domingo, 31 de março de 2019

Considerações sobre 31 de março de 1964

Hoje faz 55 anos que o Brasil viveu um caos político e social, que culminou no chamado golpe militar de 1964 e início da ditadura militar (tese esquerdista, comunista ou socialista) ou intervenção militar de 1964 e contragolpe constitucional (tese militar, direitista ou conservadora).

Não pretendo aqui insistir nessa velha discussão. Nasci e “me criei” durante a ditadura militar. Quando comecei a trabalhar, em 1984, o presidente era o General Figueiredo.  Vi e vivi aqueles dias desde pequeno. Tenho opinião própria sobre o assunto e já adiando que os dois lados cometeram excessos. Penso hoje que qualquer olhar sobre aquele período precisa necessariamente de pragmatismo e racionalidade, deixando as paixões de lado, caso contrário, não se chega a lugar algum.

Conhecer o passado é fundamental, mas o sangue nos dentes é desproposital. O maior legado de 1964 é a reflexão sóbria e consciente, aparando arestas e descartando extremos, pois o importante hoje é pavimentar o caminho para o prometido futuro glorioso, que parece não querer chegar. É claro que o passado deve ser o tapete a ser estendido, substituindo pedras e espinhos, para que não se cometa os mesmos erros novamente. Esta é a sua função: alavancar o futuro com inteligência no presente. Como dizia o famoso jornalista italiano Indro Montanelli (1909 – 2001), un paese che ignora il proprio ieri, non può avere un domani.

Sempre digo aos que me pedem opinião sobre 31 de março de 1964: não perguntem aos militares sobre o que aconteceu, sobre quem tem razão. Nem aos esquerdistas e progressistas. Nem aos políticos aliados ou perseguidos. As informações sairão distorcidas, com certeza. Perguntem a quem não vai mentir para vocês, perguntem ao seus pais e às suas mães, aos seus tios, aos seus avós. Perguntem como era a vida naquele tempo, como era a rotina de quem acordava cedo para levar os filhos ao colégio e trabalhar. Perguntem às pessoas comuns, mais velhas, elas são as testemunhas vivas dos chamados “anos de chumbo”.

Façam mais: peçam a elas para traçarem um paralelo dos 20 anos do regime militar com os 35 anos da nova república, perguntem como era a liberdade de ir e vir, a censura, a segurança pública, a saúde pública e a educação pública (os três pilares obrigatórios de qualquer governo decente). Peçam aos mais velhos a sua opinião sobre a ditadura e a democracia pós-ditadura.

Eu poderia dizer isso a vocês, pois vivi aquela época, mas vocês não me conhecem, não sou "das suas confianças". Entretanto, como também não sou de ficar em cima do muro, gostaria de colocar aqui um artigo publicado pelo jornalista Carlos Ramalhete em 28/03/2019, texto que considero o mais próximo à minha visão sobre o assunto. O artigo original pode ser lido no endereço https://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/carlos-ramalhete/31-de-marco-de-1964/

"Temos em mãos uma crise anunciada. Era bastante evidente que, eleito Bolsonaro, fosse haver algum tipo de comemoração do 31 de março de 1964. Surpreendente, na verdade, é que elas sejam restritas aos quartéis, sem paradas em grandes avenidas e todo o carnaval cívico que a sociedade brasileira sabe preparar.

Afinal, o atual presidente fez a sua carreira política baseada no apoio aos governos militares que se sucederam ao levante de 1964, com direito a fotografias dos seus atuais antecessores nas paredes do seu gabinete de deputado, voto em homenagem a Ustra quando do impeachment de Dilma, e o que mais pudesse lhe valer para colocar-se como o anticomunista por antonomásia. Seria, assim, perfeitamente natural se ele fizesse uma forte comemoração nas ruas das cidades, ou mesmo que decretasse um dia de feriado se não fosse num domingo o aniversário este ano.

Isso soa estranho, estranhíssimo, quando só se tem diante dos olhos o discurso único da mídia, que durante os desgovernos esquerdistas que assolaram o Brasil pelas duas últimas décadas fez-se o único discurso aceito em qualquer meio de divulgação pública.
Os que perderam em 1964 ganharam na difusão de sua versão. Já há uma geração que foi educada aprendendo apenas sobre os “anos de chumbo”, nas novelas, jornais e onde mais houvesse espaço para divulgá-la.

Terroristas assassinos, como a gangue de nossa ex-presidente, conseguiram arvorar-se em supostos defensores da democracia, sem deixar claro que a “democracia” que defendiam era na verdade mero codinome para a famigerada Ditadura do Proletariado, que mais de cem milhões de vítimas causou ao longo do século passado.

Já Bolsonaro chegou a defender que não houve ditadura. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Talvez ele pudesse mesmo dizer, com o ditador chileno Pinochet (que ele aliás elogiou publicamente, causando reações na esquerda daquele país em sua recente visita), que tivemos aqui uma “ditabranda”. Não sei.

O que sei é que entre os governos militares brasileiros e seus correspondentes pelo resto da nossa sofrida América Latina, havia uma diferença monumental. Paisecos minúsculos sofreram dezenas de milhares de baixas entre os adversários dos governos militares, por vezes até mesmo jogados de aviões ou helicópteros, ou outras formas refinadamente cruéis de assassinato.

A forma especialmente macabra e cruenta como foi assassinado o cantor e violonista Victor Jara, no Chile, por representantes do Estado, poderia entrar para qualquer História da Infâmia que um novo Borges se dispusesse a escrever. Até hoje desenterram-se cadáveres de chacinas centro-americanas, perpetradas a soldo do Estado.

