domingo, 1 de outubro de 2017

As empresas de fachada e a lavagem de dinheiro no sistema financeiro – parte 3

O Estudo de Caso do Hotel Verdes Notas

A seguir será apresentado um estudo de caso que envolve um ramo de atividade e um empreendimento considerados facilitadores para a consecução dos crimes precedentes aos crimes de lavagem. A partir de um contexto e sequência de fatos, se demonstrará de que forma recursos obtidos de forma ilícita são disfarçados em supostas transações comerciais ou de prestação de serviços.

Informações gerais e contexto:

O Hotel Verdes Notas está localizado em uma cidade média do sul do Brasil, com população aproximada de 350.000 habitantes. A cidade é um polo regional na área de saúde e educação. Possui universidade federal e boas faculdades privadas, além de grandes hospitais e ótimas clínicas particulares. A cidade não faz parte da rota turística da região.

A economia da região é baseada no setor terciário, no comércio e serviços em geral, com boa rede de serviços bancários. Também existe um setor primário bem desenvolvido, com ênfase para a pecuária extensiva e as culturas de soja e arroz. Apenas o setor secundário, industrial, ainda carece de maior desenvolvimento, sendo que as poucas indústrias existentes são aquelas ligadas ao agronegócio (implementos agrícolas, construção de armazéns e silos, secadores, dentre outros).

O setor hoteleiro possui algumas limitações em função da falta de vocação da cidade para o turismo e da dependência da região dos negócios oriundos da agropecuária. É característica do setor uma ocupação mais alta em dias úteis e maior vacância de leitos em finais de semana e feriados, quando os negociantes e representantes comerciais voltas às suas origens. O setor ainda sofre com as crises que envolvem as safras de arroz e soja - quando chove demais ou de menos – que levam à redução dos recursos que fazem os negócios “girarem”.

Na cidade existem em torno de dez hotéis considerados aptos a fornecerem serviços de hospedagem dignos por preços acessíveis ou compatíveis com os serviços prestados. Destes, três são considerados de baixo custo, apenas para pernoite, enquanto seis podem ser classificados como médios, mais novos e com melhores serviços de hospedagem e alimentação.

Apenas um destes hotéis, o Hotel Verdes Notas, é considerado de maior porte, sendo um dos mais antigos da cidade e região, com diárias mais caras e serviços mais completos. Entretanto, por ser mais antigo, também possui instalações mais antiquadas e um custo de manutenção mais alto.

Nos últimos anos, o Hotel VN passou por reformas que o tornaram mais adequado às novas exigências sanitárias e de segurança, e também para poder concorrer com os novos hotéis, menores, porém mais modernos e adequados aos novos tempos e exigências dos clientes, com preços mais compatíveis.

Mesmo passando por adaptações nos últimos anos, o Hotel VN não conseguiu reverter uma situação crônica de descontrole financeiro e carência de capital de giro, sendo vendido para um empresário de outra região, desconhecido na cidade, ligado ao ramo de entretenimento, com negócios relacionados danceterias, motéis e restaurantes.

Nos dois últimos anos, o hotel passou por novas reformas e começou a mostrar sinais de recuperação, atuando fortemente na mídia, com maior oferta de promoções, propagandas em rádio, televisão e internet, e com a realização de eventos como shows, palestras e seminários.

Informações operacionais:

O hotel possui cerca de 120 apartamentos distribuídos em dez andares, com estacionamento privativo e restaurante no térreo, além de serviços de café da manhã, lavanderia e tele-entrega, dentre outros. As diárias cobradas variam de R$ 200,00 (apartamentos mais simples para uma ou duas pessoas) a R$ 450,00 (suítes para casais), passando por apartamentos de luxo com diárias de R$ 320,00. São 70 apartamentos simples, 30 apartamentos de luxo e 20 suítes.

A taxa de ocupação histórica é de 45% a 50% nos apartamentos simples e de luxo, e de 20% nas suítes, um problema crônico relacionado com as características da cidade (renda per capita média, cidade não turística, baixa ocupação nos finais de semana e alta dependência do agronegócio) e também em  função da concorrência, com hotéis de menor custo, mais novos e modernos. Os dados referem-se aos três últimos anos antes da troca da administração do hotel, não considerados os últimos dois anos da nova administração.

