uma simples manutenção destes (parando de subir), dará ao Brasil a tão sonhada oportunidade de reduzir as taxas de juros da economia para os níveis dos países desenvolvidos, ao redor de 1,5% ou 2% ao ano. Não haverá necessidade de utilizar os juros altos como âncora para segurar pressões inflacionárias, pois elas deixarão de existir.

Com preços deflacionados e juros civilizados, o custo de financiamento da dívida interna se reduzirá sensivelmente, ou seja, se por um lado a arrecadação de impostos cairá, por outro o governo desembolsará menos para rolar a dívida interna. Entra menos de um lado e sai menos do outro, impactando pouco o orçamento geral da União.

A arrecadação de impostos em 2017 alcançou a marca de 2 trilhões de reais. A dívida interna, que corresponde a 97% da dívida pública federal, chegou a 3,43 trilhões de reais, para um PIB que deve fechar 2017 em torno de 6 trilhões de reais (https://g1.globo.com/economia/noticia/divida-publica-sobe-143-em-2017-para-r-355-trilhoes-e-bate-recorde.ghtml e https://g1.globo.com/economia/educacao-financeira/noticia/brasileiros-ja-pagaram-r-2-trilhoes-em-impostos-em-2017.ghtml).

A título de exemplo, uma redução geral de impostos de 12%, próxima à americana, representaria, a grosso modo, uma redução de R$ 240 bilhões na arrecacação tributária. Entretanto, uma redução de 5,5% nas taxas de juros do país (de 7% para 1,5%) geraria uma economia de aproximadamente R$ 190 bilhões para os cofres públicos, ou seja, para os pagadores de impostos. Observe que a tendência é uma redução ainda maior nos impostos, pois não estamos considerando o "efeito cascata" destes na cadeia produtiva.

Essa diferença de R$ 50 bilhões seria rapidamente compensada pelo aquecimento da economia e redução do desemprego, consequência natural do aumento da renda real e da redução dos preços, contribuindo, inclusive, para um aumento na arrecadação de impostos. Em determinadas circunstâncias, menos pode significar mais (Curva de Laffer). Viu como o bicho não é tão feio assim.

Mas porque será difícil promover essas mudanças? Quem jogará contra? Por que os meios de comunicação de massa não tratam disso? Quem perde e quem ganha?

Quem ganha é a sociedade, o povo, que verá seu dinheiro render mais ao fazer as compras no mercado, ao pagar as contas do dia-a-dia e ao quitar suas dívidas. Com menos impostos e juros embutidos nos produtos e serviços, o suado dinheiro do trabalhador irá render muito mais.

Outra consequência benéfica da redução dos juros será estimular os poupadores a procurarem melhores retornos para seus investimentos, trocando o mercado financeiro por investimentos produtivos, ajudando a fomentar a produção e a aumentar a riqueza.

E quem perde? Bem, aí começam os problemas. Quem perde são os financiadores da dívida mobiliária federal e os grandes rentistas, que verão os juros internos se reduzirem e seus rendimentos idem. São poderosos banqueiros e gestores de fundos de investimento transnacionais, que não permanecerão inertes e farão de tudo para que as reformas não aconteçam.

Toda vez que o governo emite títulos públicos para rolar uma dívida que representa quase 70% do PIB, os compradores desses papéis fazem a festa com os juros altíssimos que recebem, praticamente sem riscos. São os principais bancos nacionais e estrangeiros, os grandes fundos de pensão, os milionários fundos de investimentos e outros grandes investidores institucionais, de dentro e fora do país.

Os bancos aliás, são um capítulo à parte nessa história. São as empresas que mais lucram no Brasil desde a década de 80 e isso é uma grande anomalia empresarial, uma vez que não produzem riqueza para o país. Lucram mais que todos os outros setores que atuam diretamente para gerar a riqueza que sustenta a nação.

