sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O Balanço Patrimonial da Pessoa Física - parte 1

Prosseguindo com o tema da seção anterior, sobre gerenciar ativos e passivos da pessoa física com uma visão empresarial, vamos pensar agora em como estruturar um Balanço Patrimonial Pessoa Física sob o enfoque do fluxo de caixa positivo.

Existem diversos dispositivos legais que normatizam a contabilidade e a emissão de demonstrativos financeiros e contábeis para as pessoas jurídicas, assim como toda uma estrutura de controle e fiscalização para garantir, ou tentar pelo menos, que as transações de negócios das pessoas jurídicas atendam aos aspectos da legalidade, da transparência, da tempestividade dos registros, dentre outros princípios.

Mas pensemos um pouco: e as pessoas físicas? Será que não poderíamos imaginar um modelo que pudesse refletir um Balanço Patrimonial das pessoas naturais? Seria possível pensar sobre pessoas físicas como se fossem empresas e suas vidas pessoais – pelo menos pelo enfoque econômico - como um empreendimento?

Claro que sim, e isto já acontece faz tempo, basta ver o exemplo da revista Você S/A, que publica matérias sobre administração patrimonial e financeira voltadas para pessoas físicas.

Mas gostaria de ir um pouco além. Minha intenção é propor um modelo para a gestão financeira de uma pessoa comum, sem CNPJ, que possa refletir as ideias e conceitos da boa administração financeira que é aplicada às empresas em geral. Este é o desafio.

Vamos tentar?

Em primeiro lugar surgem duas questões: como seria a classificação dos bens, direitos e obrigações? E como saber se determinado bem ou direito é um ativo ou passivo?

Antes de pensarmos nas respostas é importante lembrar que, mesmo tendo como enfoque a administração financeira de empresas, os conceitos contábeis aqui aplicados serão diferentes das regras gerais da contabilidade tradicional, direcionada às empresas.

Na nossa visão, relacionada à definição de ativos e passivos para pessoas físicas, a principal premissa é a GERAÇÃO DE RENDA. Resumidamente, podemos dizer que um ATIVO gera RENDA e um PASSIVO gera DESPESA. Simples assim. Todavia, ao olharmos cada situação mais de perto, será preciso atentar para alguns detalhes que podem complicar o entendimento.

Assim, no Balanço Patrimonial PF, teremos os bens e direitos que geram renda no ATIVO e as obrigações e os BENS/DIREITOS que geram despesas no PASSIVO. É isto mesmo, poderemos ter bens e direitos classificados no passivo. Aí é que as coisas começam a complicar.

Vamos por partes. Primeiro, temos que lembrar sempre que esta classificação independe da natureza primária do item patrimonial e deve ser orientada somente pela sua característica intrínseca em gerar renda ou despesa (fator gerador).

Segundo, existem bens e direitos que geram renda e despesa ao mesmo tempo. Nestes casos é importante uma análise mais acurada para definir o resultado atingido em determinado período: se o bem/direito gerar mais despesas que receitas será classificado como passivo, caso contrário, como ativo, desde que o resultado positivo seja superior ao custo de oportunidade do capital, condição esta que será aprofundada mais adiante.

Considerando estes conceitos, podemos “brincar” um pouco com diversas situações do dia-a-dia e refletir sobre seus efeitos financeiros no nosso bolso:

- Aquelas despesas que estamos acostumados a pagar mensalmente, como condomínio, escola das crianças, academia, energia elétrica, gasolina e manutenção do carro, não deixam dúvidas, pois sabemos bem quanto custam todos os meses.

- Mas e a compra daquele carro zero quilometro que você tanto sonhava, registrado na declaração do imposto de renda como um bem que aumenta seu patrimônio, significa na verdade que você comprou um passivo que gera despesa e reduz seu fluxo de caixa? Sim, é isso mesmo.

- E a tão sonhada casa ou apartamento que você adquiriu com tanto esforço, também registrado na declaração do IR como bem que faz seu patrimônio aumentar, é um passivo porque não gera renda e sim despesas de manutenção, condomínio, água, luz, etc? Sim, é exatamente isso.

- E aquele segundo imóvel que você comprou, para alugar e receber renda, é um ativo ou um passivo? Neste caso, em princípio, trata-se de um ativo, pois é um investimento gerador de renda.