Desta forma, o faturamento médio histórico do hotel pode ser evidenciado conforme a seguir:

Quadro 1 - Faturamento histórico real do empreendimento – Em reais
NÚMERO DE LEITOS
TIPO
TAXA DE OCUPAÇÃO
EM %
VALOR DA DIÁRIA
OCUPAÇÃO MÉDIA DIÁRIA
OCUPAÇÃO MÉDIA MENSAL
OCUPAÇÃO MÉDIA ANUAL
70
Apartamento simples
47,5
200,00
6.650,00
199.500,00
2.394.000,00
30
Apartamento luxo
47,5
320,00
4.560,00
136.800,00
1.641.600,00
20
Suíte
20
450,00
1800,00
54.000,00
648.000,00




13.010,00
390.300,00
4.683.600,00

Detalhamento dos cálculos:
- apartamentos simples: 70 apartamentos x 47,5% x R$ 200,00 = R$ 6.650,00;
- apartamentos luxo: 30 apartamentos x 47,5% x R$ 320,00 = R$ 4.560,00;
- apartamentos suíte: 20 apartamentos x 20% x R$ 450,00 = R$ 1.800,00;
- montante médio de ocupação diária = R$ 13.010,00;
- montante médio de ocupação mensal = R$ 390.300,00;
- montante médio de ocupação anual = R$ 4.683.600,00 (faturamento médio anual)

Após a troca da administração, o Hotel Verdes Notas passou a apresentar um índice de ocupação médio superior aos anos anteriores, preservando os valores das diárias que vinham sendo praticados. A taxa média de ocupação saltou de 47,5% para 85%, inclusive para as suítes, que possuiam ocupação média de apenas 20%.

Assim, os números do hotel passaram a outros patamares, conforme detalhado a seguir:

Quadro 2 - Mensuração do faturamento fictício do empreendimento – Em reais
NÚMERO DE LEITOS
TIPO
TAXA DE OCUPAÇÃO EM %
VALOR DA DIÁRIA
OCUPAÇÃO MÉDIA DIÁRIA
OCUPAÇÃO MÉDIA MENSAL
OCUPAÇÃO MÉDIA ANUAL
70
Apartamento simples
85
200,00
11.900,00
357.000,00
4.284.000
30
Apartamento luxo
85
320,00
8.160,00
244.800,00
2.937.600,00
20
Suíte
85
450,00
7.650,00
229.500,00
2.754.000,00




27.710,00
831.300,00
9.975.600,00

Detalhamento dos cálculos:
- apartamentos simples: 70 apartamentos x 85% x R$ 200,00 = R$ 11.900,00;
- apartamentos luxo: 30 apartamentos x 85% x R$ 320,00 = R$ 8.160,00;
- apartamentos suíte: 20 apartamentos x 85% x R$ 450,00 = R$ 7.650,00;
- montante médio de ocupação diária = R$ 27.710,00;
- montante médio de ocupação mensal = R$ 831.300,00;
- montante médio de ocupação anual = R$ 9.975.600,00 (faturamento médio anual dos últimos dois anos)

No próximo artigo você conhecerá a verdadeira história do Hotel Verdes Notas, saberá como a nova gestão conseguiu aumentar surpreendentemente o faturamento do empreendimento e descobrirá o verdadeiro motivo que determinou a compra do hotel pelo atual proprietário.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

As empresas de fachada e a lavagem de dinheiro no sistema financeiro – parte 2

Dando sequência ao assunto sobre a utilização de empresas de fachada no processo de lavagem de capitais, é fundamental refletir sobre as atividades empresariais consideradas atraentes como disfarce aos chamados crimes precedentes, que antecedem os crimes de lavagem propriamente ditos.

Conforme estudo do Coaf (1999), são citados como exemplos de setores da economia mais visados para a lavagem de dinheiro as instituições financeiras, os paraísos fiscais, as bolsas de valores, as companhias seguradoras, o mercado imobiliário, os cassinos, casas de jogos e os institutos de loterias e sorteios, dentre outros.

O professor Marco Antônio de Barros (2004) refere-se a esses setores como “mecanismos de lavagem de dinheiro", e cita também os bancos em geral (incluindo bancos comerciais, bancos privados e caixas de poupança), as corretoras de ações ou de mercadorias, os bancos de investimento (através de fundos mútuos, por exemplo), as empresas operadoras de câmbio, as transações internacionais relacionadas às agências de viagens, as casas de penhores, o mercado de metais preciosos, os vendedores de veículos no varejo (inclusive automóveis, aeronaves e barcos) e o comércio de imóveis, em geral.