Esses serão os grandes perdedores caso uma profunda reforma tributária seja implementada no país.

Mas aí você sentencia: então não vai acontecer, uma vez que os grandes banqueiros mandam no país e vivem dos juros altos e os políticos não votarão leis que reduzam a arrecadação, pois são “afinados” com o sistema financeiro e participam da “gestão” de tudo o que é arrecadado, para obterem vantagens legais e ilegais sobre esses recursos (benefícios de toda espécie, cargos de confiança, propinas, compra de votos, campanhas políticas caríssimas, fundo eleitoral com valores abusivos, e muito mais).

Pois é, talvez você tenha razão. Mas penso que desta vez será diferente, pois as mudanças serão impostas ao país por forças externas.

A estrutural reforma trabalhista americana forçará também a Europa a rever suas relações de troca, uma vez que, em relação à zona do euro, além de preços mais competitivos em futuro próximo, os Estados Unidos possuem historicamente um câmbio mais favorável, o que tornará seus produtos ainda mais atraentes aos europeus. É o que acontece hoje com os produtos chineses, cuja moeda é desvalorizada em relação ao dolar e ao euro.

O governo americano está acordando e os principais países europeus, com seus altos impostos e custos trabalhistas, serão impelidos a adotar políticas econômicas semelhantes à chinesa e americana.

Com a força da China, Estados Unidos e Europa a assombrar nossa combalida economia, o Brasil não terá outra alternativa a não ser promover mudanças estruturais, sendo a maior delas a reforma tributária, com redução sensível de impostos sobre produção e renda.

E nem pense em políticas protecionistas, como adoção de tarifas de importação abusivas e outras medidas para “fechar” o país para o exterior. Isso faria o Brasil reviver os anos 80, a “década perdida”, com perdas ainda maiores em produtividade e competitividade. Sem falar que, no mundo atual, com a globalização e informações em tempo real, a “ficha” cairia rápido e a sociedade perceberia logo que seria ela a pagar o pato pela incompetência e interesses alheios aos seus.

Vamos aguardar os próximos capítulos, 2018 e 2019 serão determinantes. Ou assim será, ou não existiremos mais como nação, ou projeto dela. O futuro chegou!

A chance de ouro que o governo Trump está dando ao Brasil – o limão

Neste último dezembro o presidente Donald Trump conseguiu uma vitória expressiva no congresso americano, com a aprovação de uma ampla reforma tributária, a mais importante dos últimos 30 anos, promovendo sensível redução de impostos para empresas e pessoas físicas. No caso das pessoas jurídicas, a redução média será de 35% para 21% (http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/12/1944855-congresso-dos-estados-unidos-aprova-reforma-tributaria-de-trump.shtml e http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/trump-promulga-a-reforma-fiscal-mais-ambiciosa-em-30-anos).

A nossa grande mídia noticiou o fato, mas não deu a devida atenção ao assunto, que merece uma análise profunda pela sua amplitude e importância. A médio prazo, deverá impactar fortemente o comércio mundial e a economia brasileira em particular, uma vez que somos parceiros históricos dos americanos e “vizinhos” destes.

O professor Martin Feldstein, especialista em economia da Universidade de Harvard , em entrevista ao Jornal de Negócios de Portugal, afirma que “as taxas de imposto sobre as empresas têm vindo a cair por todo o mundo nas últimas décadas. A taxa nos EUA era anteriormente de 50% e as taxas em outros países da OCDE eram substancialmente mais elevadas do que a média actual de 25%. É possível que essa redução da taxa nos EUA leve a que outros países desenvolvidos reduzam as suas taxas de imposto para as empresas para melhorar a sua atractividade internacional para o capital móvel”.

Feldstein acrescenta que “Em suma, a legislação do Congresso, que nos próximos meses deverá mudar as regras fiscais para as empresas dos EUA, vai também ter um efeito importante nos fluxos internacionais de capital. Pode também ter efeitos significativos nas regras fiscais por todo o mundo” (http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/economistas/detalhe/as-consequencias-internacionais-da-reforma-fiscal-dos-estados-unidos).