- Mas aí você fica pensando: quer dizer que o apartamento onde resido, que é meu, quitado, é um passivo? E o outro que comprei e não moro nele é um ativo? E a despesa de aluguel que eu deixei de ter ao morar em imóvel próprio não entra nesta conta? Sim, a redução de uma despesa deve ser considerada no fluxo de caixa, MAS NÃO NO BALANÇO PATRIMONIAL, pois o imóvel próprio continua sendo um fator gerador de despesa E DEVE SER CLASSIFICADO COMO UM PASSIVO.

- O segundo apartamento que foi comprado para gerar renda de aluguel será classificado no ativo por ser um investimento gerador de renda, DESDE que as receitas geradas sejam superiores aos custos de manutenção, custos de condomínio do proprietário, custos de vacância e ao custo de oportunidade do capital. Nestes casos, a médio e longo prazo, a tendência do imóvel de aluguel é se transformar em passivo, quando se constata, “na ponta do lápis”, que os custos totais foram superiores às receitas do aluguel. Muito cuidado nestes casos.

- Mas aí você questiona: e a valorização do imóvel não conta? Se computamos os custos de manutenção e depreciação, também não deveríamos incluir nos cálculos a valorização do bem? Esta é uma questão difícil de responder por envolver o futuro. E este ninguém sabe como será. Mas podemos responder essa questão lembrando outra premissa que norteia a Análise Econômica e Financeira de Empresas, que é o Princípio da Prudência ou do Conservadorismo.

- Os custos de manutenção e depreciação do imóvel que você comprou acontecerão certamente no futuro, enquanto a valorização do bem é INCERTA, ou seja, poderá ocorrer ou não. Além disso, você só teria geração de caixa se vendesse o imóvel durante a valorização, REALIZANDO o lucro, criando o fluxo de caixa positivo. O fator valorização não deve ser considerado se você não vender o imóvel. Lembre-se, nosso exercício aqui é entender a visão da geração de caixa pela ótica empresarial.

Estes conceitos precisam ser muito bem observados e compreendidos para que você possa efetivamente administrar sua vida financeira como uma empresa deveria ser administrada e evitar a insolvência que preocupa constantemente aqueles que administram empreendimentos.

Continuaremos “exercitando” esse novo paradigma no próximo post, com outros questionamentos e exemplos que nos farão pensar e repensar entendimentos sobre administração financeira pessoal.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Dinheiro & Dilemas – E agora, faltou lucro ou faltou caixa?

Uma empresa não quebra por falta de lucro, e sim por falta de caixa. Essa é uma das máximas da administração financeira. Não é o lucro ou o prejuízo que definem a insolvência de um empreendimento, mas sim a sua incapacidade em gerar fluxo de caixa positivo (entradas de caixa superiores às despesas correntes).

Existem vários exemplos de empresas que passaram longos períodos em situação concordatária (à época) ou de recuperação judicial, conseguindo reverter, ao longo do tempo, contextos econômicos e financeiros altamente desfavorável, simplesmente por serem empreendimentos com grande capacidade de gerar caixa de forma contínua.

Podemos citar os casos da Bombril nos anos 90 e de empresas de energia, como a Light e Cemig, mais recentemente, que passaram por dificuldades operacionais graves e mesmo assim conseguiram manter suas gerações de caixa em níveis satisfatórios para suportar as dificuldades advindas e os desmandos cometidos (algumas com forte interferência estatal em detrimento da boa gestão corporativa).

Um empreendimento pode suportar dificuldades e problemas econômicos ou setoriais, sazonais ou não, até retornos negativos advindos de gestão temerária, por um bom período de tempo, desde que sua geração de caixa seja robusta e constante.

O lucro ou prejuízo lançado na Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) é mero registro fotográfico de um momento, de uma data, mas corresponde a toda uma sequência de transações, fatos contábeis e decisões administrativas ocorridas em um determinado período de tempo, onde o resultado final é uma consequência destes acontecimentos e não sua causa.

Esse é o ponto: o lucro ou prejuízo são o resultado das escolhas e decisões tomadas ao longo do tempo, onde os fluxos de caixa acontecem em função destas escolhas e se “materializam” ao final de determinado período como resultado do exercício contábil.