Já o nosso país, de dimensões continentais, teve algumas centenas de mortos – em sua imensa maioria gente armada e perigosa –, às quais se somam, por justiça, cento e tantos trabalhadores assassinados pelos movimentos terroristas de extrema-esquerda. É a nossa cultura, que não aceita como a espanhola (e as suas descendentes) o confronto aberto, que fez com que fosse assim.

Enquanto os hispanófonos latino-americanos batiam de frente, como toureiros e touros, até a morte de um – ou de dezenas de milhares –, os lusófonos brasileiros arranjávamos esquemas extremamente generosos para livrar-se dos que não trocavam tiros com a polícia, dando, por exemplo, a FHC o direito de aposentar-se da USP antes de ir para o régio exílio em Paris.

Mas de onde veio isso, de onde veio este confronto, que não aconteceu apenas no Brasil, tendo, ao contrário, nele a sua forma mais branda? Trata-se de um fruto da Guerra Fria, de uma das inúmeras guerrinhas por procuração entre os Estados Unidos e a hoje felizmente finada União Soviética. Jânio, o louco, havia sido eleito presidente. Querendo mais poderes, tentou uma jogada algo arriscada, em que renunciou, convencido de que voltaria nos braços do povo. Não voltou.

Quem tomou seu lugar, após várias idas e vindas, foi seu rival e vice, João Goulart, que imediatamente alinhou-se ao eixo soviético (com que Jânio já havia flertado ao condecorar Che Guevara). Com o apoio da extrema-esquerda, passou a pregar o ódio de classes, a reforma agrária confiscatória, e outras medidas que pareciam indicar que o país estaria no rumo de tornar-se nova Cuba. Cabe lembrar que a revolução cubana não ocorrera tanto tempo atrás; Havana ainda não parecia ter sido bombardeada. Talvez até existissem ainda cubanos gordos sem fazer parte do Partido.

A população brasileira, notadamente a classe média, levantou-se 55 anos atrás como o fez nos últimos anos. Só faltaram as camisetas da CBF. Multidões enormes, que em termos de percentual da população jamais foram alcançadas, desceram às ruas pedindo às Forças Armadas que depusessem aquele louco.

O cineasta e escritor Arnaldo Jabor conta que, voltando excitado de um comício da extrema-esquerda em que Jango prometera a revolução para o dia seguinte, arrepiou-se ao perceber que em todas, virtualmente todas as janelas dos apartamentos que via da janela do ônibus estava a vela acesa solitária que identificava os simpatizantes das “Marchas com Deus pela Liberdade”, anticomunistas. Deve ter sido mais ou menos o horror que acometeu os esquerdistas deste nosso século ao ver as ruas das cidades tomadas de camisetas amarelas.

E veio o que, dependendo de quem conta a história, pode ser dito “o golpe de 64”, “a revolução redentora” ou “o contragolpe”. Inclino-me por este último, na medida em que Jango, alçado ao poder indiretamente e sem respaldo popular, planejava instaurar uma ditadura de esquerda. Ou não; talvez ele fosse apenas fraco e incompetente, e não fosse conseguir instaurar nada mais que o caos. Mas como saber? A História andou.

Não adianta pensar o que teria ocorrido se algo houvesse sido diferente. Se Jango houvesse conseguido fazer suas “reformas de base”. Se os militares não houvessem intervindo. Se as eleições houvessem meramente sido adiantadas. Não se sabe. O que se sabe é que o Congresso Nacional, inclusive a esquerda moderada que o compunha, acatou a intervenção militar e depôs formalmente Jango, instalando em seu lugar um general.

A ideia era simplesmente arrumar um pouco a confusão e fazer novas eleições presidenciais. Vê-se, na capa da Revista Manchete (uma revista composta basicamente de fotografias com legendas, popularíssima à época) alusiva à data, Carlos Lacerda, o governador direitista do atual Rio de Janeiro, com um sorriso que se fosse maior saltar-lhe-iam da boca os dentes. Ele pensava que seria o próximo presidente, que poderia concorrer em eleições livres pouco tempo depois, sendo eleito por aquelas mesmas multidões que foram às ruas pedindo o fim do desgoverno janguista. Mas não.

E aqui entramos em outra fieira de “Ses”: e se essa eleição tivesse ocorrido, como teria sido a História? E se Lacerda tivesse sido eleito? E se ele concorresse contra Jango ou Brizola, como teria sido? Nunca saberemos. Se porcos tivessem asas, eles voariam; não vale a pena pensar em “Ses”.

O que vale notar é que o recrudescimento do confronto entre esquerda pró-soviética e direita pró-americana só fez aumentar, com a extrema-esquerda tomando em armas e lançando-se ao terrorismo, aos assaltos a banco, aos sequestros. E, no quadro deste recrudescimento, quatro anos depois de tomarem o governo – quatro anos depois de 1964, quatro anos depois da data que Bolsonaro quer comemorar – os militares tomaram o poder, com o Ato Institucional Número Cinco. Só o foram largar duas décadas depois. Estes anos, após o AI-5, é que foram os anos da verdadeira ditadura (ou, repito, comparada às que assolaram Argentina, Chile, etc., “ditabranda”).

Assim, não se pode, em justiça, comparar o 31 de março de 1964 com a situação que veio a acontecer depois. Primeiro, em 1964, houve uma resposta militar a um clamor popular. Depois, em 1968, houve a instauração de uma ditadura fechada, em resposta a uma situação estratégica de inimigos armados internos. Entre um e outro, tendo lá suas razões, os militares não organizaram as eleições que deveriam ter acontecido.