Especificamente no caso das instituições financeiras, que possuem obrigação legal de manter controles sobre movimentações consideradas suspeitas, é preciso ainda reforçar a importância do aspecto “conheça seu cliente”, relacionado aos registros cadastrais e econômicos/financeiros dos clientes pessoas físicas e jurídicas, mantidos nessas instituições, que devem ser atualizados periodicamente.

É importante recordar que os setores acima mencionados se referem aos crimes de lavagem de dinheiro cometidos para dissimular valores auferidos de forma ilícita em crimes precedentes, como tráfico de drogas e armas.

São justamente estes crimes que se pretende focar agora, com o objetivo de enfatizar os ramos de atividade empresarial utilizados nesta fase, que antecede a etapa da dissimulação dos recursos ilícitos na cadeia da lavagem de capitais.

No estudo intitulado “Os cem casos de lavagem de dinheiro”, realizado pela Unidade de Inteligência Financeira do Grupo de Egmont[i], do qual o Coaf é integrante desde 1999, chegou-se à seguinte conclusão em relação à ocultação dentro de estruturas empresariais:

A primeira tipologia é caracterizada por esquemas de lavagem que procuram ocultar os recursos de origem criminosa dentro das atividades normais de empresas controladas pela organização criminosa.

Em primeiro lugar, o criminoso tem maior controle sobre a empresa usada, quer por causa de uma propriedade benéfica (beneficial ownership), quer por causa de uma ligação estreita com o devido proprietário efetivo – o que reduz o risco de vazamento de informações para as autoridades de repressão de dentro da própria empresa.

Em segundo lugar, a instituição financeira usada para fazer as transações tende a não desconfiar tanto de grandes flutuações de saldo na conta de uma empresa: grande parte das pessoas que trabalha com serviços financeiros já espera altos e baixos durante o ciclo de negócios. Mas se a flutuação ocorresse na conta de uma pessoa física, as suspeitas seriam bem maiores.

Em terceiro lugar, as empresas geralmente têm razões legítimas para transferir recursos de/para outras jurisdições e em diferentes moedas. Isso reduz ainda mais a probabilidade de gerar suspeitas nas instituições financeiras.

Em quarto lugar, várias empresas – como boates e restaurantes – lidam principalmente com dinheiro em espécie e por isso as instituições financeiras não considerarão tão suspeitos grandes depósitos em espécie.

Em quinto lugar, os vínculos entre os criminosos e a empresa podem ser ocultos pelos estatutos sociais das empresas (company ownership structures), enquanto a abertura de uma conta pessoal geralmente requer a apresentação de documentos específicos de identificação pessoal.

Dentre os cem casos relatados, a maioria se encaixa nesta categoria. Isso indica o grande interesse, dos que vão fazer a lavagem, pelas estruturas empresariais.

Do texto acima, salienta-se as observações sobre a menor desconfiança gerada nas movimentações de empresas e sobre as movimentações em espécie, no setor de serviços, dificultarem a fiscalização dos seus fatores geradores de caixa.

Com base nos fatos relatados, pesquisas e estudos descritos, chega-se à proposição ora apresentada para os setores e ramos de atividade considerados mais ou menos sensíveis aos crimes precedentes à lavagem de dinheiro.

No quadro abaixo estão listados os referidos setores da economia, com a indicação de fatores de risco a serem considerados, conforme a atividade empresarial desenvolvida e a possibilidade de seu uso como ferramenta para a lavagem de capitais:

SETOR DA ECONOMIA
RAMOS DE ATIVIDADE
FATOR DE RISCO
PRIMÁRIO EM GERAL
Atividades pastoris, de produção e comercialização em geral, cujos processos são majoritariamente manuais, que dificultam a fiscalização da formação, manutenção e giro dos produtos envolvidos
MÉDIO
SECUNDÁRIO EM GERAL
Atividades industriais, de produção, transformação e comercialização no atacado, cujos processos de produção são considerados maduros e possibilitam um nível de fiscalização constante e adequado por parte dos órgãos reguladores
BAIXO
SECUNDÁRIO DO AGRONEGÓCIO
Atividades de transformação e beneficiamento de produtos do agronegócio, cujos processos industriais ainda não foram integralmente informatizados e aceitam intervenções manuais, além de possuírem características sazonais que dificultam a fiscalização da formação, manutenção e giro dos estoques de produtos in natura ou já beneficiados
MÉDIO
TERCIÁRIO EM GERAL
Atividades de comercialização de produtos terciários e de serviços em geral, predominantemente aquelas não dependentes de formação de estoques e que possuem alto giro de valores e rápido fluxo de capitais, que dificultam a fiscalização dos fatores geradores de caixa e de transações financeiras e de serviços em geral, por parte dos órgãos fiscalizadores
ALTO