Uma empresa faz investimentos ao longo do tempo e espera obter lucro como resultado desses esforços. Precisa investir recursos financeiros, materiais, pessoais, tecnológicos, dentre outros, buscando fontes de capital para viabilizar tais investimentos. Este capital pode ser dos próprios sócios ou de terceiros.

No Balanço Patrimonial das empresas (BP) os investimentos são registrados no ATIVO e os recursos captados, próprios ou de terceiros, no PASSIVO. Assim, temos no Ativo as aplicações de recursos e no Passivo as fontes de recursos.

As fontes de recursos próprias e de terceiros, registradas no Passivo, possuem características onerosas à empresa, pois exigem uma remuneração aos terceiros que emprestaram recursos ao negócio e também criam uma expectativa de retorno aos sócios que investiram na sociedade, o velho e bom lucro.

Assim, espera-se que os investimentos realizados no Ativo criem margem de ganho superior ao custo dos capitais próprios e de terceiros (Margem Operacional Líquida > Custo Médio Ponderado de Capital), além de bancarem os custos operacionais envolvidos com a produção, salários dos empregados, encargos trabalhistas e impostos diversos, dentre outros, para que o Retorno dos Investimentos seja positivo (Lucro Operacional Líquido/Ativo Total).

Após essa introdução à Análise Econômica e Financeira de Empresas, poderíamos pensar em aplicar estes conceitos à administração econômica e financeira cotidiana das pessoas físicas, em suas relações comerciais e de negócios em geral. Imagine você administrando sua vida financeira como se fosse uma empresa que capta e aplica recursos com o objetivo de gerar margem positiva e lucro ao final do “exercício contábil”.

Parece uma boa ideia, afinal, assim como nas empresas, uma pessoa física precisa de renda para sobreviver e custear as despesas do dia-a-dia. Precisa gerar caixa. De que adiante ter patrimônio se estes bens não forem capazes de gerar renda contínua para comprar o leite, o pão, pagar a escola das crianças e as despesas do condomínio, por exemplo?

No entanto, para colocarmos em prática essa ideia seria necessário pensar sobre alguns pontos: Como estruturar o Balanço Patrimonial de uma pessoa física? Como seria a política de investimentos? E a estratégia de captação de recursos? Qual o apetite de risco e o limite de exposição ao risco de liquidez, por exemplo? Como identificar corretamente os investimentos que geram caixa positivo? E aqueles bens e direitos que parecem ativos, mas que na verdade são passivos, ou seja, geram mais despesas que receitas? Como administrá-los? Como calcular o custo desses passivos?

Vamos explorar melhor essas questões nos próximos artigos sobre o assunto.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

As empresas de fachada e a lavagem de dinheiro no sistema financeiro – parte 5

Agora veremos como se dá a ocultação dos valores ilícitos através da contabilidade do Hotel Verdes Notas e a urgência necessária nesta fase do processo para o “êxito do negócio”.

É neste ponto que o sistema financeiro começa a ser utilizado pelos criminosos para complementar a etapa de ocultação do dinheiro sujo, através de depósitos bancários e movimentações financeiras, que representam a fase de dissimulação dos recursos ilícitos.

A operação e a urgência:

Como ninguém compra droga com cartão de crédito ou débito, existe a necessidade de administrar o montante de R$ 45.000,00 em espécie – dinheiro vivo, que precisa ser recolhido, separado, contado, transportado e guardado adequadamente, em um ambiente muitas vezes tenso e hostil, onde as pessoas envolvidas não costumam confiar em seus pares.

É neste contexto que o processo de “guarda e proteção do numerário” ocorre. Ao mesmo tempo em que os negócios são realizados, torna-se necessária uma estrutura de logística rápida e segura para proteger e ocultar os valores que vão se avolumando, principalmente durante as madrugadas.

É comum o recolhimento parcial destes volumes durante a noite, em duas ou mais viagens, dos locais onde ocorre o comércio ilegal da droga até locais considerados seguros, de preferência onde os recursos possam permanecer já em uma situação de aparente legalidade. Os recolhimentos parciais objetivam reduzir os valores em exposição durante os atos criminosos, mitigando os riscos da operação, para que estes montantes não se transformem em provas incriminatórias em caso de flagrantes.