O AI-5 foi um fruto do movimento de 1964? De certa forma, foi. Mas desta mesma forma, o 31 de março foi o fruto do desgoverno janguista, e o AI-5 do crescimento do terrorismo e da guerrilha foquista. O que tivemos ali foi uma situação cruel, em que, como me observou certa feita meu avô – o autor da Lei de Anistia (ampla, geral e irrestrita) que possibilitou a volta dos esquerdistas exilados, inclusive os culpados por crimes de sangue –, “brasileiro lançou-se contra brasileiro”. Uma tragédia, em que simplesmente participamos de outra tragédia a nível global, que foi a Guerra Fria e a rivalidade EUA-URSS.

A nossa cultura, felizmente, impediu que houvesse aqui algo semelhante à horrenda Guerra Civil Espanhola, em que igualmente os compatriotas voaram aos pescoços uns dos outros, resultando em um morticínio que serviu de prévia da Segunda Guerra Mundial. Aqui aposentamos os subversivos antes de enxotá-los. E os mandamos para Paris, não para o fundo do mar. Felizmente.

A grita da extrema-esquerda (incluindo aí a “extrema-imprensa”) contra as comemorações do 31 de março é outro ressurgimento desta mentalidade de guerra, desta mentalidade partidária, como se tivéssemos ainda a União Soviética e os Estados Unidos às vésperas de trocar bombas atômicas.

A data de 31 de março de 1964 foi uma derrota política para a esquerda, e isto para eles já é algo a chorar, espernear e gritar. Basta ver como tratam hoje o impeachment de Dilma. Tudo é “golpe”, mesmo quando ocorre literalmente, como nos dois casos, a pedidos da população. Mas as torturas, os “desaparecimentos”, o terrorismo, os sequestros, as bombas, toda a parte realmente trágica daquele período da nossa História não veio diretamente do 31 de março mais que teria vindo do Comício da Central de Jango.

Seria, realmente, péssima ideia comemorar o AI-5, ainda que se possa perfeitamente defender que tenha sido necessário no momento, dado o perigo da guerrilha comunista, apoiada e financiada do estrangeiro. Mas foi uma tragédia. O 31 de março não. Não houve mortes então. Não houve tortura, não houve bombas em aeroportos ou em portas de quartéis. Isso tudo veio depois. O 31 de março foi uma tentativa de – para usar uma palavra da moda – “livramento”, que infelizmente gorou.

Pode ser comemorado, pode ser lamentado, mas certamente não faz sentido algum tratá-lo como a esquerda o trata, como se naquele momento – e não no AI-5 – se houvessem aberto as portas do inferno. Não; elas já estavam abertas, e continuaram ainda por muito tempo. Hoje dele ardem brasinhas na Coreia do Norte e em Cuba, com uma ou outra oculta na Nicarágua ou soltando fétida fumaça na Venezuela.

Mas, felizmente, o inferno do Século 20 e de seus confrontos sanguinários entre ideologias ficou decididamente para trás. A História agora, como disse o “subversivo Marques”, só se repete como farsa".

Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/carlos-ramalhete/31-de-marco-de-1964/

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Algumas manchetes dos principais jornais da época:










quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Dinheiro & Dilemas – Dinastias

Hoje vamos conversar um pouco sobre Dinastias empresariais, com “D” maiúsculo mesmo. A ideia não é escrever sobre grandes empresas e negócios - o que já seria uma bela ousadia - mas ir além, explorando a fundo as intrincadas relações que permearam os maiores impérios e negócios construídos nos últimos duzentos anos. O assunto é instigante!

E é para ser mesmo. Para se entender o processo de criação e perpetuação de riqueza, também é preciso saber como esta dinâmica funciona. E uma das melhores maneiras de fazer isso é estudando a história das grandes Dinastias empresariais-familiares que dominaram e dominam o mundo desde o final do século XVIII até hoje.

Parece exagero! Garanto-lhes que não. Prestem atenção ao texto abaixo, uma pequena história ocorrida em meados do século XIX com uma das famílias protagonistas desse enredo:

O avô de John Pierpont, Joseph Morgan, largou a agricultura para se tornar hoteleiro em Hartford, com um conjunto de negócios concebidos e irrigados por substâncias aquosas e alcoólicas, como uma taverna lucrativa, (a Exchange Coffee House), uma empresa de canais, barcos a vapor e a ferrovia que ligava Hartford a Springfield, mais tarde um elo na linha Nova York-Boston. Joseph comprou imóveis e foi um dos fundadores da companhia de seguros Aetna Fire Insurance Company.

Ativo na política e na igreja Congregacionalista, desenvolveu contatos pessoais e comerciais em todas as áreas. Abriu mão da taverna em troca do City Hotel, estabelecimento maior, comprou uma outra estalagem em New Haven, contraiu empréstimos em bancos – não temia dívidas – e concedeu empréstimos a particulares.

Seu feito mais importante, contudo, foi introduzir o filho Junios Spencer no comércio. Junios começou em Hartford numa empresa chamada Howe e Mather, mas, passada uma década, após a morte do pai, em 1847, partiu em direção a Boston atrás de coisa melhor. Cerca de sete anos depois, em 1854, mudar-se-ia para Londres e mandaria seu filho John Pierpont estudar na França e na Alemanha.

Quatro anos após a morte do pai, Junios vendeu sua participação na Howe e Mather por 600 mil dólares (nenhuma ninharia) e tornou-se sócio em Boston de uma empresa que passaria a chamar-se J.M. Beebe, Morgan and Company – com a mesma natureza comercial, mas numa escala maior: importação, exportação (sobretudo algodão), endosso e desconto de promissórias comerciais. E foi ali que chamou a atenção de George Peabody, também americano, embora banqueiro mercantil de Londres.

