terça-feira, 26 de setembro de 2017

As empresas de fachada e a lavagem de dinheiro no sistema financeiro – parte 2

Dando sequência ao assunto sobre a utilização de empresas de fachada no processo de lavagem de capitais, é fundamental refletir sobre as atividades empresariais consideradas atraentes como disfarce aos chamados crimes precedentes, que antecedem os crimes de lavagem propriamente ditos.

Conforme estudo do Coaf (1999), são citados como exemplos de setores da economia mais visados para a lavagem de dinheiro as instituições financeiras, os paraísos fiscais, as bolsas de valores, as companhias seguradoras, o mercado imobiliário, os cassinos, casas de jogos e os institutos de loterias e sorteios, dentre outros.

O professor Marco Antônio de Barros (2004) refere-se a esses setores como “mecanismos de lavagem de dinheiro", e cita também os bancos em geral (incluindo bancos comerciais, bancos privados e caixas de poupança), as corretoras de ações ou de mercadorias, os bancos de investimento (através de fundos mútuos, por exemplo), as empresas operadoras de câmbio, as transações internacionais relacionadas às agências de viagens, as casas de penhores, o mercado de metais preciosos, os vendedores de veículos no varejo (inclusive automóveis, aeronaves e barcos) e o comércio de imóveis, em geral.

Especificamente no caso das instituições financeiras, que possuem obrigação legal de manter controles sobre movimentações consideradas suspeitas, é preciso ainda reforçar a importância do aspecto “conheça seu cliente”, relacionado aos registros cadastrais e econômicos/financeiros dos clientes pessoas físicas e jurídicas, mantidos nessas instituições, que devem ser atualizados periodicamente.

É importante recordar que os setores acima mencionados se referem aos crimes de lavagem de dinheiro cometidos para dissimular valores auferidos de forma ilícita em crimes precedentes, como tráfico de drogas e armas.

São justamente estes crimes que se pretende focar agora, com o objetivo de enfatizar os ramos de atividade empresarial utilizados nesta fase, que antecede a etapa da dissimulação dos recursos ilícitos na cadeia da lavagem de capitais.

No estudo intitulado “Os cem casos de lavagem de dinheiro”, realizado pela Unidade de Inteligência Financeira do Grupo de Egmont[i], do qual o Coaf é integrante desde 1999, chegou-se à seguinte conclusão em relação à ocultação dentro de estruturas empresariais:

A primeira tipologia é caracterizada por esquemas de lavagem que procuram ocultar os recursos de origem criminosa dentro das atividades normais de empresas controladas pela organização criminosa.

Em primeiro lugar, o criminoso tem maior controle sobre a empresa usada, quer por causa de uma propriedade benéfica (beneficial ownership), quer por causa de uma ligação estreita com o devido proprietário efetivo – o que reduz o risco de vazamento de informações para as autoridades de repressão de dentro da própria empresa.

Em segundo lugar, a instituição financeira usada para fazer as transações tende a não desconfiar tanto de grandes flutuações de saldo na conta de uma empresa: grande parte das pessoas que trabalha com serviços financeiros já espera altos e baixos durante o ciclo de negócios. Mas se a flutuação ocorresse na conta de uma pessoa física, as suspeitas seriam bem maiores.

Em terceiro lugar, as empresas geralmente têm razões legítimas para transferir recursos de/para outras jurisdições e em diferentes moedas. Isso reduz ainda mais a probabilidade de gerar suspeitas nas instituições financeiras.

Em quarto lugar, várias empresas – como boates e restaurantes – lidam principalmente com dinheiro em espécie e por isso as instituições financeiras não considerarão tão suspeitos grandes depósitos em espécie.

Em quinto lugar, os vínculos entre os criminosos e a empresa podem ser ocultos pelos estatutos sociais das empresas (company ownership structures), enquanto a abertura de uma conta pessoal geralmente requer a apresentação de documentos específicos de identificação pessoal.

Dentre os cem casos relatados, a maioria se encaixa nesta categoria. Isso indica o grande interesse, dos que vão fazer a lavagem, pelas estruturas empresariais.

Do texto acima, salienta-se as observações sobre a menor desconfiança gerada nas movimentações de empresas e sobre as movimentações em espécie, no setor de serviços, dificultarem a fiscalização dos seus fatores geradores de caixa.

Com base nos fatos relatados, pesquisas e estudos descritos, chega-se à proposição ora apresentada para os setores e ramos de atividade considerados mais ou menos sensíveis aos crimes precedentes à lavagem de dinheiro.

No quadro abaixo estão listados os referidos setores da economia, com a indicação de fatores de risco a serem considerados, conforme a atividade empresarial desenvolvida e a possibilidade de seu uso como ferramenta para a lavagem de capitais:

SETOR DA ECONOMIA
RAMOS DE ATIVIDADE
FATOR DE RISCO
PRIMÁRIO EM GERAL
Atividades pastoris, de produção e comercialização em geral, cujos processos são majoritariamente manuais, que dificultam a fiscalização da formação, manutenção e giro dos produtos envolvidos
MÉDIO
SECUNDÁRIO EM GERAL
Atividades industriais, de produção, transformação e comercialização no atacado, cujos processos de produção são considerados maduros e possibilitam um nível de fiscalização constante e adequado por parte dos órgãos reguladores
BAIXO
SECUNDÁRIO DO AGRONEGÓCIO
Atividades de transformação e beneficiamento de produtos do agronegócio, cujos processos industriais ainda não foram integralmente informatizados e aceitam intervenções manuais, além de possuírem características sazonais que dificultam a fiscalização da formação, manutenção e giro dos estoques de produtos in natura ou já beneficiados
MÉDIO
TERCIÁRIO EM GERAL
Atividades de comercialização de produtos terciários e de serviços em geral, predominantemente aquelas não dependentes de formação de estoques e que possuem alto giro de valores e rápido fluxo de capitais, que dificultam a fiscalização dos fatores geradores de caixa e de transações financeiras e de serviços em geral, por parte dos órgãos fiscalizadores
ALTO

No próximo post apresentaremos um estudo de caso que envolve um ramo de atividade empresarial considerado facilitador para a consecução dos chamados crimes precedentes.

