Analisando a cadeia da lavagem
de dinheiro sob a visão dos órgãos reguladores e do sistema financeiro, é
fundamental conhecer os “modus operandis”
dos grupos criminosos, para que se possa propor melhorias em processos ou novas
ferramentas para identificação e controle dos riscos envolvidos.
Neste ponto é importante
recordar que, além de cumprir dispositivos legais, o sistema bancário deve ser
um poderoso aliado dos órgãos reguladores, da segurança pública e da sociedade
em geral, na detecção e combate aos crimes da espécie.
A verdadeira história que
envolve a aquisição do Hotel VN:
O empresário que adquiriu o
hotel faz parte de uma organização criminosa que atua no comércio ilegal de
drogas, principalmente cocaína, que é trazida da Bolívia por via terrestre para
ser distribuída no sul do país em diversos “polos regionais” onde a demanda
pela droga é mais sensível.
A compra do hotel pelo referido
empresário faz parte de uma estratégia de consolidação de sua participação no
fornecimento de cocaína na região mais meridional do Brasil, onde foi observada
uma carência de fornecimento regular do “produto”, uma vez que a região onde o
hotel se situa possui vários pequenos fornecedores cujos ganhos de escala são
atraentes mas não suficientemente grandes para impedir a entrada de um
concorrente de maior calibre.
A aquisição do referido hotel
foi a pavimentação do caminho para novos negócios ilícitos e início de uma estratégia
geopolítica de aumento de faturamento e de poder por parte do grupo em que atua
o referido empresário.
Desde sempre, o empresário
sabia das dificuldades operacionais a serem enfrentadas na administração do
Hotel Verdes Notas, entretanto, o empreendimento, da maneira como se
apresentou, serviu “como uma luva” aos interesses excusos relacionados ao
tráfico de cocaína, conforme veremos a seguir.
Os números do negócio:
Quanto custa um quilo de
cocaína pura? Quanto custa um carregamento de cocaína? De que forma se paga
pela aquisição da droga? Quais as margens de rentabilidade bruta e líquida
envolvidas? Qual a quantidade de cocaína que pode ser “esquentada” mensalmente
em um empreendimento como o Hotel Verdes Notas? Como atuar de maneira a não gerar
suspeitas? Como dar uma aparência legal a tudo isso?
Estas são algumas questões que
se pretende abordar nas próximas linhas, para um melhor entendimento do
problema.
Um quilo de cocaína negociado
no “atacado”, proveniente da Colombia, Peru ou Bolívia, principais fornecedores
na América Latina, custa de U$ 1,000.00 a U$ 2,000.00, e pode ser revendido no
mercado interno, no “varejo”, por até U$ 15,000.00.
A venda de cocaína no varejo
geralmente é realizada em pequenas quantidades, através da confecção de
papelotes de um grama, as famosas “buchinhas”, que são vendidas com valores
próximos a U$ 15.00. Em valores atuais convertidos para reais, estaríamos
falando em R$ 5.000,00 para o quilo da droga no atacado (U$ 1,500.00 x R$ 3,33) e
R$ 50,00 o grama no varejo (U$ 15.00 x R$ 3,33), que
resulta em R$ 50.000,00 para o quilo da droga (paridade real/dolar em junho de
2017).
Em uma noite “boa”, considerada
ativa, pode-se vender em uma “boca” de uma cidade média ou grande, o
equivalente a mil papelotes - um quilo, que representa um faturamento de R$
50.000,00. Considerando-se o custo médio de aquisição de R$ 5.000,00 (custo da
mercadoria vendida), chega-se a um lucro bruto de R$ 45.000,00 ou 900% de
margem operacional bruta, tudo isso em uma única noite com um quilo de cocaína.
São números tentadores para as mentes criminosas.
No próximo artigo será
detalhada a operação de ocultação do dinheiro sujo na contabilidade do hotel e
a complementação dessa estratégia com a utilização do sistema financeiro,
quando é iniciada a fase de dissimulação dos valores ilícitos.
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