Tratava-se de uma grande oportunidade, não apenas porque o banco de Peabody era um dos mais importantes no comércio anglo-americano, mas porque o próprio Peabody se aproximava da aposentadoria e queria dedicar-se a boas causas. Ele precisava de ajuda: alguém para dirigir a empresa, supervisionar as contas e as cobranças. Seu caminho cruzou com o de Junios Morgan em várias transações, ele gostou do que viu, ofereceu-lhe sociedade em 1854. Em pouco tempo, Junios se viu conduzindo o negócio e, quando Peabody se aposentou, dez anos depois, em 1864, a empresa passou a chamar-se J.S. Morgan and Company.

Em 1870, Otto Von Bismarck, chanceler da Prússia e figura-chave na emergente federação alemã, atraiu um orgulhoso e tolo imperador da França para a guerra. A França foi derrotada e o imperador, capturado. Fim do império. Montou-se um governo novo, provisório, que precisou de dinheiro. Despachados de Paris para Tours, seus membros não puderam pegar nos cofres do Banco da França nem ouro nem dinheiro vivo.

Onde conseguir fundos? Os principais banqueiros britânicos, inclusive os Barings e os Rothschilds, depositavam pouca fé nessa oportunista criação política francesa, menos ainda em sua disposição e capacidade de pagar os credores. Os Rothschilds, com filiais na adversária Frankfurt e em Paris, ficaram mais divididos ainda quanto a quem prestar lealdade e acharam melhor, principalmente devido à hostilidade de Bismarck, não ajudar os franceses antes da celebração de algum tipo de acordo de paz.

Foi nesse ponto que a J.S. Morgan and Company apareceu e concordou em liderar como underwriter o lançamento de títulos para a concessão do empréstimo. Junios e seus associados haviam pesquisado e concluído que, a despeito de várias mudanças de regime, a França jamais se negara a honrar uma dívida. Emitiram-se os títulos com um deságio substancial de 15% abaixo do valor nominal, nada muito injusto para um país derrotado e para financistas novatos.

Mas os franceses se sentiram irritados e ofendidos: essas condições, na opinião deles, mais se adequavam a devedores perenes. Tanto melhor para o underwriter, que precisava do máximo de margem possível.

A proclamação da Comuna de Paris, então, com seu desagradável odor de extremismo radical, fez o preço baixar mais 25%, e Junios se viu comprando títulos qual um alucinado, a fim de manter a cotação. Foi quando – tais são as viradas do destino – os franceses lhe fizeram um enorme favor. Furiosos por ver seu crédito impugnado, providenciaram um empréstimo de liberação em 1873 e pré-quitaram os títulos antigos ao par, ou seja, pelo valor nominal.

Junios ganhou fortuna nesse imprevisto lance de sorte – cerca de um milhão e meio de libras, ou 450 milhões de dólares em valores atuais. Como os Rothschilds depois das guerras napoleônicas, ele agora se via como uma peça importante nas finanças internacionais. E como os Rothschilds, no passado, descobriu que os banqueiros da velha guarda, a começar pelos Rothschilds, não estavam dispostos a atribuir status a esse calouro impetuoso e constrangedor. Os Morgans, principalmente o filho Pierpont, se encheram de fúria e não perdoaram...

Então, gostaram da história. Pois é, este é um pequeno aperitivo que envolve a história dos Barings, Rothschilds, Morgans, Fords, Agnellis, Toyodas, Rockefellers, Guggenheims e outros não menos importantes. Para aqueles que desejam conhecer e entender como os grandes impérios financeiros e industriais modernos foram construídos, o livro "Dinastias - Esplendores e Infortúnios das Grandes Famílias Empresariais" é um prato cheio para a curiosidade e a imaginação.

O livro foi lançado em 2006 pelo escritor, professor e historiador americano David Landes, e conta a história das grandes dinastias do século XIX e XX, com riqueza de dados históricos, datas, transações de negócios e histórias pessoais, buscando a interconexão entre os acontecimentos, suas causas e efeitos, analisando e concluindo sobre os principais fatores que levaram aos sucessos e fracassos vivenciados pelos diversos protagonistas da obra. 

Querem conhecer mais sobre riqueza e acumulação de capital? Essa é a minha dica. Boa leitura.


domingo, 27 de janeiro de 2019

Pedras ou esperança?

Saulo de Tarso, mais conhecido como apóstolo Paulo, São Paulo ou simplesmente como o apóstolo dos gentios, foi um dos maiores pregadores do Evangelho do Cristo, logo após a sua morte, no início da era cristã.

Nascido em Tarso (antiga Tarsus, Cilícia, hoje pertencente à Turquia), viveu grande parte da sua vida adulta na Jerusalém dos fariseus, conquistada pelos romanos, sendo um perseguidor implacável dos primeiros cristãos.

Entretanto, após o seu encontro com o espírito do Messias no deserto de Damasco, decidiu mudar completamente a sua vida, abandonando os títulos de nobreza, a irá contra os cristãos e até seu nome de berço, para viver somente a palavra do Cristo e dedicar-se aos pobres, doentes e sofredores. As suas Epístolas compõem algumas das partes mais lindas e importantes do Novo Testamento.

No Brasil, o ano de 2018 se encerrou com muita turbulência na política e economia, numa conjuntura de tensão social alimentada por impaciência, intolerância, ódio, intrigas e desinformação, somada à crise e ao desemprego, situação muito complicada e perigosa para uma nação ainda jovem, que precisa de autoafirmação e maturidade em princípios e valores.

No Livro Paulo e Estevão, escrito por Emmanuel e psicografado por Chico Xavier em 1941, no capítulo O martírio em Jerusalém, o apóstolo dos gentios nos recorda uma grande lição de humanidade e humildade, na narrativa da última conversa com Lucas em Cesaréia, antes de embarcar para Roma como prisioneiro perseguido e caçado, assim como fazia aos primeiros cristãos, no auge da sua mocidade.