A análise demonstrará de forma clara e simples de que maneira uma empresa de fachada é utilizada para esconder recursos obtidos de forma ilícita e, em sequência, dar-lhes a aparência de dinheiro legal, supostamente obtido através de transações de negócios.

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i. Organismo internacional constituído em 1995 em Bruxelas - Bélgica, que reúne atualmente um grupo de 147 unidades de inteligência financeira (FIUs, na sigla em inglês) cujo objetivo é incrementar o apoio aos programas nacionais de combate à lavagem de dinheiro dos países que o integram.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Estrada & Panela – Vorrebbe cenare bene a Capri?

Nos últimos anos tive a oportunidade de estar em Capri duas vezes num intervalo de poucos meses. Mesmo sendo viagens não planejadas, que aconteceram no desenrolar de outras atividades e projetos vividos na Itália, confesso que foram verdadeiros presentes do destino.

Se fosse um roteiro pensado e planejado, não decidiria ir ao mesmo lugar duas vezes em tão pouco tempo, dada a quantidade de lugares magníficos que existem nesse mundo para se conhecer.

Não que Capri não mereça ser visitada sempre. Pela sua beleza e glamour, vale cada hora da sua vida dedicada a ela. Você não se decepcionará.

Não sou agente de viagens, mas gostaria de lembrar que o sul da Itália é belíssimo, as águas do Mar Tirreno são quentes e tranquilas, a Costa Amalfitana é um verdadeiro cartão postal, e Capri, junto com Procida e Ischia, são as estrelas do espetáculo. E gostaria de aproveitar também para dar uma dica para uma buonissima cena.

Depois de um dia cheio de belezas para ver e curtir é chegada a hora de relaxar e escolher aquele restaurante especial para fechar o dia em grande estilo: o tradicional Ristorante Faraglioni, uma indicação do maitre do hotel onde estava hospedado. A comida é ótima, saborosa, com pratos clássicos da Itália e da Ilha, porém sem surpresas para um lugar em que tudo é ótimo. O que conta mesmo é o ambiente, a brisa do Mediterrâneo e o clima “caprese” do lugar.

O restaurante se encontra no final da Via Camerelle, talvez a rua mais famosa de Capri, que começa na esquina do Grand Hotel Qvisisana e se estende até a Galleria Tragara, onde começa a Via Tragara, que vai até um pequeno porto, bem em frente aos famosos Faraglioni. A Via é passagem obrigatória para quem vai à Ilha, por onde já transitaram algumas das maiores celebridades do planeta, como Bridgitte Bardot, Jacqueline Kennedy Onassis, Valentino, Rei Juan Carlos, Sofia Loren, Enzo Ferrari e Gianni Agnelli, dentre outras grandes estrelas.

Procure reservar antes ou chegar bem cedo para pegar uma das mesas na parte externa do restaurante, mais parecidas com “casinhas”, com seus tetos de madeira charmosos e aconchegantes, iluminados por pequenos abajures ou velas. Ao lado das casinhas apenas árvores, o penhasco e o mar...

E não se esqueça de um bom vinho nacional para acompanhar. Pode ser um Chianti Classico, um Montepulciano d’Abruzzo, um Rosso di Montalcino ou um bravíssimo Brunello. O preço de tudo isso? Não lembro. Sei que não é barato, mas esses são os momentos da vida em que devemos gastar sem culpa. É um investimento em nós mesmos. Temos todo o resto do ano para sermos racionais e econômicos.



Para maiores informações acesse http://www.faraglioni.com

As empresas de fachada e a lavagem de dinheiro no sistema financeiro – parte 1

O que são os chamados crimes precedentes? Porque é mais fácil lavar dinheiro movimentando  contas de pessoas jurídicas? Quais as diferenças entre empresas fictícias e empresas de fachada? Quais os ramos de atividade empresarial mais propícios à consecução dos crimes precedentes aos crimes de lavagem? Qual o modus operandi mais indicado, via sistema financeiro, para os criminosos dificultarem o rastreamento de valores ilícitos?

Estas são algumas questões que serão abordadas neste e nos próximos posts, numa tentativa de entender esse mundo que envolve a lavagem de dinheiro e o branqueamento de capitais.

Diferentemente de muitos outros artigos e estudos já publicados sobre o assunto, o foco aqui será a análise de determinados ramos de atividade empresarial que, pelas suas características e peculiaridades, facilitam o disfarce do dinheiro ilícito, ao misturá-lo aos recursos gerados pelas atividades operacionais de um empreendimento legalmente constituído.

Esta técnica de “misturar” o dinheiro sujo com o dinheiro de origem legal é muito comum nas empresas de fachada, utilizadas pelos criminosos para confundir órgãos fiscalizadores e policiais sobre a verdadeira função da empresa e as origens de seus fatores geradores de caixa, dificultando assim a percepção dos negócios ilícitos e o rastreamento da origem dos recursos movimentados.