Assim começa o processo de ocultação do dinheiro. De acordo com Barros (2004), a conversão, também chamada ocultação ou fase de placement em linguagem internacional, consiste na colocação dos ativos ilícitos em espécie no sistema econômico ou financeiro, com o objetivo de encobrir a natureza, localização, fonte, propriedade e o controle dos recursos obtidos ilicitamente.

Durante todas as madrugadas, prepostos do proprietário do hotel costumam manter uma rotina de recolhimento de valores, em operações discretas de deslocamento dos “pontos de venda” até o hotel, onde os recursos são guardados em cofre forte, para que, no dia seguinte, seja concluído o processo de ocultação e iniciada a fase de dissimulação dos recursos.

No dia seguinte, os valores arrecadados em espécie na noite anterior são incluídos no caixa do hotel, como se fossem o resultado de transações comerciais e de serviços prestadas.

De posse do cadastro de centenas de clientes, com nomes, CPFs, endereços, informações profissionais, dentre outras, o proprietário do hotel emite notas fiscais de hospedagem e de serviços de hospedagem em nome de clientes, em valores que correspondam aos valores introduzidos no caixa do hotel oriundos da venda de cocaína.

Este processo é relativamente simples, pois o hotel possui capacidade ociosa, com vacância real em torno de 55%, que permite a emissão das notas fiscais até o limite dos leitos existentes. Para não chamar muita atenção, o proprietário emite “notas frias” até um limite de 85% da taxa de ocupação, deixando uma margem de 15% de aparente ociosidade, para não despertar maiores suspeitas. Sabe-se, no entanto, que a taxa de ocupação real fica entre 45% e 50%.

É desta forma que o faturamento médio anual de R$ 4,6 milhões se transforma em um faturamento de R$ 9,9 milhões, aumentando artificalmente a taxa de ocupação média de 47,5% para 85%. Os R$ 5.292.000,00 de incremento no faturamento, resultado do tráfico de cocaína, permitem ao grupo criminoso “esquentar” em torno de R$ 441.000,00 por mês através da contabilidade do hotel.

Assim, durante o mês, o hotel entrega ao serviço de contabilidade as notas fiscais totais dos serviços prestados – incluindo as notas frias – que serão contabilizadas como receitas brutas de vendas e prestação de serviços. Os impostos serão calculados e recolhidos integralmente, nos prazos determinados (IR, CSLL, Cofins, ICMS, ISSQN), para não despertar suspeita dos órgãos fiscalizadores.

Da mesma forma, os demonstrativos contábeis e financeiros “inflados” serão emitidos nas datas corretas, de acordo com a legislação fiscal e tributária aplicável, onde estarão contabilizados os recursos oriundos das atividades ilícitas, agora transformadas em operações legais “provenientes” de transações comerciais e de prestação de serviços.

Estas transações, agora com a verossimilhança da legalidade, se misturam às operações do negócio e são distribuídas em rubricas contábeis como “receitas operacionais líquidas”, “caixa e bancos”, “disponibilidades”, “aplicações financeiras”, dentre outras, na medida em que os recursos ilícitos vão sendo internalizados e contabilizados, impactando os balancetes mensais, os balanços patrimoniais e as demonstrações do resultado do exercício, ao longo do tempo.

Quando se trabalha com uma margem bruta de lucro de aproximadamente 900%, não há problema algum em contabilizar tudo e recolher todos os impostos incidentes sobre lucro, faturamento e serviços, independentemente do tamanho da carga tributária incidente sobre o setor ou atividade empresarial. O lucro do “negócio” sempre compensará os custos de legitimar a atividade criminosa.

A partir disto, os recursos ilícitos poderão ser introduzidos no sistema financeiro sem gerar suspeitas, pois foram disfaçardos de legítimas transações comerciais e de serviços. Neste momento começa o processo de dissimulação, que nos bancos se materializa através de aplicações financeiras, compra de produtos bancários e serviços, transferências para outras contas e bancos, dentre outras transações.

Ainda conforme Barros (2004), esta segunda etapa, a dissimulação, também conhecida por fase de controle, estratificação ou empilage em linguagem internacional, corresponde ao acumulo de investimentos que visam maquiar a trilha contábil dos lucros provenientes dos crimes antecedentes.