Abaixo, o trecho da memorável conversa e mensagem cristã, ocorrida às margens do Mediterrâneo há mais de dois mil anos, para que possamos refletir e buscar mais tolerância, paciência e esperança no novo ano que se inicia. Um ótimo 2019 a todos.

“A seguir, o Apóstolo tomou o braço do médico amigo e, seguido de perto pelo centurião, caminhou resoluto e sereno em demanda do barco. Centenas de pessoas acompanharam as manobras da largada, em santificado recolhimento regado de lágrimas e preces.

Enquanto o navio se afastava lento, Paulo e os companheiros contemplavam Cesaréia, de olhos umedecidos. A multidão silenciosa, dos que ficavam em pranto, acenava e ondeava na praia que a distância, aos poucos, diluía. Jubiloso e reconhecido, Paulo de Tarso descansava o olhar no campo de suas lutas acerbas, meditando nos longos anos de viltas e reparações necessárias.

Recordava a infância, os primeiros sonhos da juventude, as inquietações da mocidade, os serviços dignificantes do Cristo, sentindo que deixava a Palestina para sempre. Grandiosos pensamentos o empolgavam, quando Lucas se aproximou e, apontando a distância os amigos que continuavam genuflexos, exclamou brandamente:  — Poucos fatos me comoveram tanto no mundo, como este! Registrarei nas minhas anotações como foste amado por quantos receberam das tuas mãos fraternais o benefício de Jesus!... 

Paulo pareceu ponderar profundamente a advertência e acentuou: — Não, Lucas. Não escrevas sobre virtudes que não tenho. Se me amas não deves expor meu nome a falsos julgamentos. Deves falar, isso sim, das perseguições por mim movidas aos seguidores do santo Evangelho; do favor que o Mestre me dispensou às portas de Damasco, para que os homens mais empedernidos não desesperem da salvação e aguardem a sua misericórdia no momento justo.

— Citarás os combates que temos travado desde o primeiro instante, em face das imposições do farisaísmo e das hipocrisias do nosso tempo; comentarás os obstáculos vencidos, as humilhações dolorosas, as dificuldades sem conta, para que os futuros discípulos não esperem a redenção espiritual com o repouso falso do mundo, confiantes no favor incompreensível dos deuses e sim com trabalhos ásperos, com sacrifícios abençoados pelo aperfeiçoamento de si mesmos.

— Falarás de nossos encontros com os homens poderosos e cultos; de nossos serviços junto dos desfavorecidos da sorte, para que os seguidores do Evangelho, no futuro, não se arreceiem das situações mais difíceis e escabrosas, conscientes de que os mensageiros do Mestre os assistirão, sempre que se tornem instrumentos legítimos da fraternidade e do amor, ao longo dos caminhos que se desdobram à evolução da Humanidade.

E depois de longa pausa, em que observou a atenção com que Lucas lhe acompanhou os inspirados raciocínios, prosseguiu em tom sereno e firme: — Cala sempre, porém, as considerações, os favores que tenhamos recolhido na tarefa, porque esse galardão só pertence a Jesus. Foi Ele quem removeu nossas misérias angustiosas, enchendo o nosso vácuo; foi sua mão que nos tomou caridosamente e nos reconduziu ao caminho santo.

— Não me contaste tuas lutas amargurosas no passado distante? Não te contei como fui perverso e ignorante, em outros tempos? Assim como iluminou minhas veredas sombrias, às portas de Damasco, levou-te Ele à igreja de Antioquia, para que lhe ouvisses as verdades eternais. Por mais que tenhamos estudado, sentimos um abismo entre nós e a sabedoria eterna; por mais que tenhamos trabalhado, não nos encontramos dignos dAquele que nos assiste e guia desde o primeiro instante da nossa vida.

— Nada possuímos de nós mesmos!... O Senhor enche o vácuo de nossa alma e opera o bem que não possuímos. Esses velhinhos trêmulos que nos abraçaram em lágrimas, as crianças que nos beijaram com ternura, fizeram-no ao Cristo. Tiago e os companheiros não vieram de Jerusalém tão-só para manifestar-nos sua fraternidade afetuosa; vieram trazer testemunhos de amor ao Mestre que nos reuniu na mesma vibração de solidariedade sacrossanta, embora não saibam traduzir o mecanismo oculto dessas emoções grandiosas e sublimes.

— No meio de tudo isso, Lucas, fomos apenas míseros servos que se aproveitaram dos bens do Senhor para pagar as próprias dívidas. Ele nos deu a misericórdia para que a justiça se cumprisse. Esses júbilos e essas emoções divinas lhe pertencem... Não tenhamos, portanto, a mínima preocupação de relatar episódios que deixariam uma porta aberta para a vaidade incompreensível. Que nos baste a profunda convicção de havermos liqüidado nossos débitos clamorosos...

Lucas ouviu admirado essas considerações oportunas e justas, sem saber definir a surpresa que lhe causavam. — Tens razão — disse finalmente —, somos fracos demais para nos atribuirmos qualquer valor. — Além disso — acrescentou Paulo —, a batalha do Cristo está começada. Toda vitória pertencerá ao seu amor e não ao nosso esforço de servos endividados... Escreve, portanto, tuas anotações do modo mais simples e nada comentes que não seja para glorificação do Mestre no seu evangelho imortal!...

Enquanto Lucas procurava Aristarco para transmitir-lhe aquelas sugestões sábias e afetuosas, o ex-rabino continuou fitando o casario de Cesaréia, que se apagava agora no horizonte. A embarcação navegava suavemente, afastando-se da costa...