Neste ponto vale recordar as características que diferenciam uma empresa fictícia de uma empresa de fachada. Uma empresa pode ser considerada de fachada quando é legalmente constituída e realiza transações de negócios, porém sendo utilizada também para contabilizar recursos oriundos de atividades ilícitas. Geralmente a empresa mescla recursos ilícitos com recursos provenientes de sua própria atividade.

Já uma empresa fictícia é constituída apenas documentalmente, somente no papel. Diferentemente da empresa de fachada, não tem nenhuma atividade econômica, sendo utilizada somente para contabilizar recursos provenientes de crimes.

Também é importante lembrar que o crime de lavagem de dinheiro somente ocorre após o cometimento dos crimes conhecidos como antecedentes ou precedentes. Estas tipificações penais estão intimamente ligadas.

Atualmente, o Brasil já se encontra no estágio da chamada terceira geração dos crimes antecedentes, com as novas regulamentações e dispositivos legais promulgados nos últimos anos. Podemos citar, resumidamente, os crimes relacionados ao tráfico de drogas, ao tráfico de armas e aos jogos de azar, como exemplos de crimes precedentes geradores de valores ilícitos que precisam ser “lavados” posteriormente.

Os exemplos e casos relatados baseiam-se em estudos, análises e trabalhos de auditoria no sistema financeiro realizados pelo autor nos últimos 20 anos. O objetivo é servir de estímulo para uma reflexão profunda sobre o assunto, uma vez que a lavagem de dinheiro está intimamente ligada à corrupção e à violência que assola o país e ceifa milhares de vidas todos os anos, destruindo as perspectivas de futuro de muitas gerações.

No Brasil, não existem conflitos geopolíticos ou territoriais para impulsionar o tráfico de armas pesadas, diferentemente do Oriente Médio e norte da África, por exemplo, onde as guerras territoriais e religiosas alimentam a insana e obscura indústria bélica mundial. O tráfico de armas existente no país, que atingiu patamares altíssimos nos últimos anos, existe apenas em função do tráfico de drogas, para manter e reforçar o poder das facções criminosas.

É por isso que insisto na tese de que um programa efetivo de combate ao tráfico de drogas no Brasil reduzirá sensivelmente o tráfico de armas e a violência em geral, pois todos esses crimes estão interligados, em maior ou menor grau.

Nos próximos posts exploraremos melhor a situação das pequenas e médias empresas neste contexto, analisando de que forma podem ser utilizadas como ferramentas para a consecução dos crimes precedentes e de que maneira alguns setores e ramos de atividade empresarial contribuem para facilitar a vida dos meliantes. Sempre lembrando que o sistema financeiro possui responsabilidades legais e relevantes no combate aos referidos crimes. 

sábado, 26 de agosto de 2017

O momento em que a galinha perde a voz

É possível que nas organizações existam gestores que não são líderes? É possível que existam líderes que não são gestores? É possível que os gestores sejam também líderes? Ou que as organizações nem percebam seus verdadeiros líderes? Acredito que a resposta para todas as perguntas seja sim.

Há uma farta literatura sobre a formação de líderes e gestores, mas pode-se aceitar que, para alguém ser considerado um líder, deve conquistar o respeito e a confiança dos seus colegas.

Da mesma forma, e em consequência da confiança e do respeito, deve existir a representatividade, ou seja, seus colegas ou subordinados precisam se sentir representados pelo seu líder. Ninguém se sente representado por alguém que não confia ou não respeita.

Por fim, quando um grupo se sente representado por alguém que conquistou sua confiança e respeito, pode-se dizer que essa pessoa é um legítimo representante desse grupo. Daí a questão da legitimidade.

Então, podemos concluir que a liderança exige, no mínimo, três requisitos básicos: o respeito/confiança, a representatividade e a legitimidade. Veja que ainda não estamos falando em competência e capacidade.

Agora, com muita calma, vamos fazer um exercício de “engenharia reversa”. A legitimidade vem da representatividade e a representatividade vem da confiança e do respeito. Assim pergunta-se: como um profissional deve atuar para conquistar a confiança e o respeito das pessoas com as quais se relaciona em seu trabalho?

O respeito e a confiança nascem e se fortalecem através das relações humanas cotidianas vivenciadas por um grupo em um ambiente de trabalho. Pode-se dizer que é a viga mestra de uma construção muito lenta que sustenta relações interpessoais muito instáveis, onde diversos interesses se cruzam e muitas vezes se conflitam, em ambientes onde circulam a concorrência, a inveja, a vaidade, o egocentrismo, o excesso de individualismo, e muito mais.

São ambientes em que muitas carreiras são construídas através da imagem, do relacionamento privado e do marketing pessoal, onde os princípios éticos, a qualidade dos trabalhos e a imparcialidade das decisões tornam-se menos importantes.

O mundo empresarial não é justo, ganha-se aquilo que se negocia. Esta é uma velha frase que ouvi muito tempo atrás, mas que é sempre atual. É como a história da galinha e da pata. O ovo da pata é melhor, maior e com mais nutrientes, mas a pata trabalha silenciosamente, é muito discreta. Já a galinha, embora ofereça um produto de menor qualidade, canta mais e faz um barulho imenso, anunciando “seu produto”.

É claro que a pata é melhor, mas a galinha aparece mais. E no mundo empresarial ainda temos as galinhas que terceirizam a produção. Nem ovos produzem, apenas cantam e se aproveitam de “ovos” produzidos por outros.

Nenhum gestor será líder se não conhecer a função que gerencia. Nenhum gestor conquistará a confiança e o respeito de uma equipe enquanto precisar “comer na mão de alguém” que conhece mais do que ele. Nenhum gestor será líder enquanto não for ele próprio um exemplo a ser seguido, tanto em ética e princípios como em competência e capacidade para exercer a função para a qual foi designado.