É neste ponto que se chega ao grande dilema que assusta os bancos e o sistema financeiro em geral: como detectar indícios de lavagem de dinheiro quando a movimentação bancária de um empreendimento é compatível com o faturamento declarado à instituição financeira?

E acrescenta-se a este dilema mais um complicador: é nesta fase que geralmente ocorre a multiplicação da movimentação de uma conta bancária sobre outra, quando são misturadas movimentações entre pessoas jurídicas e físicas, e cada conta pode ser dividida em inúmeras outras contas, conhecidas como “contas de passagem”, abertas com o propósito de dificultar o rastreamento do dinheiro ilegal (BARROS, 2004).

Para finalizar, no próximo e último post será apresentada uma metodologia de análise que possibilita a detecção desses indícios, inclusive nos casos em que as movimentações financeiras realizadas pelas empresas se apresentarem compatíveis com o faturamento contabilizado e declarado: a aplicação dos Indicadores de Proximidade de Perfil.

Aguarde!

As empresas de fachada e a lavagem de dinheiro no sistema financeiro – parte 4

Analisando a cadeia da lavagem de dinheiro sob a visão dos órgãos reguladores e do sistema financeiro, é fundamental conhecer os “modus operandis” dos grupos criminosos, para que se possa propor melhorias em processos ou novas ferramentas para identificação e controle dos riscos envolvidos.

Neste ponto é importante recordar que, além de cumprir dispositivos legais, o sistema bancário deve ser um poderoso aliado dos órgãos reguladores, da segurança pública e da sociedade em geral, na detecção e combate aos crimes da espécie.

A verdadeira história que envolve a aquisição do Hotel VN:

O empresário que adquiriu o hotel faz parte de uma organização criminosa que atua no comércio ilegal de drogas, principalmente cocaína, que é trazida da Bolívia por via terrestre para ser distribuída no sul do país em diversos “polos regionais” onde a demanda pela droga é mais sensível.

A compra do hotel pelo referido empresário faz parte de uma estratégia de consolidação de sua participação no fornecimento de cocaína na região mais meridional do Brasil, onde foi observada uma carência de fornecimento regular do “produto”, uma vez que a região onde o hotel se situa possui vários pequenos fornecedores cujos ganhos de escala são atraentes mas não suficientemente grandes para impedir a entrada de um concorrente de maior calibre.

A aquisição do referido hotel foi a pavimentação do caminho para novos negócios ilícitos e início de uma estratégia geopolítica de aumento de faturamento e de poder por parte do grupo em que atua o referido empresário.

Desde sempre, o empresário sabia das dificuldades operacionais a serem enfrentadas na administração do Hotel Verdes Notas, entretanto, o empreendimento, da maneira como se apresentou, serviu “como uma luva” aos interesses excusos relacionados ao tráfico de cocaína, conforme veremos a seguir.

Os números do negócio:

Quanto custa um quilo de cocaína pura? Quanto custa um carregamento de cocaína? De que forma se paga pela aquisição da droga? Quais as margens de rentabilidade bruta e líquida envolvidas? Qual a quantidade de cocaína que pode ser “esquentada” mensalmente em um empreendimento como o Hotel Verdes Notas? Como atuar de maneira a não gerar suspeitas? Como dar uma aparência legal a tudo isso?

Estas são algumas questões que se pretende abordar nas próximas linhas, para um melhor entendimento do problema.

Um quilo de cocaína negociado no “atacado”, proveniente da Colombia, Peru ou Bolívia, principais fornecedores na América Latina, custa de U$ 1,000.00 a U$ 2,000.00, e pode ser revendido no mercado interno, no “varejo”, por até U$ 15,000.00.

A venda de cocaína no varejo geralmente é realizada em pequenas quantidades, através da confecção de papelotes de um grama, as famosas “buchinhas”, que são vendidas com valores próximos a U$ 15.00. Em valores atuais convertidos para reais, estaríamos falando em R$ 5.000,00 para o quilo da droga no atacado (U$ 1,500.00 x R$ 3,33) e R$ 50,00 o grama no varejo (U$ 15.00 x R$ 3,33), que resulta em R$ 50.000,00 para o quilo da droga (paridade real/dolar em junho de 2017).