Com estas medidas, o governo Trump está empenhado em estimular a criação de novos empregos nos Estados Unidos, melhorar a competitividade das empresas americanas e promover a repatriação da manufatura e dos lucros. Não é uma mudança conjuntural, e sim estrutural, a maior dos últimos 30 anos.

Uma reforma tributária dessa magnitude, ao reduzir fortemente os impostos, reduz também o custo operacional das empresas, que podem optar por (i) repassar essa vantagem para o preço final dos produtos mantendo a mesma margem de lucro - reduzindo preços, melhorando a competitividade e mantendo empregos, ou (ii) reduzir preços e também margem de lucro, naqueles produtos em que possuam preços competitivos - reduzindo ainda mais os preços desses produtos, para ganhar mercados, aumentar produção e contratar mais empregados.

As consequências dessas mudanças colocarão os Estados Unidos em condição de competir com a China em preços e qualidade, essa já historicamente superior aos produtos chineses. Ou seja, logo veremos o retorno dos produtos “made in USA” aos mercados, em condições e preços muito semelhantes aos produtos asiáticos.

E o Brasil, como é que fica nessa história? Não é preciso muita imaginação para perceber o tamanho da “encrenca” que nos aguarda. A nossa situação é muito preocupante. E é neste ponto que os nossos meios de comunicação estão falhando em alertar o país para a importância do assunto.

As consequências poderão ser dolorosas para a nossa economia, que já sofre pela incompetência e descaso dos nossos governantes e pela concorrência dos produtos asiáticos, com seus preços competitivos e qualidade melhorando a cada dia.

Qual ameaça nos espera?

A indústria brasileira reduziu sua participação no PIB de 21% em 1985 para 11% em 2015.


É importante lembrar que os 21% de participação de 33 anos atrás já não era um número muito bom naquela época, em comparação aos países desenvolvidos. Imagine os 11% de hoje.

Atualmente é mais barato comprar produtos dos Estados Unidos pela internet (da China nem se fala) do que ir ao shopping da esquina, mesmo considerando as taxas e o frete. Com a vantagem de não precisar sair de casa, não enfrentar trânsito, não pagar estacionamento, e não correr o risco de ser assaltado pelo caminho. Imagine quando os produtos dos “gringos” baixarem mais ainda.

A concorrência com os produtos chineses e americanos, ao mesmo tempo, com preços mais baixos e qualidade em geral superior, será quase insuportável para o Brasil. Já vivemos hoje os efeitos de uma desindustrialização enorme, que se espalha pela economia, uma vez que o setor terciário sofre diretamente os seus impactos, com o comércio e os serviços definhando, traduzidos em fechamento de empresas e placas de aluga-se e vende-se por todos os lados.

Para quem não lembra, o setor terciário da economia (comércio e serviços) depende muito dos setores primários e secundários (agronegócios e indústria). Nações com grandes dimensões territoriais geralmente dependem muito do setor primário e secundário para “puxar” o setor terciário. Apenas países pequenos e com vantagem comparativa muito específica em determinada área conseguem viver apenas de comércio e serviços (turismo, por exemplo).

As mudanças que estão ocorrendo nos Estados Unidos pegarão a economia brasileira no “contrapé”, já combalida e precária estruturalmente. Poderá ser o fim da indústria nacional, trazendo junto um aumento brutal do desemprego.

Somente se salvará a agroindústria, pelas nossas vantagens comparativas, ainda superiores, porém sem robustez suficiente para mudar o cenário. Saímos do terceiro mundo para o mundo em desenvolvimento, e corremos o risco de voltar para o terceiro mundo, com miséria, subdesenvolvimento e caos social.

Mas afinal, onde está a grande oportunidade? Falaremos nela no próximo post.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

O tempo, o vento, e as mudanças...