Um gestor não precisa ser operacional, não precisa e não deve “colocar a mão na massa”. Um gestor deve gerenciar e administrar uma série de fatores que envolvem o dia-a-dia dos negócios. Entretanto deve saber fazer, precisa ter o conhecimento daquilo que gerencia. Ninguém adquire competência e capacidade sem a experiência profissional naquilo que pretende gerenciar.

Você não precisa fazer, mas se você manda e não sabe fazer, suas hesitações e contradições logo transparecerão e serão percebidas como fraquezas. Você será desacreditado pelas pessoas que o rodeiam e será muito difícil reverter essa situação. Você perde, a equipe perde e a organização perde. Em uma situação dessas não há ganhadores. É o momento em que a galinha perde a voz.

A formação profissional é muito importante para a gestão, mas só a experiência profissional é capaz de nutrir a confiança e o respeito. O seu MBA ou o seu Doutorado não serão respeitados se você não demonstrar que entende daquilo que fala.

Esse é um grande desafio imposto às organizações: conseguir mensurar a experiência profissional e o quanto ela impacta a formação de líderes. Como quantificar, estratificar e qualificar a experiência profissional, principalmente daquele colaborador que já trabalha na empresa ou na área? Como implantar uma metodologia que possa medir essa experiência profissional, que vai se formando ao longo do tempo pelos trabalhos realizados, pela diversidade de situações vividas no ambiente de trabalho, pelas diversas unidades, setores e departamentos por onde atuou?

É desta forma que se faz um gestor que também será respeitado pelos seus pares e subordinados. É desta forma que a representatividade e a legitimidade se dará.

Lembram-se das perguntas iniciais formuladas?

Uma empresa que tem gestores que não são líderes, ou que não percebe ou valoriza seus verdadeiros líderes, estará, no longo prazo, desestruturando sua organização interna, aumentando seu retrabalho, destruindo riqueza e, caso não reverta tudo isso, cavando seu túmulo.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Vai um IPO aí?

Porque as grandes empreiteiras nacionais não aproveitaram o “boom” dos IPO entre 2007 e 2013 para abrir o capital?

O que as grandes empreiteiras Odebrecht, Camargo Correa, OAS, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Mendes Junior... têm em comum, além de estarem todas enroladas até o pescoço na Operação Lava Jato?

Algo que ninguém na mídia até hoje percebeu ou comentou. Nenhuma delas aproveitou o período altamente favorável proporcionado nos últimos anos para se tornar uma sociedade anônima de capital aberto e captar recursos no mercado de capitais, uma das melhores e mais baratas fontes de financiamento existentes no mercado, senão a melhor.

Tenho muita curiosidade sobre isso. Ao mesmo tempo em que quase todas as grandes empresas de vários outros setores foram por este caminho, abrindo seu capital através do processo conhecido como IPO – Initial Public Offering, ou Oferta Pública Inicial de Ações, em português - as nossas famosas empreiteiras, gigantes do setor, preferiram continuar no velho modelo.

Mas também tem aquele diabinho sabe, que fica no ouvido da gente perguntando: se eram “donas” do Brasil e mandavam nas empresas públicas e nos políticos que detinham a “caneta das nomeações” e a “chave do cofre” do orçamento, não precisavam mesmo abrir o capital, né? Para que abrir capital se eram “sócias” do maior parceiro comercial que uma empresa pode ter no Brasil: o Tesouro Nacional?

O grande inconveniente de abrir o capital, se transformando em uma sociedade por ações de capital aberto, é ter que aumentar a transparência das operações e divulgar informações relevantes ao mercado. São as regras de governança corporativa, novo mercado e outras, reguladas pelo Banco Central, Bovespa e CVM, dentre outros.

Será que todas estas empreiteiras pesaram os prós e contras e concluíram que era melhor manter suas informações “fechadas” e seguir “mamando” nos recursos públicos sobre os quais tinham ingerência política? É uma pergunta teórica, claro. É o diabinho pensando...

Esta é a minha teoria para explicar os motivos pelos quais estas empresas deram as costas para o mercado de capitais brasileiro no melhor momento que tivemos nos últimos 30 anos: ainda melhor que captar recursos baratos no mercado acionário é poder fazer isso diretamente dos cofres públicos, via BNDES, BB, CEF, fundos governamentais, FGTS, dentre outros, superfaturando obras e pagando propinas a políticos e governantes. Tudo isso financiado com os recursos dos pagadores de impostos, todos nós, como sempre, afinal estamos falando do Brasil, né?

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Você é útil para o PIB do seu país?

Alguma vez você produziu um pé de milho? Alguma vez você produziu um quilo de feijão ou de arroz? Você já fabricou um par de sapatos, ou um prego que seja? Ou talvez tenha produzido uma camisa ou uma calça?

Você já trabalhou como motorista de um caminhão na área de logística e abastecimento, que leva alimentos da distribuidora para o supermercado? Ou atuou em uma empresa que fabrica peças para a produção de máquinas ou veículos?

Se a resposta for não, então temos alguma coisa em comum, pois eu também, em quase 50 anos de vida nunca produzi nada para agregar valor ao PIB do meu país. Todas as atividades citadas nas perguntas acima fazem parte do processo de criação de riqueza do país, de forma direta ou indireta, ou seja, fazem parte da composição do Produto Interno Bruto.