Em uma noite “boa”, considerada ativa, pode-se vender em uma “boca” de uma cidade média ou grande, o equivalente a mil papelotes - um quilo, que representa um faturamento de R$ 50.000,00. Considerando-se o custo médio de aquisição de R$ 5.000,00 (custo da mercadoria vendida), chega-se a um lucro bruto de R$ 45.000,00 ou 900% de margem operacional bruta, tudo isso em uma única noite com um quilo de cocaína. São números tentadores para as mentes criminosas.

No próximo artigo será detalhada a operação de ocultação do dinheiro sujo na contabilidade do hotel e a complementação dessa estratégia com a utilização do sistema financeiro, quando é iniciada a fase de dissimulação dos valores ilícitos. 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Estrada & Panela – Los cumbres y la naturaleza

Tempos atrás retornei a um dos lugares mais emocionantes que conheci nesta existência, na região mais austral da América do Sul: a exuberante Patagônia. Emocionante pelas sensações jamais vividas em outras viagens, numa comunhão com a própria criação em estado bruto, bela e assustadora, que faz afundar em nossos corações quaisquer resquícios de vaidade ou narcisismo ainda não sepultados pelas sentenças da vida.

A imensidão das planícies e estepes, as montanhas que parecem não ter fim, os lagos que lembram verdadeiros oceanos, cercados por cordilheiras e neves eternas, tudo ali, numa presença marcante e inabalável, a nos mostrar o quanto somos ínfimos diante da grandeza da criação.

Pode-se dividir a Patagônia em norte e sul. A parte norte começa na região dos lagos, entre o Chile e Argentina, onde ficam San Carlos de Bariloche, San Martin de Los Andes, Puerto Varas e Puerto Montt, e outras pequenas cidades e vilas, distribuídas entre montanhas lindíssimas, vulcões imponentes e lagos cristalinos. Ainda voltarei a escrever sobre essa região em outro post.

Agora gostaria de falar da parte sul, onde o continente americano vai se terminando em uma vasta cadeia de montanhas de um lado e as grandes estepes do outro, dando origem à Cordilheira de Darwin, ao sul da Cordilheira dos Andes, no lado chileno, e à Tierra del Fuego, na parte argentina, a leste, logo abaixo dos labirintos formados pelo Estreito de Magalhães.

Nesta região estão cidades consideradas estratégicas geopoliticamente pela Argentina e Chile, como El Calafate, Rio Gallegos, Ushuaia, Rio Grande, Puerto Natales e Punta Arenas. Além de possuírem logística para receber turistas em busca de natureza e aventura, também contam com grande concentração de efetivos militares para resguardar e proteger fronteiras amplas e solitárias.


Las Torres del Paine


Glaciar Perito Moreno


Canal de Beagle

Mas como o objetivo da seção é falar em comida, vamos às dicas de onde comer e beber bem nos confins da América do Sul. As cidades envolvidas são Puerto Natales, El Calafate e Ushuaia, e as especialidades são as carnes de caça e os peixes de água fria, principalmente o cervo e a truta, além do famoso cordeiro patagônico, em vários matizes e temperos.

Em Puerto Natales, junto às Torres del Paine, a dica é o Restaurante Kosten, localizado na Ave Pedro Montt esquina com a Calle Ladrilleros, bem ao lado do Muelle Viejo, onde você poderá saborear uma quiche de salmão com uma taça de vinho da casa, espetaculares, aproveitando para descansar o corpo e os olhos, enquanto curte a vista do canal que dá acesso ao porto. A paisagem é linda e tranquila. Para maiores informações acesse https://www.atrapalo.cl/restaurantes/kosten_f47409.html

Em El Calafate, ponto de partida para o Glaciar Perito Moreno, guarde uma noite para a Parrilla Mi Viejo, na Avenida San Martin, a principal da cidade, quase ao lado do cassino, cujos assados são preparados calmamente em brasa de lenga, que dá um aroma muito especial aos pratos. Experimente o tradicional cordero patagonico ou a deliciosa trucha a la manteca negra, que também pode ser encontrada no Restaurante La Cocina, na mesma avenida. Não deixe de provar também os saborosos chocolates artesanais produzidos na cidade, a venda em diversas lojas, como a Laguna Negra. Para maiores informações acesse http://elcalafate.tur.ar/lista-de-restaurant.html