Por longas horas, deixou-se ficar ali, meditando o passado que lhe surgia aos olhos espirituais, qual imenso crepúsculo. Mergulhado nas reminiscências entrecortadas de preces a Jesus, ali permaneceu em significativo silêncio, até que começaram a brilhar no firmamento muito azul os primeiros astros da noite”.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Dinheiro & Dilemas – Você tem cacoete de rico?

Quantas vezes você já viu em livros, artigos ou filmes os segredos para alcançar a fortuna? Quantas vezes você leu sobre os dez passos para se tornar milionário ou sobre as sete dicas para ter uma vida de sucesso?

Falar sobre riqueza virou modinha há muito tempo. Existem “trocentos” artigos sobre o tema. Então porque estamos tratando disso novamente? Porque voltar a falar nesse assunto?

Digamos que sou um pouco teimoso com coisas que me fascinam e, guardadas as “devidas pretensões”, acho que poderia acrescentar algo de novo ao debate, com o cuidado de não me tornar enfadonho ou chato mesmo.

Ao longo da vida, observando e tentando entender o sucesso e a riqueza alheia – sou de origem muito pobre - e também convivendo e aprendendo com pessoas muito ricas, em função de atividades desenvolvidas, pude captar alguns sinais e características comuns a todas as pessoas bem sucedidas que conheci.

Em tese, trata-se de apenas uma característica primária comum a todas as pessoas que conseguem acumular capital ao longo do tempo, que eu batizei carinhosamente de ”cacoete de rico”.

Mas o que seria isso? Primeiro, vamos relembrar o significado de cacoete: os principais sinônimos de cacoete são “mania, gesto repetitivo, costume ou trejeito característico de uma pessoa, expressões ou atos que tendem a ser repetitivos e que podem se transformar em vícios”.

Podemos dizer então que cacoete de rico é ter mania de rico, vício de ser rico, ou fazer gestos repetitivos que imitam os ricos? Digamos que pode ser mais ou menos isso, mas não é bem isso. 

Para começar a entender essa característica que considero inerente às pessoas ricas, é importante reforçar que não estou me referindo a pessoas que sabem ganhar dinheiro, e sim tratando de pessoas que criam e mantém riqueza. São assuntos correlatos, mas coisas distintas. Ganhar dinheiro é uma coisa, criar e manter riqueza é outra bem diferente.

Você pode pesquisar à vontade, pois existem milhares de histórias de pessoas que ganharam muito dinheiro e acabaram na miséria. O próprio processo de ganhar e perder dinheiro, e como as pessoas lidam com isso, já nos fala muito sobre a personalidade dos envolvidos nessas histórias.

Os atos de criar e manter riqueza estão ligados a outras eficiências e padrões cognitivos, que são diferentes daqueles relacionados às pessoas boas em fazer dinheiro. Algumas possuem ambas as capacidades, mas a maioria, apenas uma parte, ou nenhuma delas.

Vamos pensar em duas situações e nas respostas que teríamos para elas:

Se alguém colocar na sua frente o carro dos seus sonhos, lindo e maravilhoso, e o valor deste carro em dinheiro, e pedir para você escolher entre um ou outro, de presente, você escolhe o carro ou o dinheiro? Pense em qual seria a sua atitude.

Se alguém lhe perguntar quanto vale um terreno de 1000 m2 bem no meio do deserto do Saara, sem nada em volta, e quanto vale um outro, igual, bem no meio da ilha de Manhattan, em Nova Iorque, qual será a sua resposta?

A maioria das pessoas que ganha muito dinheiro o faz com segundas intenções: comprar uma casa melhor ou um belo carro, adquirir mais bens materiais, pagar a faculdade dos filhos, satisfazer vaidades pessoais, ostentar para os amigos e família, e outras coisas mais.

O que percebi ao longo dos anos observando pessoas ricas, é que elas possuem certas emoções e padrões cognitivos diferentes da maioria, mas comuns entre elas, que foram determinantes nas suas histórias de prosperidade. E tudo começa com uma simples constatação: ELAS GOSTAM DE DINHEIRO.

As preocupações e emoções dos que buscam o dinheiro como um meio são diferentes dos sentimentos que movem as pessoas que enxergam o dinheiro como um fim. E porque falar em emoções e não em atitudes e habilidades? Porque atitude e habilidade as pessoas que ganham dinheiro já tem. Não é isso que falta a elas. Ou você acha que ganhar dinheiro honestamente é fácil?

Criar e manter riqueza precisa de algo diferente: por isso que estamos falando em emoções. A emoção, como se diz na minha terra, é a mão que segura a rédea que conduz o cavalo (ou o burro, conforme o caso e o tipo de emoção).

Em outras palavras: a emoção vem em primeiro lugar. Toda a ação é precedida do pensamento e do sentimento. Em quase tudo na vida. A maneira como você pensa e reage diante do dinheiro é que define se você possui cacoete de rico ou não.

E por mais que gostar de dinheiro possa parecer um sentimento frio em relação à vida, as pessoas que pensam assim, paradoxalmente, desenvolvem ao longo do tempo um estilo de vida mais frugal, desapegado em relação aos bens materiais, justamente por aprender a abrir mão destes para ter a segurança financeira desejada. Descobrem com o tempo que o cúmulo do refinamento é a simplicidade. Aprendem com a vida.

E as perguntas acima? Vamos às respostas?

Primeira: entre o carrão e o dinheiro, quem tem cacoete de rico prefere o dinheiro, sempre, e isso vale para o carro, o apartamento, obras de arte, joias, terrenos. Quem gosta de dinheiro quer ter o controle do dinheiro, e não abre mão das inúmeras possibilidades que o dinheiro proporciona. Quer ter o poder de decisão sobre o dinheiro. Nunca esqueça que o dinheiro é ótimo para proporcionar coisas que não dependem essencialmente dele. O dinheiro permite comprar o tempo, as habilidades e a produção de outras pessoas, ou seja, o suor alheio. É aí que reside o seu imenso valor. É por isso que as pessoas que entendem de dinheiro respeitam o dinheiro.