O PIB é a soma de todos os produtos produzidos por uma nação, com algumas regras e alguns conceitos econômicos, matemáticos e estatísticos. Mas, em regra geral, pode-se dizer que o PIB é a soma de toda a riqueza produzida por um país em um determinado período, nos setores primário, secundário e terciário da economia.

Quem produz alimento ou vestuário, por exemplo, está ajudando a aumentar o PIB e a riqueza que é produzida, seja para consumo interno ou para exportação, além de garantir alimento e agasalho para as pessoas.

Como estava dizendo, nunca produzi riqueza para o meu país. Sempre trabalhei no setor terciário da economia, em instituição financeira. O setor de terciário, para existir, depende do setor secundário (produção industrial) e do setor primário (produção de alimentos e derivados, commodities em geral).

Um país com setores primário e secundário desenvolvidos também apresenta setor terciário competitivo e amplo, com diversos serviços a disposição dos consumidores. Por isso que, quando as commodities ou indústria vão mal, o setor de serviços sofre.

Desta forma, existem dois tipos de pessoas na sociedade: aquelas que produzem riqueza (e também consomem a riqueza produzida) e aquelas que somente consomem a riqueza produzida por outros, sem auxiliar no processo de criação e formação da riqueza.

Existem alguns setores, inclusive, que além de não produzirem riqueza, ainda atrapalham quem o faz. É o caso do sistema bancário, onde trabalho, cujos serviços oferecidos - muitas vezes em descompasso com as necessidades dos clientes, e os juros cobrados nos empréstimos - geralmente altos, são um entrave ao financiamento da atividade produtiva e uma das causas dos nossos preços pouco competitivos em relação ao mercado externo, uma vez que os custos de financiamento compõem os custos da atividade produtiva e elevam o preço final dos produtos, juntamente com os excessivos impostos cobrados em várias fases do processo produtivo (deixarei estes para um outro post).

Não é de graça que no Brasil as empresas que mais lucram desde a década de 80 são os bancos. Não se pode esperar muito, nem futuro, de um país em que os intermediários financeiros, que não produzem nada, lucram mais do que os agentes produtivos. Então, para aumentar meu dilema econômico existencial, além de nunca ter produzido riqueza, ainda trabalho em um setor que atrapalha a criação dessa riqueza. É muita tortura.

Mas posso me consolar ao lembrar que tenho consciência desses fatos e que, pelo menos, sempre respeitei e admirei aqueles que “dão duro”, diariamente, para produzir a riqueza que sustenta essa nação e ajudam a compor o orçamento da União, através de todos os impostos diretos e indiretos que “nascem” em consequência da produção de bens e serviços, diferentemente de outras pessoas que nunca produziram nada em suas vidas, vivem somente de consumir a riqueza produzida pelos outros e adoram criticar o sistema produtivo do país, com o rigor e a petulância de quem só enxerga o espelho, sem contribuir com trabalho ou ideias para melhorar a situação.

Vejo muitas pessoas e entidades criticando setores, empresários, agentes produtivos, por este ou aquele motivo. Claro que sempre existem dois lados em uma moeda – às vezes três – mas qual setor, grupo, ou classe é perfeita? Quem não trabalha para defender seus interesses? Sempre existirão pessoas não éticas, sejam patrões, empregados ou agentes públicos.

Aqui faço uma ressalva àquelas profissões que, embora não estejam ligadas direta ou indiretamente à produção de riqueza para a nação, são essenciais para toda a sociedade. São as atividades ligadas à segurança pública, saúde e educação, representadas por médicos, enfermeiros, profissionais de saúde em geral, professores e educadores em geral, policiais, bombeiros e seguranças em geral. São imprescindíveis a todos nós.

Sendo assim, entre a luz e o calor, ainda prefiro aqueles que fazem a diferença para a sociedade e não aqueles que criticam muito e não criam nada, e que vivem daqueles que efetivamente tem valor para a grandeza de uma nação.

Entre sindicalistas, políticos, funcionários públicos, cargos de confiança em órgãos públicos, burocratas em geral e outras profissões - como a minha, que possuem sua função na sociedade, claro, mas não são determinantes para o progresso da nação, saúdo os verdadeiros heróis desse país, que do seu anonimato e silêncio, fazem a diferença e mantém nossas esperanças em dias melhores.

E aí, você faz parte daquele grupo que produz a riqueza que sustenta o país? Meus parabéns e minha gratidão.

Ou você, assim como eu, não cria riqueza, mas reconhece e respeita quem o faz? Sinto por você – e por mim, mas registre-se o bom senso e a sobriedade.

Ou você é, por fim, daquele grupo que não produz riqueza, critica quem o faz, se acha um sabichão e ainda acha que tem razão? Sinto muito por você, mas, lembre-se, nunca é tarde para se reposicionar, aprender e mudar, desde que ainda não tenha perdido o equilíbrio e a humildade.

domingo, 18 de junho de 2017

Uma reflexão sobre a prece

Vivemos em momento turbulento para a humanidade, para o mundo em geral e para o Brasil em particular. Em pleno século XXI temos a impressão que o mundo está em um processo de involução, de retorno ao passado de guerras, matanças, perseguições, do “olho por olho, dente por dente”. 
São conflitos armados explodindo em vários lugares, somados à crise no oriente médio que nunca se resolve, a tensão crescente no norte da África, em países como Síria e Líbia. Atentados terroristas cada vez mais frequentes, as questões nucleares no Irã e Coréia do Norte, dentre outros. Sem falar da crise na OTAN (Organização do Tratado Atlântico Norte), liderada pelos Estados Unidos e principais países europeus, cada vez mais desarticulada na busca de soluções para os conflitos, atuando mais como problema do que solução.