No próximo post apresentaremos um estudo de caso que envolve um ramo de atividade empresarial considerado facilitador para a consecução dos chamados crimes precedentes.

A análise demonstrará de forma clara e simples de que maneira uma empresa de fachada é utilizada para esconder recursos obtidos de forma ilícita e, em sequência, dar-lhes a aparência de dinheiro legal, supostamente obtido através de transações de negócios.

______________________________________________________________________
i. Organismo internacional constituído em 1995 em Bruxelas - Bélgica, que reúne atualmente um grupo de 147 unidades de inteligência financeira (FIUs, na sigla em inglês) cujo objetivo é incrementar o apoio aos programas nacionais de combate à lavagem de dinheiro dos países que o integram.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Estrada & Panela – Vorrebbe cenare bene a Capri?

Nos últimos anos tive a oportunidade de estar em Capri duas vezes num intervalo de poucos meses. Mesmo sendo viagens não planejadas, que aconteceram no desenrolar de outras atividades e projetos vividos na Itália, confesso que foram verdadeiros presentes do destino.

Se fosse um roteiro pensado e planejado, não decidiria ir ao mesmo lugar duas vezes em tão pouco tempo, dada a quantidade de lugares magníficos que existem nesse mundo para se conhecer.

Não que Capri não mereça ser visitada sempre. Pela sua beleza e glamour, vale cada hora da sua vida dedicada a ela. Você não se decepcionará.

Não sou agente de viagens, mas gostaria de lembrar que o sul da Itália é belíssimo, as águas do Mar Tirreno são quentes e tranquilas, a Costa Amalfitana é um verdadeiro cartão postal, e Capri, junto com Procida e Ischia, são as estrelas do espetáculo. E gostaria de aproveitar também para dar uma dica para uma buonissima cena.

Depois de um dia cheio de belezas para ver e curtir é chegada a hora de relaxar e escolher aquele restaurante especial para fechar o dia em grande estilo: o tradicional Ristorante Faraglioni, uma indicação do maitre do hotel onde estava hospedado. A comida é ótima, saborosa, com pratos clássicos da Itália e da Ilha, porém sem surpresas para um lugar em que tudo é ótimo. O que conta mesmo é o ambiente, a brisa do Mediterrâneo e o clima “caprese” do lugar.

O restaurante se encontra no final da Via Camerelle, talvez a rua mais famosa de Capri, que começa na esquina do Grand Hotel Qvisisana e se estende até a Galleria Tragara, onde começa a Via Tragara, que vai até um pequeno porto, bem em frente aos famosos Faraglioni. A Via é passagem obrigatória para quem vai à Ilha, por onde já transitaram algumas das maiores celebridades do planeta, como Bridgitte Bardot, Jacqueline Kennedy Onassis, Valentino, Rei Juan Carlos, Sofia Loren, Enzo Ferrari e Gianni Agnelli, dentre outras grandes estrelas.

Procure reservar antes ou chegar bem cedo para pegar uma das mesas na parte externa do restaurante, mais parecidas com “casinhas”, com seus tetos de madeira charmosos e aconchegantes, iluminados por pequenos abajures ou velas. Ao lado das casinhas apenas árvores, o penhasco e o mar...

E não se esqueça de um bom vinho nacional para acompanhar. Pode ser um Chianti Classico, um Montepulciano d’Abruzzo, um Rosso di Montalcino ou um bravíssimo Brunello. O preço de tudo isso? Não lembro. Sei que não é barato, mas esses são os momentos da vida em que devemos gastar sem culpa. É um investimento em nós mesmos. Temos todo o resto do ano para sermos racionais e econômicos.