Na extraordinária epopeia “O Tempo e o Vento”, de Erico Veríssimo, a velha Bibiana já se embriagava longamente em suas reminiscências, ouvindo o barulho do vento e esperando, enquanto repetia para si mesma, entre as paredes do sobrado: “como o tempo custa a passar quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo”.

No silêncio dos pampas, das pradarias e das nossas consciências, o sopro do vento se espalha e percorre todos os recantos dos que sabem olhar e sentir, como uma sinfonia a costear as vivências e as memórias das nossas almas.

O tempo e o vento são os carpinteiros a talhar as reflexões e as decisões que constroem as grandes mudanças nas nossas vidas. Nos impelem a prosseguir altivos e confiantes, ainda que, nos primeiros momentos, sejamos mais fé que certezas. Certeza mesmo, apenas da fé.

A mudança, nos passos e compassos da vida, é inexorável. Acontecerá mais cedo ou mais tarde, sempre regida pelo tempo, maneado pelo vento. É imperioso torná-la nossa companheira, e nunca adversária. Aprendamos com ela. Vivamos conscientes da sua presença. Sempre que a Providência achar necessário, ela baterá à nossa porta.

O Espírito Emmanuel, pelas mãos laboriosas de Chico Xavier, diversas vezes nos trouxe o assunto em suas mensagens, alertando para a importância de compreendermos as grandes mudanças e os motivos pelos quais ocorrem. Abaixo, uma dessas mensagens enviadas pelo digníssimo guia espiritual, extraída do livro “Mãos Unidas”.

Um feliz 2018 a todos. Que as grandes mudanças que estão ocorrendo em nossas vidas e em nosso país sejam para o bem de todos.

ANTE A VIDA

Não há lugar em que nos vejamos sem algum benefício a prestar ou alguma coisa a fazer. Seja qual for a circunstância da estrada, aí encontramos a ocasião precisa para realizar o melhor.

Por isso mesmo, o tempo é o prodigioso indicador, descerrando-nos situações inesperadas ao dom de compreender e de auxiliar. Ainda mesmo nas trilhas mais obscuras da prova ou da aflição, somos defrontados por ensejos valiosos de renovação e progresso.

Se te vês, diante de rotinas deterioradas, conquanto a rotina seja abençoada escola de formação espiritual, é necessário reflitas nas possibilidades novas que se te descortinam à existência.

Se obstáculos te surgem, amontoados na senda, reconsidera as próprias atitudes e observa que haverá chegado o instante para mais alto aproveitamento de teus recursos, nos domínios da expressão de ti mesmo, ante a seara do mundo.

Imagina o que seria a experiência na Terra sem a lei da mudança.

Se a semente não fosse atirada à solidão, no seio da gleba, e se as árvores não renunciassem à posse dos próprios frutos, impossível seria acalentar a vida planetária.

Se a infância não marchasse para a juventude e se a juventude não se dirigisse para a madureza, a evolução humana resultaria impraticável.

Quando te reconheças à bica do desespero ou do desânimo, ergue-te sobre os motivos de tristeza ou desalento e contempla os quadros da natureza em torno.

Novos minutos se despencam do coração das horas em teu benefício, dezenas e centenas de criaturas aparecem por todos os flancos a te endereçarem sorrisos de esperança, tarefas múltiplas te pedem devotamento e os dias sempre renovados te apontam o Céu, de horizonte a horizonte, como sendo imensa porta libertadora, através da qual, a cada manhã, a Sabedoria do Senhor te convida sem palavras a recomeçar e progredir, trabalhar e viver.

Emmanuel

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O Balanço Patrimonial da Pessoa Física – parte 3

Prosseguindo com o nosso desafio de estruturar um Balanço Patrimonial de uma pessoa física (BP-PF), retorno ao ponto do artigo anterior quando alertei sobre o péssimo negócio que se faz ao comprar um carro novo através de financiamento.