No Brasil e América Latina o acirramento de disputas políticas, com a acentuada luta de classes e segregação da sociedade em grupos cada vez mais unidos internamente pelo ódio aos demais, e cada vez menos se sentido parte de uma nação como um todo, em um momento em que as pessoas perdem a paciência rapidamente com os seus semelhantes e o sentimento de raiva aflora com uma força suficiente para neutralizar qualquer nuance de bom senso e coerência.

Esse é um estopim perigoso em um ambiente já incrustrado de violência diária contra os cidadãos, em que um sistema de governo falido e corrupto se esconde em sua omissão e incompetência para gerir a segurança pública, a saúde e a educação, e onde as milícias e o crime organizado se aproveitam desta lacuna deixada pelo Estado para se oferecerem como uma opção de vida e “trabalho” para as gerações mais jovens, desiludidas com um futuro digno que nunca chega.

Tempos difíceis. Muitas são as vezes que nos sentimos impotentes, perdidos, desiludidos, sem rumo. Ouve-se muito “este país não tem mais solução”. Daí pergunta-se: ainda há esperança? o que fazer?

Não tenho respostas para o futuro, nem para ações coletivas que poderiam colocar nossa nação novamente no caminho do equilíbrio e da evolução moral. Mas posso dar meu exemplo de como tentar viver nesse mundo cheio de medos e incertezas.

Tenho em minha consciência que muitas das respostas que buscamos não estão neste mundo, nesta dimensão. Acredito, pela minha formação espiritualista, que o momento em que vivemos faz parte de uma grande transição que tornará o nosso planeta um lugar melhor para todos, num futuro não muito distante.

Conforme a expressão firmada pelo respeitado médium e escritor espírita Divaldo Pereira Franco, estamos vivendo uma transição planetária sem precedentes na história da Terra, que levará nosso planeta a deixar de ser um mundo de expiação para alcançar a finalidade de mundo de regeneração, onde os espíritos mais atrasados e ainda agarrados ao mal não terão mais espaço, e onde apenas aqueles que já alcançaram algum grau de elevação moral e espiritual estarão aptos a habitar.

Esta transição planetária que estamos vivendo hoje foi anunciada no livro “A Gênese” de Allan Kardec, publicado em Paris em janeiro de 1868, e, posteriormente, em outros livros, como “A Caminho da Luz”, ditado pelo espírito Emmanuel e psicografado por Chico Xavier, em 1939.

Portanto, o aumento dos conflitos e da violência no mundo pode ser atribuído, em grande parte, ao desespero e influência dos espíritos maus e violentos, encarnados e desencarnados que orbitam a Terra, pelo sentimento consciente ou inconsciente que possuem de que não pertencerão mais a este mundo, em breve tempo, pois ao manterem-se consagrados ao mal estarão desperdiçando esta última oportunidade de reajustamento e avanço moral e intelectual que lhes foi concedida pelo Plano Superior.

Mas voltemos à questão inicial: como proteger-se neste momento difícil? Como zelar pela nossa integridade física, mental e espiritual? Como proteger nossos entes amados?

Para aquelas pessoas espiritualizadas, que tem fé e acreditam em um Plano Superior sustentador da vida e do universo, reproduzo abaixo um texto do livro “Cristianismo e Espiritismo”, escrito pelo médium e pensador espírita Léon Denis e publicado na França em 1898:

A PRECE

Médium, Sra. F.

É chegado o momento de poder a inteligência, suficientemente desenvolvida no homem, compreender a ação, significação e alcance da prece. Certo de ser compreendido, posso, pois, dizer: Não mais incredulidade, nem fanatismo! antes a completa segurança da força que Deus concede a todos os seres, quando a Ele se eleva o pensamento.

Na prece, na lembrança volvida a esse Pai, fonte inexaurível de bondade e caridade, longe de vós essas palavras aprendidas, que os lábios pronunciam num hábito adquirido, mas deixam frio o coração em seus impulsos. Reanimados e atraídos para Ele pelo conhecimento da verdade, pela fé profunda e a verdadeira luz, enviai ao Eterno os vossos corações num pensamento de amor, de respeito, de confiança e abandono; em um transporte, enfim, de todo o ser, esse veemente impulso interior, único a que se pode chamar prece! Desde a aurora, a alma que se eleva, pela prece, ao infinito, experimenta uma como primavera de pensamento que, nas circunstâncias diversas da existência, a conduz ao fim preciso, que lhe é designado.

A prece conserva a infância essa inocência em que sentis ainda a pureza, reflexo do repouso que a alma fruiu no espaço. Para o adolescente é o freio repressor da impetuosidade, que nele brota como vigoroso fluxo; seiva geratriz, se é seguida, perda certa em caso de desfalecimento, mas resgate, se a alma pode e sabe retemperar-se na prece. Depois, na idade em que, na plenitude de sua força e faculdade, o homem sente em si a energia que, muitas vezes, o deve conduzir às grandes coisas, a concentração em que se firma o pensamento, esse grito da consciência que lhe dirige os atos não é ainda a prece? E do fraco, poderoso amparo, não é a prece o consolo, a luz que o auxilia a dirigir-se, como o prisma do farol que indica ao náufrago a praia salvadora?  No perigo, mediante estas duas palavras proferidas com fé "meu Deus!" - envia o homem toda uma prece ao Criador. Esse brado, essa deprecação ao Todo-Poderoso não exprime, como recordação, o instinto do socorro que ele espera receber? o marinheiro exposto aos perigos, a mingua de todo socorro em meio dos elementos desencadeados, formula em sua fé profunda um voto: é prece cuja sinceridade sobe radiosa Àquele que o pode salvar!