Para maiores informações acesse http://www.faraglioni.com

As empresas de fachada e a lavagem de dinheiro no sistema financeiro – parte 1

O que são os chamados crimes precedentes? Porque é mais fácil lavar dinheiro movimentando  contas de pessoas jurídicas? Quais as diferenças entre empresas fictícias e empresas de fachada? Quais os ramos de atividade empresarial mais propícios à consecução dos crimes precedentes aos crimes de lavagem? Qual o modus operandi mais indicado, via sistema financeiro, para os criminosos dificultarem o rastreamento de valores ilícitos?

Estas são algumas questões que serão abordadas neste e nos próximos posts, numa tentativa de entender esse mundo que envolve a lavagem de dinheiro e o branqueamento de capitais.

Diferentemente de muitos outros artigos e estudos já publicados sobre o assunto, o foco aqui será a análise de determinados ramos de atividade empresarial que, pelas suas características e peculiaridades, facilitam o disfarce do dinheiro ilícito, ao misturá-lo aos recursos gerados pelas atividades operacionais de um empreendimento legalmente constituído.

Esta técnica de “misturar” o dinheiro sujo com o dinheiro de origem legal é muito comum nas empresas de fachada, utilizadas pelos criminosos para confundir órgãos fiscalizadores e policiais sobre a verdadeira função da empresa e as origens de seus fatores geradores de caixa, dificultando assim a percepção dos negócios ilícitos e o rastreamento da origem dos recursos movimentados.

Neste ponto vale recordar as características que diferenciam uma empresa fictícia de uma empresa de fachada. Uma empresa pode ser considerada de fachada quando é legalmente constituída e realiza transações de negócios, porém sendo utilizada também para contabilizar recursos oriundos de atividades ilícitas. Geralmente a empresa mescla recursos ilícitos com recursos provenientes de sua própria atividade.

Já uma empresa fictícia é constituída apenas documentalmente, somente no papel. Diferentemente da empresa de fachada, não tem nenhuma atividade econômica, sendo utilizada somente para contabilizar recursos provenientes de crimes.

Também é importante lembrar que o crime de lavagem de dinheiro somente ocorre após o cometimento dos crimes conhecidos como antecedentes ou precedentes. Estas tipificações penais estão intimamente ligadas.

Atualmente, o Brasil já se encontra no estágio da chamada terceira geração dos crimes antecedentes, com as novas regulamentações e dispositivos legais promulgados nos últimos anos. Podemos citar, resumidamente, os crimes relacionados ao tráfico de drogas, ao tráfico de armas e aos jogos de azar, como exemplos de crimes precedentes geradores de valores ilícitos que precisam ser “lavados” posteriormente.

Os exemplos e casos relatados baseiam-se em estudos, análises e trabalhos de auditoria no sistema financeiro realizados pelo autor nos últimos 20 anos. O objetivo é servir de estímulo para uma reflexão profunda sobre o assunto, uma vez que a lavagem de dinheiro está intimamente ligada à corrupção e à violência que assola o país e ceifa milhares de vidas todos os anos, destruindo as perspectivas de futuro de muitas gerações.

No Brasil, não existem conflitos geopolíticos ou territoriais para impulsionar o tráfico de armas pesadas, diferentemente do Oriente Médio e norte da África, por exemplo, onde as guerras territoriais e religiosas alimentam a insana e obscura indústria bélica mundial. O tráfico de armas existente no país, que atingiu patamares altíssimos nos últimos anos, existe apenas em função do tráfico de drogas, para manter e reforçar o poder das facções criminosas.

É por isso que insisto na tese de que um programa efetivo de combate ao tráfico de drogas no Brasil reduzirá sensivelmente o tráfico de armas e a violência em geral, pois todos esses crimes estão interligados, em maior ou menor grau.

Nos próximos posts exploraremos melhor a situação das pequenas e médias empresas neste contexto, analisando de que forma podem ser utilizadas como ferramentas para a consecução dos crimes precedentes e de que maneira alguns setores e ramos de atividade empresarial contribuem para facilitar a vida dos meliantes. Sempre lembrando que o sistema financeiro possui responsabilidades legais e relevantes no combate aos referidos crimes. 

sábado, 26 de agosto de 2017

O momento em que a galinha perde a voz

É possível que nas organizações existam gestores que não são líderes? É possível que existam líderes que não são gestores? É possível que os gestores sejam também líderes? Ou que as organizações nem percebam seus verdadeiros líderes? Acredito que a resposta para todas as perguntas seja sim.

Há uma farta literatura sobre a formação de líderes e gestores, mas pode-se aceitar que, para alguém ser considerado um líder, deve conquistar o respeito e a confiança dos seus colegas.

