quarta-feira, 18 de outubro de 2017

As empresas de fachada e a lavagem de dinheiro no sistema financeiro – parte 4

Analisando a cadeia da lavagem de dinheiro sob a visão dos órgãos reguladores e do sistema financeiro, é fundamental conhecer os “modus operandis” dos grupos criminosos, para que se possa propor melhorias em processos ou novas ferramentas para identificação e controle dos riscos envolvidos.

Neste ponto é importante recordar que, além de cumprir dispositivos legais, o sistema bancário deve ser um poderoso aliado dos órgãos reguladores, da segurança pública e da sociedade em geral, na detecção e combate aos crimes da espécie.

A verdadeira história que envolve a aquisição do Hotel VN:

O empresário que adquiriu o hotel faz parte de uma organização criminosa que atua no comércio ilegal de drogas, principalmente cocaína, que é trazida da Bolívia por via terrestre para ser distribuída no sul do país em diversos “polos regionais” onde a demanda pela droga é mais sensível.

A compra do hotel pelo referido empresário faz parte de uma estratégia de consolidação de sua participação no fornecimento de cocaína na região mais meridional do Brasil, onde foi observada uma carência de fornecimento regular do “produto”, uma vez que a região onde o hotel se situa possui vários pequenos fornecedores cujos ganhos de escala são atraentes mas não suficientemente grandes para impedir a entrada de um concorrente de maior calibre.

A aquisição do referido hotel foi a pavimentação do caminho para novos negócios ilícitos e início de uma estratégia geopolítica de aumento de faturamento e de poder por parte do grupo em que atua o referido empresário.

Desde sempre, o empresário sabia das dificuldades operacionais a serem enfrentadas na administração do Hotel Verdes Notas, entretanto, o empreendimento, da maneira como se apresentou, serviu “como uma luva” aos interesses excusos relacionados ao tráfico de cocaína, conforme veremos a seguir.

Os números do negócio:

Quanto custa um quilo de cocaína pura? Quanto custa um carregamento de cocaína? De que forma se paga pela aquisição da droga? Quais as margens de rentabilidade bruta e líquida envolvidas? Qual a quantidade de cocaína que pode ser “esquentada” mensalmente em um empreendimento como o Hotel Verdes Notas? Como atuar de maneira a não gerar suspeitas? Como dar uma aparência legal a tudo isso?

Estas são algumas questões que se pretende abordar nas próximas linhas, para um melhor entendimento do problema.

Um quilo de cocaína negociado no “atacado”, proveniente da Colombia, Peru ou Bolívia, principais fornecedores na América Latina, custa de U$ 1,000.00 a U$ 2,000.00, e pode ser revendido no mercado interno, no “varejo”, por até U$ 15,000.00.

A venda de cocaína no varejo geralmente é realizada em pequenas quantidades, através da confecção de papelotes de um grama, as famosas “buchinhas”, que são vendidas com valores próximos a U$ 15.00. Em valores atuais convertidos para reais, estaríamos falando em R$ 5.000,00 para o quilo da droga no atacado (U$ 1,500.00 x R$ 3,33) e R$ 50,00 o grama no varejo (U$ 15.00 x R$ 3,33), que resulta em R$ 50.000,00 para o quilo da droga (paridade real/dolar em junho de 2017).

Em uma noite “boa”, considerada ativa, pode-se vender em uma “boca” de uma cidade média ou grande, o equivalente a mil papelotes - um quilo, que representa um faturamento de R$ 50.000,00. Considerando-se o custo médio de aquisição de R$ 5.000,00 (custo da mercadoria vendida), chega-se a um lucro bruto de R$ 45.000,00 ou 900% de margem operacional bruta, tudo isso em uma única noite com um quilo de cocaína. São números tentadores para as mentes criminosas.

No próximo artigo será detalhada a operação de ocultação do dinheiro sujo na contabilidade do hotel e a complementação dessa estratégia com a utilização do sistema financeiro, quando é iniciada a fase de dissimulação dos valores ilícitos. 

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