E quando ruge na Terra a tempestade, grandes e pequenos tremem ao considerar a própria impotência e, a essa voz poderosa que repercute nas profundezas da terra, oram e confiantes dizem estas palavras: Deus! preserva-nos de todo perigo! - abandono completo, na prece, Àquele que, por sua vontade, tudo pode. Quando chega a idade em que nos desaparece a força, em que os anos fazem sentir todo o seu peso, em que a alma ensombrada pelos sofrimentos, pela fraqueza que a invade se sente incapaz de reagir; quando, finalmente, o ser se vê acabrunhado pela inação, a prece, caudal refrigerante, lhe vem acalmar e fortalecer as derradeiras horas que deve permanecer na Terra.

Em qualquer idade, quando vos assediam as provas, quando sofre o corpo e, sobretudo, o coração amargurado já não deixa repousar feliz o pensamento no que consola e atrai, à prece, unicamente à prece, reclamam a alma, o pensamento, o coração, a calma que já não possuem. Quando o encarnado, na plenitude de suas energias, inspirado pelo desejo do belo e do grande, refere suas aspirações a tudo que o rodeia, pratica o bem, torna-se útil, auxilia os desgraçados e, celeste prece, força do pensamento, em seus atos é amparado pelo fluido poderoso que do Além se lhe associa, constante e invisível cadeia do encarnado com os desencarnados e, para mim, prece!

Direi, pois, a todos que a bondade inspira, aos que, neste século em que o pensamento inquieto investiga sem firmeza, sentem a necessidade de uma fé profunda e regeneradora: - ensinai a prece à criança, desde o berço!

Todo ser, mesmo no extravio das paixões, conserva a lembrança da impressão recebida no limiar da vida e torna a encontrar como consolação, no crepúsculo da existência percorrida, o encanto ainda presente dos anos abençoados em que a criança, iniciando-se na vida, respira sem temor, vive sem inquietação, proferindo nos braços de sua mãe este nome tão grande e tão doce - "Deus!" que ela lhe ensina a murmurar. Haurindo força e convicção nessa piedosa lembrança, ele repetirá com toda a confiança, no último adeus a Terra, a prece aprendida no primeiro sorriso.


JERÔNIMO DE PRAGA

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Como anda sua memória econômica?

Artigo recente, postado no site do Instituto Mises Brasil, recorda quanto custavam bens e serviços no Brasil no início do plano real e dá uma aula de economia sobre a verdadeira causa da inflação: o aumento da oferta monetária.

Quando, ao longo do tempo, a oferta monetária aumenta em proporção maior que o aumento do PIB, a quantidade de dinheiro na economia torna-se maior que a quantidade de produtos e serviços oferecidos ou produzidos. Desta forma, ocorre uma desvalorização do dinheiro e um aumento do preço de produtos e serviços.

Portanto, inflação alta não é o aumento generalizado dos preços, isto é consequência da inflação. Inflação é a perda do valor de compra da moeda em determinado período, em relação aos bens produzidos naquele mesmo período, em virtude do excesso de dinheiro colocado em circulação na economia de um país. Ou seja, existe mais moeda circulando do que produtos novos à disposição dos consumidores.

E quem controla os meios de pagamento? Quem é que controla a emissão da moeda e administra a política monetária de um país?

Sim, o governo, através do Conselho Monetário Nacional e do Banco Central do Brasil. Portanto já sabemos quem é o responsável quando a inflação sai de controle e prejudica toda a população, principalmente os mais pobres.

A seguir a introdução do referido artigo:

Eis algumas informações encontradas sobre os preços daquela época:
a) O arroz custava R$ 0,64 o quilo. O pão francês, R$ 0,09 a unidade. O filé mignon, R$ 6,80 o quilo.
b) Uma ida a uma churrascaria rodízio variava de R$ 13 a não mais que R$ 24.
c) Um filé à parmegiana para duas pessoas saía por R$ 8,90, e a caipirinha para acompanhar, R$ 0,55.
d) Fartos pratos de coração de frango a R$ 1,90, costela de porco a R$ 2,60, e filé com fritas a R$ 8,90 eram a regra.
e) Para os não-carnívoros, o filé de peixe custava R$ 9,45, o camarão ao molho saía por R$ 16,90, e a mais refinada lagosta não passava de R$ 19,70.
f) Uma dose de uísque 12 anos custava R$ 3,25 e uma caipiroska com vodka, R$ 0,70.
g) Para completar, biscoito cream cracker custava R$ 0,75 e o açúcar, R$ 0,39.
Deixemos de lado o setor gastronômico e vamos para o resto da economia.
Se o preço de um prato de comida em um restaurante a quilo saltou de R$ 6,50 para R$ 25 ao longo de duas décadas, ou se o preço de uma ida ao supermercado saltou de R$ 80 para R$ 400 e ainda assim o consumo não declinou (ao contrário, aumentou), então tal fenômeno só foi possível porque a quantidade de dinheiro em posse das pessoas (consumidores) aumentou.
Apenas imagine se todas as pessoas do país tivessem hoje a mesma quantidade de dinheiro que tinham em julho de 1994. (Lembra-se de quão raras eram as cédulas de 50 reais? As de 100 reais, então, eram praticamente peças de ficção). Apenas imagine que a quantidade de dinheiro que existia em julho de 1994 houvesse sido congelada e mantida imutável até hoje (março de 2017). Pergunta: haveria como ter essa cavalgada de preços? Haveria como os preços subirem mais de 5 vezes?