Da mesma forma, e em consequência da confiança e do respeito, deve existir a representatividade, ou seja, seus colegas ou subordinados precisam se sentir representados pelo seu líder. Ninguém se sente representado por alguém que não confia ou não respeita.

Por fim, quando um grupo se sente representado por alguém que conquistou sua confiança e respeito, pode-se dizer que essa pessoa é um legítimo representante desse grupo. Daí a questão da legitimidade.

Então, podemos concluir que a liderança exige, no mínimo, três requisitos básicos: o respeito/confiança, a representatividade e a legitimidade. Veja que ainda não estamos falando em competência e capacidade.

Agora, com muita calma, vamos fazer um exercício de “engenharia reversa”. A legitimidade vem da representatividade e a representatividade vem da confiança e do respeito. Assim pergunta-se: como um profissional deve atuar para conquistar a confiança e o respeito das pessoas com as quais se relaciona em seu trabalho?

O respeito e a confiança nascem e se fortalecem através das relações humanas cotidianas vivenciadas por um grupo em um ambiente de trabalho. Pode-se dizer que é a viga mestra de uma construção muito lenta que sustenta relações interpessoais muito instáveis, onde diversos interesses se cruzam e muitas vezes se conflitam, em ambientes onde circulam a concorrência, a inveja, a vaidade, o egocentrismo, o excesso de individualismo, e muito mais.

São ambientes em que muitas carreiras são construídas através da imagem, do relacionamento privado e do marketing pessoal, onde os princípios éticos, a qualidade dos trabalhos e a imparcialidade das decisões tornam-se menos importantes.

O mundo empresarial não é justo, ganha-se aquilo que se negocia. Esta é uma velha frase que ouvi muito tempo atrás, mas que é sempre atual. É como a história da galinha e da pata. O ovo da pata é melhor, maior e com mais nutrientes, mas a pata trabalha silenciosamente, é muito discreta. Já a galinha, embora ofereça um produto de menor qualidade, canta mais e faz um barulho imenso, anunciando “seu produto”.

É claro que a pata é melhor, mas a galinha aparece mais. E no mundo empresarial ainda temos as galinhas que terceirizam a produção. Nem ovos produzem, apenas cantam e se aproveitam de “ovos” produzidos por outros.

Nenhum gestor será líder se não conhecer a função que gerencia. Nenhum gestor conquistará a confiança e o respeito de uma equipe enquanto precisar “comer na mão de alguém” que conhece mais do que ele. Nenhum gestor será líder enquanto não for ele próprio um exemplo a ser seguido, tanto em ética e princípios como em competência e capacidade para exercer a função para a qual foi designado.

Um gestor não precisa ser operacional, não precisa e não deve “colocar a mão na massa”. Um gestor deve gerenciar e administrar uma série de fatores que envolvem o dia-a-dia dos negócios. Entretanto deve saber fazer, precisa ter o conhecimento daquilo que gerencia. Ninguém adquire competência e capacidade sem a experiência profissional naquilo que pretende gerenciar.

Você não precisa fazer, mas se você manda e não sabe fazer, suas hesitações e contradições logo transparecerão e serão percebidas como fraquezas. Você será desacreditado pelas pessoas que o rodeiam e será muito difícil reverter essa situação. Você perde, a equipe perde e a organização perde. Em uma situação dessas não há ganhadores. É o momento em que a galinha perde a voz.

A formação profissional é muito importante para a gestão, mas só a experiência profissional é capaz de nutrir a confiança e o respeito. O seu MBA ou o seu Doutorado não serão respeitados se você não demonstrar que entende daquilo que fala.

Esse é um grande desafio imposto às organizações: conseguir mensurar a experiência profissional e o quanto ela impacta a formação de líderes. Como quantificar, estratificar e qualificar a experiência profissional, principalmente daquele colaborador que já trabalha na empresa ou na área? Como implantar uma metodologia que possa medir essa experiência profissional, que vai se formando ao longo do tempo pelos trabalhos realizados, pela diversidade de situações vividas no ambiente de trabalho, pelas diversas unidades, setores e departamentos por onde atuou?

É desta forma que se faz um gestor que também será respeitado pelos seus pares e subordinados. É desta forma que a representatividade e a legitimidade se dará.

Lembram-se das perguntas iniciais formuladas?