Em Ushuaia, quase no fim do mundo, vá ao Bodegon Fueguino, um tradicional restaurante de família que iniciou suas atividades em 1896, com a antiga Casona Fueguina, localizado no centro, na Avenida San Martin - sempre ela, pertinho do porto. O ambiente é rústico e acolhedor, decorado com pelegos e madeira nativa. Peça um cordero a las hierbas, com o acompanhamento desejado, e experimente uma cerveza fueguina Cape Horn Rubia, produzida na região, com alto teor alcóolico e sabor intenso. Para maiores informações acesse http://www.tierradehumos.com/es/bodegon-fueguino-restaurante/

Bom, por hoje é isso. Vou parando por aqui porque a fome tá começando a chegar, bem de mansinho. 

Saudações e bom apetite!

domingo, 1 de outubro de 2017

As empresas de fachada e a lavagem de dinheiro no sistema financeiro – parte 3

O Estudo de Caso do Hotel Verdes Notas

A seguir será apresentado um estudo de caso que envolve um ramo de atividade e um empreendimento considerados facilitadores para a consecução dos crimes precedentes aos crimes de lavagem. A partir de um contexto e sequência de fatos, se demonstrará de que forma recursos obtidos de forma ilícita são disfarçados em supostas transações comerciais ou de prestação de serviços.

Informações gerais e contexto:

O Hotel Verdes Notas está localizado em uma cidade média do sul do Brasil, com população aproximada de 350.000 habitantes. A cidade é um polo regional na área de saúde e educação. Possui universidade federal e boas faculdades privadas, além de grandes hospitais e ótimas clínicas particulares. A cidade não faz parte da rota turística da região.

A economia da região é baseada no setor terciário, no comércio e serviços em geral, com boa rede de serviços bancários. Também existe um setor primário bem desenvolvido, com ênfase para a pecuária extensiva e as culturas de soja e arroz. Apenas o setor secundário, industrial, ainda carece de maior desenvolvimento, sendo que as poucas indústrias existentes são aquelas ligadas ao agronegócio (implementos agrícolas, construção de armazéns e silos, secadores, dentre outros).

O setor hoteleiro possui algumas limitações em função da falta de vocação da cidade para o turismo e da dependência da região dos negócios oriundos da agropecuária. É característica do setor uma ocupação mais alta em dias úteis e maior vacância de leitos em finais de semana e feriados, quando os negociantes e representantes comerciais voltas às suas origens. O setor ainda sofre com as crises que envolvem as safras de arroz e soja - quando chove demais ou de menos – que levam à redução dos recursos que fazem os negócios “girarem”.

Na cidade existem em torno de dez hotéis considerados aptos a fornecerem serviços de hospedagem dignos por preços acessíveis ou compatíveis com os serviços prestados. Destes, três são considerados de baixo custo, apenas para pernoite, enquanto seis podem ser classificados como médios, mais novos e com melhores serviços de hospedagem e alimentação.

Apenas um destes hotéis, o Hotel Verdes Notas, é considerado de maior porte, sendo um dos mais antigos da cidade e região, com diárias mais caras e serviços mais completos. Entretanto, por ser mais antigo, também possui instalações mais antiquadas e um custo de manutenção mais alto.

Nos últimos anos, o Hotel VN passou por reformas que o tornaram mais adequado às novas exigências sanitárias e de segurança, e também para poder concorrer com os novos hotéis, menores, porém mais modernos e adequados aos novos tempos e exigências dos clientes, com preços mais compatíveis.

Mesmo passando por adaptações nos últimos anos, o Hotel VN não conseguiu reverter uma situação crônica de descontrole financeiro e carência de capital de giro, sendo vendido para um empresário de outra região, desconhecido na cidade, ligado ao ramo de entretenimento, com negócios relacionados danceterias, motéis e restaurantes.

Nos dois últimos anos, o hotel passou por novas reformas e começou a mostrar sinais de recuperação, atuando fortemente na mídia, com maior oferta de promoções, propagandas em rádio, televisão e internet, e com a realização de eventos como shows, palestras e seminários.

