sábado, 26 de agosto de 2017

O momento em que a galinha perde a voz

É possível que nas organizações existam gestores que não são líderes? É possível que existam líderes que não são gestores? É possível que os gestores sejam também líderes? Ou que as organizações nem percebam seus verdadeiros líderes? Acredito que a resposta para todas as perguntas seja sim.

Há uma farta literatura sobre a formação de líderes e gestores, mas pode-se aceitar que, para alguém ser considerado um líder, deve conquistar o respeito e a confiança dos seus colegas.

Da mesma forma, e em consequência da confiança e do respeito, deve existir a representatividade, ou seja, seus colegas ou subordinados precisam se sentir representados pelo seu líder. Ninguém se sente representado por alguém que não confia ou não respeita.

Por fim, quando um grupo se sente representado por alguém que conquistou sua confiança e respeito, pode-se dizer que essa pessoa é um legítimo representante desse grupo. Daí a questão da legitimidade.

Então, podemos concluir que a liderança exige, no mínimo, três requisitos básicos: o respeito/confiança, a representatividade e a legitimidade. Veja que ainda não estamos falando em competência e capacidade.

Agora, com muita calma, vamos fazer um exercício de “engenharia reversa”. A legitimidade vem da representatividade e a representatividade vem da confiança e do respeito. Assim pergunta-se: como um profissional deve atuar para conquistar a confiança e o respeito das pessoas com as quais se relaciona em seu trabalho?

O respeito e a confiança nascem e se fortalecem através das relações humanas cotidianas vivenciadas por um grupo em um ambiente de trabalho. Pode-se dizer que é a viga mestra de uma construção muito lenta que sustenta relações interpessoais muito instáveis, onde diversos interesses se cruzam e muitas vezes se conflitam, em ambientes onde circulam a concorrência, a inveja, a vaidade, o egocentrismo, o excesso de individualismo, e muito mais.

São ambientes em que muitas carreiras são construídas através da imagem, do relacionamento privado e do marketing pessoal, onde os princípios éticos, a qualidade dos trabalhos e a imparcialidade das decisões tornam-se menos importantes.

O mundo empresarial não é justo, ganha-se aquilo que se negocia. Esta é uma velha frase que ouvi muito tempo atrás, mas que é sempre atual. É como a história da galinha e da pata. O ovo da pata é melhor, maior e com mais nutrientes, mas a pata trabalha silenciosamente, é muito discreta. Já a galinha, embora ofereça um produto de menor qualidade, canta mais e faz um barulho imenso, anunciando “seu produto”.

É claro que a pata é melhor, mas a galinha aparece mais. E no mundo empresarial ainda temos as galinhas que terceirizam a produção. Nem ovos produzem, apenas cantam e se aproveitam de “ovos” produzidos por outros.

Nenhum gestor será líder se não conhecer a função que gerencia. Nenhum gestor conquistará a confiança e o respeito de uma equipe enquanto precisar “comer na mão de alguém” que conhece mais do que ele. Nenhum gestor será líder enquanto não for ele próprio um exemplo a ser seguido, tanto em ética e princípios como em competência e capacidade para exercer a função para a qual foi designado.

Um gestor não precisa ser operacional, não precisa e não deve “colocar a mão na massa”. Um gestor deve gerenciar e administrar uma série de fatores que envolvem o dia-a-dia dos negócios. Entretanto deve saber fazer, precisa ter o conhecimento daquilo que gerencia. Ninguém adquire competência e capacidade sem a experiência profissional naquilo que pretende gerenciar.

Você não precisa fazer, mas se você manda e não sabe fazer, suas hesitações e contradições logo transparecerão e serão percebidas como fraquezas. Você será desacreditado pelas pessoas que o rodeiam e será muito difícil reverter essa situação. Você perde, a equipe perde e a organização perde. Em uma situação dessas não há ganhadores. É o momento em que a galinha perde a voz.

A formação profissional é muito importante para a gestão, mas só a experiência profissional é capaz de nutrir a confiança e o respeito. O seu MBA ou o seu Doutorado não serão respeitados se você não demonstrar que entende daquilo que fala.

Esse é um grande desafio imposto às organizações: conseguir mensurar a experiência profissional e o quanto ela impacta a formação de líderes. Como quantificar, estratificar e qualificar a experiência profissional, principalmente daquele colaborador que já trabalha na empresa ou na área? Como implantar uma metodologia que possa medir essa experiência profissional, que vai se formando ao longo do tempo pelos trabalhos realizados, pela diversidade de situações vividas no ambiente de trabalho, pelas diversas unidades, setores e departamentos por onde atuou?

É desta forma que se faz um gestor que também será respeitado pelos seus pares e subordinados. É desta forma que a representatividade e a legitimidade se dará.

Lembram-se das perguntas iniciais formuladas?

Uma empresa que tem gestores que não são líderes, ou que não percebe ou valoriza seus verdadeiros líderes, estará, no longo prazo, desestruturando sua organização interna, aumentando seu retrabalho, destruindo riqueza e, caso não reverta tudo isso, cavando seu túmulo.

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