Uma empresa que tem gestores que não são líderes, ou que não percebe ou valoriza seus verdadeiros líderes, estará, no longo prazo, desestruturando sua organização interna, aumentando seu retrabalho, destruindo riqueza e, caso não reverta tudo isso, cavando seu túmulo.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Vai um IPO aí?

Porque as grandes empreiteiras nacionais não aproveitaram o “boom” dos IPO entre 2007 e 2013 para abrir o capital?

O que as grandes empreiteiras Odebrecht, Camargo Correa, OAS, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Mendes Junior... têm em comum, além de estarem todas enroladas até o pescoço na Operação Lava Jato?

Algo que ninguém na mídia até hoje percebeu ou comentou. Nenhuma delas aproveitou o período altamente favorável proporcionado nos últimos anos para se tornar uma sociedade anônima de capital aberto e captar recursos no mercado de capitais, uma das melhores e mais baratas fontes de financiamento existentes no mercado, senão a melhor.

Tenho muita curiosidade sobre isso. Ao mesmo tempo em que quase todas as grandes empresas de vários outros setores foram por este caminho, abrindo seu capital através do processo conhecido como IPO – Initial Public Offering, ou Oferta Pública Inicial de Ações, em português - as nossas famosas empreiteiras, gigantes do setor, preferiram continuar no velho modelo.

Mas também tem aquele diabinho sabe, que fica no ouvido da gente perguntando: se eram “donas” do Brasil e mandavam nas empresas públicas e nos políticos que detinham a “caneta das nomeações” e a “chave do cofre” do orçamento, não precisavam mesmo abrir o capital, né? Para que abrir capital se eram “sócias” do maior parceiro comercial que uma empresa pode ter no Brasil: o Tesouro Nacional?

O grande inconveniente de abrir o capital, se transformando em uma sociedade por ações de capital aberto, é ter que aumentar a transparência das operações e divulgar informações relevantes ao mercado. São as regras de governança corporativa, novo mercado e outras, reguladas pelo Banco Central, Bovespa e CVM, dentre outros.

Será que todas estas empreiteiras pesaram os prós e contras e concluíram que era melhor manter suas informações “fechadas” e seguir “mamando” nos recursos públicos sobre os quais tinham ingerência política? É uma pergunta teórica, claro. É o diabinho pensando...

Esta é a minha teoria para explicar os motivos pelos quais estas empresas deram as costas para o mercado de capitais brasileiro no melhor momento que tivemos nos últimos 30 anos: ainda melhor que captar recursos baratos no mercado acionário é poder fazer isso diretamente dos cofres públicos, via BNDES, BB, CEF, fundos governamentais, FGTS, dentre outros, superfaturando obras e pagando propinas a políticos e governantes. Tudo isso financiado com os recursos dos pagadores de impostos, todos nós, como sempre, afinal estamos falando do Brasil, né?

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Você é útil para o PIB do seu país?

Alguma vez você produziu um pé de milho? Alguma vez você produziu um quilo de feijão ou de arroz? Você já fabricou um par de sapatos, ou um prego que seja? Ou talvez tenha produzido uma camisa ou uma calça?

Você já trabalhou como motorista de um caminhão na área de logística e abastecimento, que leva alimentos da distribuidora para o supermercado? Ou atuou em uma empresa que fabrica peças para a produção de máquinas ou veículos?

Se a resposta for não, então temos alguma coisa em comum, pois eu também, em quase 50 anos de vida nunca produzi nada para agregar valor ao PIB do meu país. Todas as atividades citadas nas perguntas acima fazem parte do processo de criação de riqueza do país, de forma direta ou indireta, ou seja, fazem parte da composição do Produto Interno Bruto.

O PIB é a soma de todos os produtos produzidos por uma nação, com algumas regras e alguns conceitos econômicos, matemáticos e estatísticos. Mas, em regra geral, pode-se dizer que o PIB é a soma de toda a riqueza produzida por um país em um determinado período, nos setores primário, secundário e terciário da economia.

Quem produz alimento ou vestuário, por exemplo, está ajudando a aumentar o PIB e a riqueza que é produzida, seja para consumo interno ou para exportação, além de garantir alimento e agasalho para as pessoas.

Como estava dizendo, nunca produzi riqueza para o meu país. Sempre trabalhei no setor terciário da economia, em instituição financeira. O setor de terciário, para existir, depende do setor secundário (produção industrial) e do setor primário (produção de alimentos e derivados, commodities em geral).