Segunda: o valor dos terrenos depende do seu destino, ou seja, daquilo que se pretende fazer com eles. Se ficarem parados no tempo, valem a mesma coisa, ou seja, nada. Agora, se você pretende fazer algo com eles, usá-los de forma construtiva para gerar renda, bem, é certo que o terreno em Manhattan vale muito mais que os mil metros de areia no Saara. A não ser que você encontre petróleo ou diamantes por ali, e mesmo assim, terá custos altíssimos para colocar a mão nessa loteria.

E também não esqueça que preço e valor são coisas bem diferentes.

Preço é a quantidade de unidades monetárias que alguém pede por algo. Valor é a capacidade de alguma coisa gerar renda. O que define o valor é a capacidade de geração de renda de um bem ou meio de produção. É a renda que dá valor aos bens e não o contrário. De que adianta imobilizar um milhão de dólares em uma cobertura e depois não ter renda para pagar o condomínio. A renda vem primeiro, sempre.

E então, você gosta mais de comprar ou de poupar? Gosta mais de bens e produtos ou de dinheiro? Você é capaz de entender a diferença entre preço e valor? Pense um pouco a respeito. Voltaremos ao assunto em outro post.

sábado, 17 de novembro de 2018

Auditoria nas demonstrações contábeis: a qualidade dos ativos e a geração de caixa – parte 2

Dando continuidade ao nosso trabalho de auditoria voltado para as demonstrações contábeis, iniciado no mês anterior, vamos começar agora a destrinchar as rubricas contábeis analíticas e grupos de rubricas que formam o balanço patrimonial, a demonstração do resultado do exercício e os balancetes periódicos.

Vamos analisar cada grupo de contas e também algumas rubricas individualmente, pela sua importância, comentando detalhadamente os motivos pelos quais devem ser rigorosamente observadas, quando se deseja concluir sobre a qualidade e a influência dos valores ali contabilizados para a geração de caixa do negócio.

É importante relembrar que o objetivo na nossa auditoria é tentar medir a robustez dos investimentos de curto e longo prazo e sua capacidade em gerar caixa e lucro operacional.  A qualidade dos saldos das rubricas e a indicação dos riscos que podem comprometer os resultados esperados serão determinantes na análise.

Os dois principais aspectos que contemplam a análise da qualidade de cada rubrica, além da legitimidade dos lançamentos, é claro, são (a) a capacidade de realização dos direitos de curto e longo prazo (Ativo) e (b) o tempo estimado para a realização de direitos (Ativo) e desembolso de obrigações (Passivo).

A geração de caixa deve ocorrer antes ou concomitantemente às despesas de curto prazo, de preferência em valores superiores a estas, para a formação de margem operacional positiva. Caso contrário, a empresa terá de buscar rapidamente recursos para suprir o caixa, numa situação de urgência que geralmente importa em valores onerosos e de curto prazo, que comprometem ainda mais o caixa futuro do negócio.

As técnicas de auditoria normalmente utilizadas nestes casos são a análise documental, a observação direta, a entrevista, a circularização, a conciliação e a contagem física.

A análise das notas explicativas das demonstrações financeiras também é muito importante para nos indicar o “caminho das pedras” e para entendermos muitas coisas que acontecem no dia-a-dia dos negócios e que não aparecem nos números. Falaremos sobre elas mais adiante.

Vamos começar então pelas contas do Ativo. Como vimos no artigo anterior, temos dois grandes grupos que formam os investimentos - também conhecidos como “aplicações de recursos”: o Ativo Circulante (bens e direitos de curto prazo) e o Ativo Não Circulante (direitos de longo prazo e investimentos de caráter permanente).

O Ativo Circulante (AC) pode ser subdividido em dois grupos: Ativo Circulante Financeiro (ACF) e Ativo Circulante Cíclico ou Operacional (ACC ou ACO). O ACF é formado pelos saldos das rubricas financeiras, que demonstram as disponibilidades imediatas da empresa, os valores em espécie. O ACC é formado pelas contas cíclicas, cujas transações comerciais, industriais ou de serviços se repetem no tempo (aspecto cíclico) e estão vinculadas à operação, ao negócio.



Pode-se dizer que o ACF é composto por disponibilidades financeiras e sobras de caixa resultantes de margem operacional positiva, que podem ser utilizadas e remuneradas ao longo do tempo. Por outro lado, o ACC é composto por valores que a empresa poderia ter em caixa, mas que estão em mãos de terceiros (clientes, fornecedores) ou imobilizados em estoques, dentro da própria empresa. São financiamentos concedidos pela empresa a terceiros e a ela própria, que possuem um custo operacional, claro.



É fundamental analisar como a empresa administra suas contas financeiras e cíclicas (operacionais), tanto no Ativo Circulante como no Passivo Circulante – que veremos mais tarde - uma vez que a má administração desses capitais pode comprometer o fluxo de caixa positivo do negócio. Uma empresa que financia muito seus clientes e o próprio estoque, quando este não gira rapidamente, pode comprometer suas reservas imediatas e precisar  de empréstimos bancários para cumprir seus compromissos, pagando juros altos, que impactam seus ganhos. 

Os conceitos financeiro e cíclico são determinantes em um trabalho de auditoria que visa concluir sobre a qualidade e importância das rubricas contábeis de curto prazo para a formação do fluxo de caixa e do lucro operacional, uma vez que fornecem informações sobre a necessidade de capital de giro do negócio (NCG) e sobre o capital de giro gerado pela empresa (CDG).