Vamos explorar melhor essa questão tentando entender como seria a contabilização dessa transação no nosso Balanço Patrimonial e quais os seus impactos no fluxo de caixa da nossa “empresa”.

Já sabemos que a compra de um veículo de passeio representa a alocação de recursos em um bem que não gera renda, mas somente despesas. Portanto, esse bem deve ser registrado como um passivo no BP-PF. Essa decisão, do ponto de vista financeiro, já é equivocada, pois transfere recursos que estavam gerando renda no ativo para fomentar a geração de despesas no passivo.

No caso acima, estamos supondo que a compra do carro foi consumada com a utilização de recursos próprios que estavam à disposição do adquirente em uma aplicação financeira, rendendo juros - por exemplo, numa situação característica de ativo gerando renda.

Mas vamos supor que o comprador não possua os recursos suficientes para pagar o veículo e opte por fazer um financiamento bancário para a aquisição do bem. Neste caso, não haveria a troca de um ativo (aplicação financeira) por um passivo (veículo adquirido), e sim uma situação muito pior: a criação de dois passivos no BP-PF.

Trocar um ativo por um passivo é uma decisão econômica e financeira equivocada, mas criar dois passivos a mais em sua vida, geradores de despesas, sem contrapartidas no ativo, é uma péssima escolha para sua vida empresarial.

Imagine que você é relativamente jovem, vive apenas para si e possua um bom emprego para os padrões brasileiros. Seu Balanço Patrimonial poderia ser assim:

ATIVO
PASSIVO
Emprego (gera renda líquida média de R$ 7.000,00/mês = R$ 84.000,00/ano)
Veículo próprio avaliado em R$ 10.000,00 (gera despesa de R$ 4.000,00/ano com IPVA, seguro, manutenção e combustível)
Aplicação financeira de R$ 50.000,00 (gera renda extra de R$ 400,00/mês = R$ 5.000,00/ano com juros sobre juros)
Despesa de aluguel, condomínio, energia elétrica e telefone de R$ 1.500,00/mês = R$ 18.000,00/ano
Outros ativos e receitas = 0,00
Outras despesas (vestuário, alimentação, viagens, plano saúde, outras) = R$ 2.000,00/mês = R$ 24.000,00/ano
Total Ativo = 50.000,00
Total Passivo = 10.000,00
Patrimônio Líquido Positivo = 40.000,00

Total geração receitas ano = 89.000,00
Total geração despesas ano = 46.000,00
Fluxo de caixa positivo = 43.000,00/ano
Fluxo de caixa negativo = ZERO

Você possui um emprego estável que produz R$ 7 mil de caixa positivo mensalmente e contribui para que seu Patrimônio Líquido anual seja positivo em R$ 40 mil (ativos – passivos). Esta situação se reflete em um fluxo de caixa positivo de R$ 43 mil por ano.

Esses R$ 43 mil anuais podem e devem ser reinvestidos no ativo, renovando seus investimentos e aumentando sua geração positiva de caixa ano após ano, possibilitando que a geração de caixa dos seus investimentos supere, no longo prazo, a geração de caixa do seu trabalho assalariado. É o reinvestimento do lucro no giro dos negócios (ativo circulante), como as empresas fazem, ou deveriam fazer.

Agora voltemos à situação da compra do veículo, em que você troca seu carro usado de R$ 10.000,00 por um carro novo de R$ 60.000,00. Vamos analisar as duas hipóteses: compra à vista e compra financiada com empréstimo bancário.