Um país com setores primário e secundário desenvolvidos também apresenta setor terciário competitivo e amplo, com diversos serviços a disposição dos consumidores. Por isso que, quando as commodities ou indústria vão mal, o setor de serviços sofre.

Desta forma, existem dois tipos de pessoas na sociedade: aquelas que produzem riqueza (e também consomem a riqueza produzida) e aquelas que somente consomem a riqueza produzida por outros, sem auxiliar no processo de criação e formação da riqueza.

Existem alguns setores, inclusive, que além de não produzirem riqueza, ainda atrapalham quem o faz. É o caso do sistema bancário, onde trabalho, cujos serviços oferecidos - muitas vezes em descompasso com as necessidades dos clientes, e os juros cobrados nos empréstimos - geralmente altos, são um entrave ao financiamento da atividade produtiva e uma das causas dos nossos preços pouco competitivos em relação ao mercado externo, uma vez que os custos de financiamento compõem os custos da atividade produtiva e elevam o preço final dos produtos, juntamente com os excessivos impostos cobrados em várias fases do processo produtivo (deixarei estes para um outro post).

Não é de graça que no Brasil as empresas que mais lucram desde a década de 80 são os bancos. Não se pode esperar muito, nem futuro, de um país em que os intermediários financeiros, que não produzem nada, lucram mais do que os agentes produtivos. Então, para aumentar meu dilema econômico existencial, além de nunca ter produzido riqueza, ainda trabalho em um setor que atrapalha a criação dessa riqueza. É muita tortura.

Mas posso me consolar ao lembrar que tenho consciência desses fatos e que, pelo menos, sempre respeitei e admirei aqueles que “dão duro”, diariamente, para produzir a riqueza que sustenta essa nação e ajudam a compor o orçamento da União, através de todos os impostos diretos e indiretos que “nascem” em consequência da produção de bens e serviços, diferentemente de outras pessoas que nunca produziram nada em suas vidas, vivem somente de consumir a riqueza produzida pelos outros e adoram criticar o sistema produtivo do país, com o rigor e a petulância de quem só enxerga o espelho, sem contribuir com trabalho ou ideias para melhorar a situação.

Vejo muitas pessoas e entidades criticando setores, empresários, agentes produtivos, por este ou aquele motivo. Claro que sempre existem dois lados em uma moeda – às vezes três – mas qual setor, grupo, ou classe é perfeita? Quem não trabalha para defender seus interesses? Sempre existirão pessoas não éticas, sejam patrões, empregados ou agentes públicos.

Aqui faço uma ressalva àquelas profissões que, embora não estejam ligadas direta ou indiretamente à produção de riqueza para a nação, são essenciais para toda a sociedade. São as atividades ligadas à segurança pública, saúde e educação, representadas por médicos, enfermeiros, profissionais de saúde em geral, professores e educadores em geral, policiais, bombeiros e seguranças em geral. São imprescindíveis a todos nós.

Sendo assim, entre a luz e o calor, ainda prefiro aqueles que fazem a diferença para a sociedade e não aqueles que criticam muito e não criam nada, e que vivem daqueles que efetivamente tem valor para a grandeza de uma nação.

Entre sindicalistas, políticos, funcionários públicos, cargos de confiança em órgãos públicos, burocratas em geral e outras profissões - como a minha, que possuem sua função na sociedade, claro, mas não são determinantes para o progresso da nação, saúdo os verdadeiros heróis desse país, que do seu anonimato e silêncio, fazem a diferença e mantém nossas esperanças em dias melhores.

E aí, você faz parte daquele grupo que produz a riqueza que sustenta o país? Meus parabéns e minha gratidão.

Ou você, assim como eu, não cria riqueza, mas reconhece e respeita quem o faz? Sinto por você – e por mim, mas registre-se o bom senso e a sobriedade.

Ou você é, por fim, daquele grupo que não produz riqueza, critica quem o faz, se acha um sabichão e ainda acha que tem razão? Sinto muito por você, mas, lembre-se, nunca é tarde para se reposicionar, aprender e mudar, desde que ainda não tenha perdido o equilíbrio e a humildade.

Quanto custa?

O velho ditado diz: tudo na vida tem seu preço. Costumo acrescentar: tudo na vida, que está à venda, tem seu preço. Aquilo que está à ve...