Veja o artigo completo em http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2663

Viva o dia da miséria

No Brasil, uma das coisas mais democráticas que existe é a miséria. Elege brancos, pretos, velhos, jovens, crianças, deficientes, homens e mulheres. É a socialização da tragédia do cotidiano, bem comum em nosso país.

A miséria, com seus braços abertos, parece um rastilho de pólvora. Vai de norte a sul numa velocidade impressionante, passando pelo litoral e pelo cerrado, por planícies e montanhas. Suas bases, claro, nascem em um formoso planalto central, e seus efeitos se espalham feito metástase em todos os "órgãos" desse corpo chamado Brasil. É um imenso "varejão", onde se compra de tudo, à vista e sem nota, e se vende principalmente a esperança e a dignidade de um povo manso e sofrido. 


Assim chego à conclusão que devemos extinguir o dia da mulher, da criança, das mães, dos pais, da consciência negra, do índio, etc. Basta que seja instituído o dia da miséria, com feriado nacional e comemorações em todo o país. Ao fazerem isso, nossos parlamentares estarão homenageando a grande maioria do povo brasileiro, de todos os cantos e recantos. Será um feriado da democracia, sem discriminações, pois a maioria dos brasileiros se sentirá "prestigiada" e "incluída". Será o êxtase do rivotril.


E ainda teremos algumas vantagens adicionais: muitos feriados serão reduzidos em apenas um, o país terá mais dias úteis para produzir mais e gerar mais riqueza, serão reduzidos os pontos facultativos no serviço público, aumentando a disponibilidade de atendimento à população, além de mudar um pouco a cultura dos feriados prolongados, dentre outros efeitos colaterais.

É ou não é uma ótima ideia?

Esqueçam, foi só um escorregão, um devaneio de um sonhador. Parlamentares adoram feriados, o povo adora feriados, e todos adoram votar em quem adora feriados...

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Uma fábula brasileira

Era uma vez um pastor muito dedicado e convincente. Ele pregava todo o dia na sua igreja, arrebatava uma quantidade enorme de fiéis, tinha boas intenções e criticava todas as coisas erradas do mundo e do seu país. Falava sobre ética em uma linguagem que todos compreendiam, principalmente os mais pobres.

Mas como toda pessoa comum, esse pastor tinha alguns amigos antigos, um tanto suspeitos, desviados da vida correta, mas que mesmo assim eram seus amigos. Eles viviam convidando o pastor para ir à zona, aquela zona mesmo, conhecida como baixo meretrício, a casa de tolerância, da luz vermelha como se dizia antigamente. O pastor sempre recusava, alegava compromissos éticos com sua igreja e seus seguidores, sempre fugindo à tentação.

Mas o fato é que convivia muito com esses amigos fora da igreja, até que um belo dia não resistiu a essa que é uma das fraquezas da vida, e foi conhecer a “farra”. Ficou impressionado, boquiaberto. Não só gostou como passou a ser um frequentador assíduo, se tornando um legítimo habitué. Passou a se envolver em romances tórridos com muitas prostitutas por madrugadas e madrugadas, noite após noite.

E assim o tempo foi passando. De dia o pastor pregava, falava aos fiéis sobre a nobreza da vida, sobre princípios e ética, sobre moral, trabalho e dignidade. À noite, se refestelava em prazeres menos nobres, curtia a vida adoidado junto aos velhos amigos e às novas beldades, entre tragos largos e roucas gargalhadas.

Até que um dia se apaixonou pelos encantos de uma velha prostituta, antiga frequentadora do bordel e muito conhecida no meio. A legítima “prata da casa”.

O pastor não resistiu e tirou a meretriz do bordel, fez-lhe mil promessas e recebeu outras mil de volta. Marcaram o casamento. Muitos foram os convidados para a grande festa. A maioria dos fiéis e amigos foi ao casamento. Conheciam a procedência da moça, mas confiavam na sua redenção. Beberam, comeram, comemoraram e vibraram muito, deram parabéns ao noivo e até elogiaram a noiva: “realmente parece outra mulher, olha como está linda, deslumbrante, nem parece aquela”.

Pois bem, passado algum tempo, aconteceu o inevitável. Em meio à rotina da vida, nas idas e vindas do cotidiano, a velha prostituta resgatou o seu passado, que lhe falava mais forte, mais intenso. Traiu o Pastor. Não só traiu como o abandonou. Foi-se embora a viver um novo romance em outros braços.

O coitado ficou em estado de choque, em delírios, enlouqueceu completamente, se consumiu em cólera e saiu bradando rua afora: “fui traído, fui traído, me enganaram, minha esposa me traiu, sofri um golpe, um golpe...”.

Essa é a história do PT com o PMDB.

Aqueles que tinham olhos de ver sabiam que essa história não terminaria bem. É muito difícil terminar bem aquilo que já começa mal. E quando se faz coisas erradas conscientemente, pior ainda.

Mas a maioria dos fiéis compareceu ao casamento, comemorou e elogiou a noiva. Agora estavam todos estupefatos, incrédulos, boquiabertos. No fervor da alegria, durante a grande “festa da democracia”, não foram capazes de alertar o noivo para os riscos daquele propósito. Ao contrário, calaram-se e divertiram-se. Fecharam os olhos para o passado da noiva, que todos conheciam. Agora estavam lá, todos juntos se solidarizando com o noivo, uma “pobre vítima”.

Eis a personificação da hipocrisia. 

Quanto custa?

O velho ditado diz: tudo na vida tem seu preço. Costumo acrescentar: tudo na vida, que está à venda, tem seu preço. Aquilo que está à ve...