1- Ativo Circulante:

- Disponibilidades (ACF)

São aqueles recursos imediatos à disposição da empresa para fazer frente ao giro dos negócios, tais como saldos em contas correntes nos bancos, aplicações financeiras de curto prazo com resgate flexível, caixa mantido na própria empresa, cheques à vista ainda não sacados, e outros bens e direitos que podem ser transformados em recursos em espécie imediatamente.

Representam o “sangue” dos negócios, o curtíssimo prazo, que garante o pagamento das despesas diárias e das compras necessárias e serve de lastro para emergências e manutenção do fluxo de caixa em caso de contratempos. É importante certificar-se que aplicações financeiras sejam realmente de liberação imediata em caso de necessidade e classificar as aplicações de acordo com o risco e prazo.

Cuidado com aplicações em renda variável ou em fundos multimercado. Não é aconselhável este tipo de aplicação financeira para empresas, ainda mais se forem efetuadas com recursos do giro dos negócios (risco de perdas).

- Duplicatas a Receber ou Clientes (ACC)

É a parcela das vendas de produtos e serviços que não foi paga à vista pelos clientes. São financiamentos concedidos pela empresa aos clientes. Somente devem ser contabilizadas nesta rubrica aquelas vendas a prazo que serão recebidas nos próximos meses. As vendas parceladas acima de 12 meses devem ser contabilizadas no ANC (ativo não circulante), por serem direitos de longo prazo.

O pulo do gato aqui, em termos de auditoria da qualidade dos saldos, é aferir mensalmente a variação desta rubrica, através da análise de relatórios gerenciais e documentos (balancetes, saldos a pagar e a receber, títulos, duplicatas, notas fiscais, cheques, faturas de cartões), para detectar oscilações importantes nos saldos e manutenção de saldos e clientes por muito tempo, repetidamente, fatos que podem indicar a permanência de valores incobráveis e inadimplência.

O correto seria a contabilização em direitos de longo prazo (atrasos de clientes) ou a baixa destes valores (irrecuperáveis). Porém, muitas vezes a empresa mantém estes recursos no curto prazo, propositalmente, inflando os números reais, para não assustar investidores com baixas e quedas bruscas de investimentos, ou também para simular uma situação de recebíveis superiores à realidade, quando precisa buscar mais financiamentos junto a credores (impacto na margem de crédito junto aos credores).

- Adiantamentos a Fornecedores (ACC)

São financiamentos que a empresa concede aos seus fornecedores para cumprir cláusulas contratuais, quando são obrigadas a receber cotas de produção/mercadorias (revendedoras, franquias) ou para garantir o recebimento de produtos ou matérias primas por diversas causas (alta demanda e concorrência, carência sazonal ou permanente).

Também pode sinalizar que a empresa auditada não possui mais a confiança dos fornecedores, por inadimplência ou atrasos constantes nos pagamentos, tendo que pagar antecipado para garantir a entrega de matérias primas e produtos.

Muita atenção a esta rubrica e ao aumento de saldos constantemente ao longo do tempo. Situações sazonais são permitidas e até comuns em alguns ramos de atividade. O importante é medir o comprometimento do caixa com fornecedores e o nível de dependência da empresa em relação a estes.

- Estoques (ACC)

Nas indústrias, os estoques são formados por matérias-primas, produtos em elaboração e produtos acabados, e no comércio atacadista e varejista pelas mercadorias adquiridas e ainda não vendidas. Os estoques também são chamados de financiamentos concedidos pela empresa (a ela própria), pois os valores ali parados possuem um custo financeiro embutido até serem comercializados e transformados em dinheiro.

É preciso mensurar o giro dos estoques e comparar com os prazos de compras e de vendas, para concluir sobre o ciclo operacional e financeiro de produção, para entender a política de compras e vendas da empresa.

Os estoques com baixo giro e as vendas parceladas em prazos longos devem ser financiadas com recursos de longo prazo e jamais com recursos de curto prazo, sejam próprios ou de terceiros. Atentar para valores em estoques que representem produtos deteriorados, obsoletos ou defasados, ou seja, invendáveis, e que já deveriam ter sido baixados da rubrica contábil.

- Outros Valores a Receber (pode ser ACC, mas nunca ACF)

Esta conta envolve outros direitos a serem recebidos pela empresa que não possuem rubrica específica, tais como empréstimos e “vales” a sócios, dirigentes, empregados ou terceiros, venda a prazo de bens, imóveis ou utensílios não vinculados aos produtos comercializados pela empresa, acertos de contas entre sócios e a empresa ou entre empresas do grupo, dentre outros.

Muito cuidado com essa rubrica. Pode ser um “saco de gatos”, envolvendo valores suspeitos, de difícil realização. Atenção para valores elevados e saldos que permanecem por mais de um exercício registrados nesta conta, sem serem tratados, e que deveriam ser transferidos para o ANC ou simplesmente baixados. O importante é separar o joio do trigo e saber quando o trigo será dinheiro.

Pois bem, estas são as principais contas que formam o Ativo Circulante das empresas em geral. Claro que determinados setores e ramos de atividade possuem algumas rubricas diferenciadas, com nomenclatura específica. Nestes casos, é necessário estudar o setor e a atividade a ser auditada em um trabalho de pré-auditoria ou análise preliminar, conforme o caso. De qualquer forma, a essência da classificação das contas não muda (financeiras e cíclicas).

Vamos parar por aqui para não estender demais o artigo e poder digerir melhor as informações. No próximo post, trataremos das contas do Ativo Não Circulante e da sua relação – ou não - com a formação do resultado operacional.

Quanto custa?

O velho ditado diz: tudo na vida tem seu preço. Costumo acrescentar: tudo na vida, que está à venda, tem seu preço. Aquilo que está à ve...