Informações operacionais:

O hotel possui cerca de 120 apartamentos distribuídos em dez andares, com estacionamento privativo e restaurante no térreo, além de serviços de café da manhã, lavanderia e tele-entrega, dentre outros. As diárias cobradas variam de R$ 200,00 (apartamentos mais simples para uma ou duas pessoas) a R$ 450,00 (suítes para casais), passando por apartamentos de luxo com diárias de R$ 320,00. São 70 apartamentos simples, 30 apartamentos de luxo e 20 suítes.

A taxa de ocupação histórica é de 45% a 50% nos apartamentos simples e de luxo, e de 20% nas suítes, um problema crônico relacionado com as características da cidade (renda per capita média, cidade não turística, baixa ocupação nos finais de semana e alta dependência do agronegócio) e também em  função da concorrência, com hotéis de menor custo, mais novos e modernos. Os dados referem-se aos três últimos anos antes da troca da administração do hotel, não considerados os últimos dois anos da nova administração.

Desta forma, o faturamento médio histórico do hotel pode ser evidenciado conforme a seguir:

Quadro 1 - Faturamento histórico real do empreendimento – Em reais
NÚMERO DE LEITOS
TIPO
TAXA DE OCUPAÇÃO
EM %
VALOR DA DIÁRIA
OCUPAÇÃO MÉDIA DIÁRIA
OCUPAÇÃO MÉDIA MENSAL
OCUPAÇÃO MÉDIA ANUAL
70
Apartamento simples
47,5
200,00
6.650,00
199.500,00
2.394.000,00
30
Apartamento luxo
47,5
320,00
4.560,00
136.800,00
1.641.600,00
20
Suíte
20
450,00
1800,00
54.000,00
648.000,00




13.010,00
390.300,00
4.683.600,00

Detalhamento dos cálculos:
- apartamentos simples: 70 apartamentos x 47,5% x R$ 200,00 = R$ 6.650,00;
- apartamentos luxo: 30 apartamentos x 47,5% x R$ 320,00 = R$ 4.560,00;
- apartamentos suíte: 20 apartamentos x 20% x R$ 450,00 = R$ 1.800,00;
- montante médio de ocupação diária = R$ 13.010,00;
- montante médio de ocupação mensal = R$ 390.300,00;
- montante médio de ocupação anual = R$ 4.683.600,00 (faturamento médio anual)

Após a troca da administração, o Hotel Verdes Notas passou a apresentar um índice de ocupação médio superior aos anos anteriores, preservando os valores das diárias que vinham sendo praticados. A taxa média de ocupação saltou de 47,5% para 85%, inclusive para as suítes, que possuiam ocupação média de apenas 20%.

Assim, os números do hotel passaram a outros patamares, conforme detalhado a seguir:

Quadro 2 - Mensuração do faturamento fictício do empreendimento – Em reais
NÚMERO DE LEITOS
TIPO
TAXA DE OCUPAÇÃO EM %
VALOR DA DIÁRIA
OCUPAÇÃO MÉDIA DIÁRIA
OCUPAÇÃO MÉDIA MENSAL
OCUPAÇÃO MÉDIA ANUAL
70
Apartamento simples
85
200,00
11.900,00
357.000,00
4.284.000
30
Apartamento luxo
85
320,00
8.160,00
244.800,00
2.937.600,00
20
Suíte
85
450,00
7.650,00
229.500,00
2.754.000,00




27.710,00
831.300,00
9.975.600,00

Detalhamento dos cálculos:
- apartamentos simples: 70 apartamentos x 85% x R$ 200,00 = R$ 11.900,00;
- apartamentos luxo: 30 apartamentos x 85% x R$ 320,00 = R$ 8.160,00;
- apartamentos suíte: 20 apartamentos x 85% x R$ 450,00 = R$ 7.650,00;
- montante médio de ocupação diária = R$ 27.710,00;
- montante médio de ocupação mensal = R$ 831.300,00;
- montante médio de ocupação anual = R$ 9.975.600,00 (faturamento médio anual dos últimos dois anos)

No próximo artigo você conhecerá a verdadeira história do Hotel Verdes Notas, saberá como a nova gestão conseguiu aumentar surpreendentemente o faturamento do empreendimento e descobrirá o verdadeiro motivo que determinou a compra do hotel pelo atual proprietário.

Quanto custa?

O velho ditado diz: tudo na vida tem seu preço. Costumo acrescentar: tudo na vida, que está à venda, tem seu preço. Aquilo que está à ve...