1. Compra à vista:
Você utiliza o saldo de sua aplicação financeira para comprar o carro novo (R$ 50.000,00) e entrega no negócio seu veículo antigo pelo valor de R$ 10.000,00:

ATIVO
PASSIVO
Emprego (gera renda líquida média de R$ 7.000,00/mês = R$ 84.000,00/ano)
Veículo próprio avaliado em R$ 60.000,00 (gera despesa de R$ 7.000,00/ano com IPVA, seguro, manutenção e combustível)
Aplicação financeira = R$ 0,00
Despesa de aluguel, condomínio, energia elétrica e telefone de R$ 1.500,00/mês = R$ 18.000,00/ano
Outros ativos e receitas = 0,00
Outras despesas (vestuário, alimentação, viagens, plano saúde, outras) = R$ 2.000,00/mês = R$ 24.000,00/ano
Total Ativo = 0,00
Total Passivo = 60.000,00

Patrimônio Líquido Negativo = 60.000,00
Total geração receitas ano = 84.000,00
Total geração despesas ano = 49.000,00
Fluxo de caixa positivo = 35.000,00/ano
Fluxo de caixa negativo = ZERO

O Patrimônio Líquido, que era positivo em R$ 40 mil tornou-se negativo em R$ 60 mil. O fluxo de caixa continua positivo, mas se reduziu de R$ 43 mil para R$ 35 mil.

Veja que não estamos computando a depreciação do veículo novo e o custo de oportunidade do capital, para não complicar muito o exemplo neste momento. Lembramos que essas variáveis reduzem ainda mais o patrimônio líquido e aumentam as despesas.

2. Compra com financiamento bancário:
Você mantém a aplicação financeira (R$ 50.000,00) e toma um empréstimo de R$ 50.000,00 para a compra do carro, entregando seu carro usado no negócio pelo valor de R$ 10.000,00:

ATIVO
PASSIVO
Emprego (gera renda líquida média de R$ 7.000,00/mês = R$ 84.000,00/ano)
Veículo próprio avaliado em R$ 60.000,00 (gera despesa de R$ 7.000,00/ano com IPVA, seguro, manutenção e combustível)
Aplicação financeira de R$ 50.000,00 (gera renda extra de R$ 400,00/mês = R$ 5.000,00/ano com juros sobre juros)
Despesa de aluguel, condomínio, energia elétrica e telefone de R$ 1.500,00/mês = R$ 18.000,00/ano
Outros ativos = 0,00
Outras despesas (vestuário, alimentação, viagens, plano saúde, outras) = R$ 2.000,00/mês = R$ 24.000,00/ano
Outras receitas = 0,00
Empréstimo bancário de R$ 50.000,00 em 48 meses para compra do veículo (gera despesa de R$ 20.000,00/ano de amortização de capital e juros, com taxa pré-fixada de 2% a.m.)
Total Ativo = 50.000,00
Total Passivo = 110.000,00

Patrimônio Líquido Negativo = 60.000,00
Total geração receitas ano = 89.000,00
Total geração despesas ano = 69.000,00
Fluxo de caixa positivo = 20.000,00/ano
Fluxo de caixa negativo = ZERO

Nesta segunda hipótese, o Patrimônio Líquido manteve-se negativo em R$ 60 mil. Entretanto, o fluxo de caixa se reduziu ainda mais, de R$ 35 mil para R$ 20 mil. A constituição de mais um passivo no Balanço Patrimonial (empréstimo de R$ 50 mil) suprimiu parte da geração de caixa criada no ativo.

Neste contexto, da Análise Econômica e Financeira das Pessoas Físicas, a tendência é que a geração positiva de caixa seja sempre inversamente proporcional ao aumento do passivo, uma vez que dificilmente você conseguirá taxas de remuneração do ativo superiores às taxas de custeio dos financiamentos tomados como pessoa física. Ou seja, os custos das despesas geradas no passivo geralmente serão maiores que os ganhos das receitas geradas no ativo.

Portanto, para não perder geração de caixa é importante manter ativos em proporções superiores aos passivos.

Tudo bem até aqui, então fique ligado nos próximos posts sobre o assunto. O nosso Balanço Patrimonial está começando a tomar forma.

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